Os preços do minério de ferro alcançaram o maior patamar em pelo menos 13 anos na última semana, impulsionados pela demanda aquecida de aço na China e nos Estados Unidos e a relativa limitação na oferta da commotidy no mercado global. A tonelada de minério com teor de 62% de ferro chegou a se aproximar de US$ 200, a maior cotação desde 2008.
Apesar de já apresentar leve queda desde então, recuando a cerca de US$ 192, os resultados ainda são considerados positivos e a expectativa é que a commotidy siga em alta. Para especialistas, trata-se de um mercado que ainda tem boas perspectivas pela frente, o que pode beneficiar a economia do Espírito Santo e também ser uma oportunidade para os investidores.
Conforme observou o planejador financeiro Renan Lima, CFP da Meu Patrimônio, nesta semana o presidente norte-americano Joe Biden apresentou um pacote trilionário de investimentos em infraestrutura para aquecer economia. Já no Oriente, a China vem se recuperando fortemente da retração apresentada durante a primeira fase da pandemia do novo coronavírus.
“Temos uma injeção de recursos muito grande na economia e um aumento natural na demanda por minério de ferro para viabilizar esses projetos, o que é bastante benéfico para as empresas produtoras. A Vale, por exemplo, que tem a commodity como produto principal, acaba ganhando bastante com isso.”
Lima pontua que, apesar do bom momento, não necessariamente isso irá refletir em um aumento de produção pela companhia, que poderia, por exemplo, simplesmente manter as atividades como estão e lucrar com a valorização do preços.
“Se vai fazer isso ou se vai aumentar a produção e ganhar mais mercado, depende mais de questões estratégicas da empresa do que de qualquer outro fator”, frisou. Vale lembrar que a produção de pelotas pela Vale no Estado está em queda desde 2020.
Há que se considerar ainda que a estratégia da mineradora e suas metas de produção são anuais e pré-definidas, lembra um analista do setor da mineração que preferiu não se identificar. Com isso, os planos não devem mudar radicalmente em função das oscilações de preço, mas podem acontecer eventuais ajustes para aproveitar o momento tanto na Vale como em outras empresas do setor.
O especialista cita o exemplo da Samarco, que também tem se beneficiado com os altos preços do minério. A manutenção ou mesmo a contínua elevação dos preços no mercado internacional pode fazer com que a mineradora, que hoje opera somente 26% de sua capacidade produtiva, adiante seu cronograma que prevê que a retomada plena das atividades só em 2030.
A Samarco ficou cinco anos com as operações paralisadas após o rompimento da barragem de Mariana, em 5 de novembro de 2015, voltando a extrair minério de ferro apenas no fim de 2020 em Minas Gerais e religando uma das plantas de pelotização na unidade de Ubu, em Anchieta.
No último dia 9, a mineradora controlada pela Vale com a australiana BHP Billiton entrou com pedido de recuperação judicial a fim de renegociar as dívida da empresa. Segundo o especialista ouvido pela reportagem, o alto preço do minério combinado com um eventual aumento da produção poderiam ajudá-la a quitar os débitos de forma célere.
A cadeia do minério é hoje uma das mais fortes da economia capixaba. A Vale já chegou a ser responsável por cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, por exemplo. Já a Samarco antes da tragédia em Mariana alcançou mais de 6% do PIB capixaba e hoje responde por menos de 2%, participação que deve crescer com o aumento da produção.
OPORTUNIDADE PARA INVESTIDORES
A valorização do minério de ferro no mercado global também beneficia os investidores. Após a primeira onda da Covid-19, no primeiro semestre de 2020, o mercado chinês, principalmente, voltou a realizar estoque de minério de ferro já prevendo a retomada, conforme observou o economista Orlando Caliman.
Ainda no ano passado, quando a maioria das economias apresentou retração, aquele país teve crescimento acima de 1%. Hoje, já existe a expectativa de que o PIB chinês cresça acima de 8% em 2021. Esse fortalecimento da economia passa diretamente pelas obras de infraestrutura, que precisam justamente do minério (aço) para serem executadas.
“Tivemos uma melhora do cenário externo até mesmo antes do que se imaginava, e esse aquecimento da economia continua acontecendo. Vivemos um boom de commodities. Se isso vai se sustentar no longo prazo é difícil dizer, mas, por enquanto, as empresas que exportam esses produtos acabam sendo bastante beneficiadas.”
Ele aponta que no caso da Vale, por exemplo, além de ser um de seus principais produtos, trata-se de uma empresa sólida que tem buscado se reestruturar e diversificar os negócios. Com isso suas ações são consideradas relativamente seguras, apesar de estarem ligadas às commodities.
"Enquanto não se pode prever o que vai acontecer lá na frente, no curto e no médio prazo, a tendência é que a empresa continue bem valorizada, o que pode atrair mais investidores. Não acredito que deve ocorrer mais nenhum grande evento que puxe o preço dos ativos para um patamar muito baixo"
Para o sócio da Pedra Azul Investimentos, Frederico Neraldo Lopes, a empresa tem mostrado uma boa capacidade de sobrevivência à crise apesar das quedas de produção observadas ao longo do ano passado e até mesmo no primeiro trimestre deste ano.
Em comparação com a diminuição de produção observada por outras companhias do mesmo segmento, as perdas da mineradora não foram tão acentuadas.
“A Vale tem ainda a vantagem de produzir um minério de maior qualidade, que faz com que o valor agregado seja um pouco maior, por causa do ‘prêmio’ que recebe por isso. Se ela mantiver a oferta e o preço da commodity se mantiver nesse patamar elevado, a valorização da companhia não é especulação. A companhia tem hoje um lucro condizente com o preço da ação, que custa cerca de R$ 112, mas esse preço pode subir mais. Algumas consultorias avaliam que pode chegar a até R$ 150.”