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Realidade desigual

Mulheres ocupavam 94% dos empregos formais extintos em 2020 no ES

Dados do Caged apontam que a participação feminina no mercado formal caiu significativamente entre janeiro e setembro. Das 11,4 mil vagas cortadas, 10.781 eram de mulheres

Publicado em 09 de Novembro de 2020 às 21:58

Caroline Freitas

Publicado em 

09 nov 2020 às 21:58
Desigualdade salarial e discriminação podem aumentar no mercado de trabalho
Desigualdade pode aumentar entre mulheres e homens no mercado de trabalho Crédito: Freepik
O mercado de trabalho nunca esteve tão desafiador. Em meio à pior crise já vivenciada, milhares de empresas se viram forçadas a cortar gastos, e enxugar a folha de pagamento foi uma das estratégias. As demissões, é claro, foram muitas. Entre janeiro e setembro, 216.772 trabalhadores formais perderam o emprego no Espírito Santo.
Embora outros 205.340 tenham sido contratados, existe ainda um saldo negativo de 11.432 vagas, número de postos de trabalho que foram fechados segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia. Chama a atenção, porém, o fato de que 94% dos postos de trabalho extintos em 2020 eram ocupados por mulheres.
O dado mostra como o sexo feminino foi a maior vítima dos efeitos da pandemia do novo coronavírus no emprego formal, uma desigualdade com efeitos difíceis de contornar.
Os homens perderam 651 vagas neste ano, enquanto a população feminina capixaba perdeu 10.781 colocações com carteira de trabalho assinada. Os segmentos que mais demitiram foram comércio e serviços.
“Historicamente, são áreas em que há grande participação feminina. E como são os setores que sofreram bastante com essa crise provocada pela pandemia da Covid-19, uma coisa acabou levando à outra”, destacou a diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Espírito Santo (ABRH-ES), Alessandra Zanotti.
Para se ter ideia, 5.295 mulheres perderam seus cargos no comércio este ano – mais que o dobro do impacto sentido pela população masculina (2.172). No setor de serviços, a situação se inverte, mas com uma diferença muito menor: 5.086 homens e 4.384 mulheres perderam seus empregos.
A diretora da ABRH-ES observa que as principais prejudicadas foram as mulheres que são mães, que, mesmo agora, com uma sutil melhora da economia, encontram dificuldades para retornar ao mercado.
Alessandra Zanotti, diretora da ABRH-ES
Alessandra Zanotti, diretora da ABRH-ES Crédito: Divulgação/ABRH-ES
Uma das mulheres que ficaram desempregadas devido à crise foi Agatha Fabya Rodrigues da Silva, de 33 anos. Mãe de um adolescente de 14 anos, e um menino de 3, ela e outros 25 colegas foram dispensados no final de março por uma empresa que prestava serviço de balanço financeiro para lojas.
“Era uma empresa que só fazia isso. E, já prevendo que as lojas seriam prejudicadas pela pandemia, nosso chefe nos dispensou. Desde então, estou desempregada”, conta.
A renda da casa, segundo Agatha, atualmente vem de três fontes: um pequeno valor da pensão paga pelo pai das crianças, o auxílio emergencial, pago pelo governo federal, e ajuda de familiares. 
Ela conta que costumava fazer penteados e tratamentos capilares, atendendo a domicílio, mas, devido ao coronavírus, perdeu clientes, que deixaram de aceitar pessoas de fora em casa.
“É uma situação complicada. A gente vai se ajeitando como dá, mas, sem ter com quem deixar os filhos, é difícil até mesmo procurar emprego agora. Como é que se paga alguém para tomar conta das crianças ganhando um salário mínimo?”

QUALIFICAÇÃO

De modo geral, profissionais de todos os graus de instrução foram prejudicados. Mas, o único caso em que as mulheres sentiram o impacto da crise de forma mais suave que os homens foi em relação aos cargos que exigem nível superior.
Conforme destacou a psicóloga e especialista em carreiras, Gisélia Freitas, em geral, as mulheres tendem a alcançar patamares mais altos quando é assunto é qualificação.
Ainda assim, ela explica que muitas empresas, ao escolher quem vão mandar embora, tendem a optar por mulheres, principalmente as casadas, porque consideram que uma vez que o marido já tem um emprego, a perda não vai ter o mesmo peso.
“As empresas tendem a não demitir tantos homens porque enxergam que eles ainda são os provedores do lar. A renda da mulher, na visão de muitos empresários, é como se fosse algo para elas – um dinheiro extra –, muito embora, hoje, cerca de 30% das famílias sejam chefiadas por mulheres”, destaca.
A especialista frisa ainda que, apesar de ser problemática, esta ainda é uma visão enraizada por muitos empresários. Os empregadores costumam entender que se a mulher é jovem e solteira, por exemplo, mora com os pais e não precisa da renda. Se é casada, já tem o marido para sustentá-la.
Existem ainda outros preconceitos ligados ao gênero. Embora as mulheres tenham relacionamentos mais fáceis, trajetórias profissionais mais sólidas e grau de instrução mais elevado, muitas empresas optam por manter homens no quadro de pessoal porque entendem que estão menos suscetíveis a enfrentar problemas emocionais que, porventura, poderão refletir na produtividade.
Gisélia Freitas, especialista em carreira
Gisélia Freitas, especialista em carreira, diz que até ela perdeu contratos na pandemia Crédito: Gisélia Freitas/Divulgação
“Esse ano foi difícil olhando por este lado. As mulheres foram muito mais afetadas emocionalmente durante a pandemia. Elas ficaram mais estressadas, mais angustiadas, tiveram depressão. Tiveram que lidar com filho dentro de casa, com trabalho dentro de casa”, comenta a especialistas, que conta ainda que ela mesma chegou a perder alguns projetos porque não conseguia se ausentar de casa por longos períodos devido à presença da filha.
"O home office era um sonho, mas, da forma como surgiu, pegou muita gente despreparada. Idealmente, a criança estaria na escola, e não ali dentro de casa, demandando a divisão das atenções com o trabalho. Diante disso, a produtividade de algumas mulheres acabou diminuindo, e isso levou a uma série de problemas, incluindo a demissão"
Gisélia Freitas - Psicóloga e especialista em Carreiras
Há de se observar ainda outro detalhe: a partir de julho, quando as empresas começaram a ter algum fôlego e voltaram a contratar, a maioria das vagas criadas foram preenchidas por homens.
Neste cenário, iniciativas como o auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal a desempregados, informais, entre outros grupos, ajudou a compor a renda de famílias que, de outra forma, não teriam como prover seu sustento.
Para as mulheres chefes de família, foi paga uma cota dupla do benefício, justamente por haver o entendimento de que não teriam outra forma de se manter. Recentemente, entretanto, o valor do benefício foi reduzido pela metade.
Como muitas escolas ainda estão fechadas, principalmente na rede municipal, as mulheres continuam amargando prejuízos. Por não terem com quem deixar os filhos, elas encontram mais dificuldades de voltar ao mercado de trabalho. E quanto maior o tempo de afastamento, mais difícil tende a ser obter uma recolocação.

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