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Renovação

Novo conselho da Vale: entenda o que pode mudar na empresa e para o ES

Mais pulverizado, Conselho de Administração eleito por acionistas da mineradora foi visto com bons olhos pelo mercado. Práticas de governança, ambientais e sociais devem ser reforçadas

Publicado em 04 de Maio de 2021 às 20:51

Caroline Freitas

Publicado em 

04 mai 2021 às 20:51
Complexo da Vale: produção de pelotas de ferro
Complexo da Vale: produção de pelotas de ferro Crédito: Vale/Divulgação
Poucos dias após a alcançar a posição de companhia mais valiosa da América Latina, ao ultrapassar US$ 100 bilhões em valor de mercado, a Vale elegeu nesta semana os novos membros do seu Conselho de Administração, que serão responsáveis por definir o rumo da mineradora pelos próximos dois anos.
Na lista, há nomes de peso como José Duarte Penido — ex-presidente da Samarco, com passagem também pela antiga Fibria Celulose —, que foi eleito presidente do conselho (chairman); e Roberto Castello Branco, ex-presidente da Petrobras e ex-diretor da mineradora, que perdeu a disputa para chairman mas vai ocupar uma posição como conselheiro.
Para analistas, não são esperadas mudanças bruscas no planejamento de investimentos da empresa ou na forma de gestão de funcionários e fornecedores de modo geral, o que por si só já é um bom sinal. Por um lado, a expectativa é que o novo conselho reforce iniciativas na área chamada de ESG (ambiental, social e de governança), cada vez mais demandada pelos investidores a nível global. Além de fortalecer o crescimento da empresa, essas ações podem beneficiar também a economia do Espírito Santo.
Em um momento em que o mercado de mineração está aquecido por conta da demanda de aço na China e nos Estados Unidos, provocando uma escalada nos preços do minério de ferro, o reforço nas práticas ambientais e de governança pode melhorar a imagem da empresa no exterior e ampliar ainda mais sua competitividade. Outra expectativa é que o novo conselho, mais diverso e sem controladores, tome decisões mais plurais, pensando em todos os investidores.
“Desde a época da tragédia de Brumadinho temos observado uma mudança muito grande no foco da Vale, que tem conseguido se adaptar bem as responsabilidades que os investidores vem cobrando cada vez mais. Em fevereiro, por exemplo, ela fechou um acordo bilionário com o governo de Minas Gerais para a reparação dos danos causados pelo acidente”, observou o assessor de investimentos da Valor, Romero Oliveira.
Mas os esforços passam não apenas pela mitigação de danos, mas também pela intensificação de iniciativas que visam prevenir novos acidentes, um cuidado que reduz também os riscos para os investidores e até para a própria economia capixaba, evitando que o Estado sofra novamente com a queda de produção de pelotas, como ocorreu após o rompimento das barragens de Mariana (Samarco)e Brumadinho.
O especialista destaca ainda que o fato de que o novo conselho é composto por membros com experiência na área da mineração e também outros tipos de commodities, cuja atividade requer uma atenção similar, só tem a agregar à companhia.
“Foram eleitos nomes de peso e isso traz até um pouco mais de confiança para os acionistas de que a empresa vai continuar fazendo um bom trabalho. Para a Vale, é um dos melhores momentos nos últimos anos, com valorização da commodity, aumento da demanda e alinhamento com os anseios do mercado. Então, há boas perspectivas.”
O economista e sócio da Golden Investimentos, Thomas Giuberti, pontuou ainda que a empresa já vinha avançando em ações que visam a melhoria de sua governança desde o fim do bloco de controle na estrutura acionária da empresa, em novembro do ano passado. Hoje, a Vale é uma companhia com o capital pulverizado na Bolsa de Valores, sem um controlador definido.
“Agora, temos também a presença de quatro conselheiros fora do grupo majoritário, e isso enriquece os debates. Surgem novas cabeças pensantes na hora de tomar decisões, o que tende a ser algo positivo.”
Giuberti considera que essas mudanças não devem ter impacto direto na produção da companhia, que é o núcleo das atividades da Vale.
Essa também é a percepção do presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado do Espírito Santo (Sindifer-ES), Luis Soares Cordeiro, segundo o qual, os planos da companhia são executivos, pré-estabelecidos, e que, independentemente da troca dos conselheiros, os acionistas tendem a seguir com o que já está previsto.
“O orçamento da empresa já está aprovado, os planos já estão aprovados, e, por ora, não há mudanças. Talvez nos próximos anos vejamos uma alteração ou outra, mas não acho que aconteça qualquer coisa prejudicial. De modo geral, os acionistas buscam o melhor para a empresa, que é a continuidade de suas operações e a continuidade do lucro.”
Ele descarta, por exemplo, que para isso a empresa adote ações de contenção de gastos, como cortes de benefícios realizados pela Petrobras em 2019 sob a gestão de Castello Branco.
“O momento que estamos vivendo é de fartura para o setor. Se estivéssemos com o minério de ferro no fundo do poço, era outro assunto, mas o minério vive um bom momento, e a tendência é só de crescimento. Na nossa percepção, o conselho ficou mais competente, cresceu mais, e a Vale só tem a ganhar com a pluralidade de ideias.”

ENTENDA AS MUDANÇAS NO CONSELHO DA VALE

A assembleia em que foi definido o novo conselho foi a primeira desde o fim do bloco de controle na estrutura acionária da empresa, em novembro do ano passado, quando acionistas como BNDES, Bradespar, Mitsui, Previ e outros fundos de pensão de estatais deram fim ao acordo de acionistas e passaram a vender suas ações. Com isso, a Vale deixou de ter um controlador definido.
José Duarte Penido é quem vai presidir o conselho administrativo da companhia. Ele esteve à frente da Samarco de 1992 a 2003, além de ter comandado o conselho da Fibria Celulose por dez anos. Penido disputou a liderança do conselho com Roberto Castello Branco, demitido da Petrobras pelo presidente Jair Bolsonaro neste ano.
Hoje, a Vale tem cerca de 300 mil sócios, entre pessoas físicas e investidores institucionais, sendo que 65% do capital está em poder de estrangeiros e 35% nas mãos de investidores nacionais.
Conforme explicou o analista de negócios e sócio-fundador da Pedra Azul Investimentos, Lélio Monteiro, por muito tempo a mineradora teve como principais acionistas a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a Bradespar, empresa de participações do Bradesco, e a japonesa Mitsui. Esse grupo atuava de forma coesa, em bloco, ditando os rumos da companhia por cerca de duas décadas.
Desde 2017 a Vale vinha se empenhando em se transformar em uma empresa sem controle definido, mais pulverizada. Esse movimento avançou mais amplamente no final do ano passado, quando o acordo de acionistas da companhia chegou ao fim, e foi estabelecida uma Assembleia Geral Ordinária (AGO) para escolha do novo conselho.
Monteiro frisa, porém, que apesar da pulverização já estar prevista, o antigo grupo controlador tentou sugerir todos os nomes para o conselho. Contudo, os acionistas minoritários, que tinham interesse em se fazer mais representados, pressionaram para que pudessem indicar quatro nomes.
Com isso, ficaram de fora quatro nomes independentes indicados pelo comitê criado pela Vale: Elaine Dorward-King (conselheira da Resources for the Future, voltado para pensar ambientais), Sandra Maria Guerra (conselheira da Vale atualmente), Clinton James (diretor da Universidade Griffith, na Austrália) e Maria Fernanda dos Santos Teixeira (sócia da F. Teixeira Sociedade de Advogados).
Além de Castello Branco, Marcelo Gasparino, que já era conselheiro da Vale e renunciou ao cargo de conselheiro da Petrobras mês passado; Rachel Maia, que é conselheira do Grupo Soma, do ramo de vestuário, e ex-presidente de marcas de luxo como Lacoste e Tiffany no país; e Mauro Cunha, ex-presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), ocuparam as posições, indicados pelos acionistas minoritários.
As outras vagas foram preenchidas por José Maurício Pereira Coelho (presidente da Previ), Eduardo de Oliveira Rodrigues Filho (conselheiro da Vale atualmente), Fernando Jorge Buso Gomes (presidente da Bradespar), Ken Yasuhara (diretor da Mitsui), Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira (independente e fundador do fundo Greengrove Capital), Roger Allan Downey (independente e conselheiro da Vale atualmente) e Murilo Cesar Lemos dos Santos (independente e presidente do Conselho de Administração da Tegma).
Penido, eleito presidente, também foi indicado pela mineradora. Há ainda um 13º conselheiro, que representa os funcionários, e já havia sido eleito.
"É um movimento inédito para a Vale, mas é normal que num conselho de administração os minoritários queiram se fazer ouvidos. O mercado vê isso como um processo natural e o que tenho ouvido de investidores é que há, inclusive, certa satisfação em ver um conselho mais plural, que permitirá que as deliberações reflitam os interesses de todos, e não de um grupo apenas"
Lélio Monteiro - Analista de negócios e sócio-fundador da Pedra Azul Investimentos
Ele observa que, refletindo essa confiança, nesta terça (4) as ações da Vale na B3 apresentavam alta de 1,51%. 
O planejador financeiro e CFP® da Meu Patrimônio, Renan Lima, observa que a renovação do conselho é considerada saudável e que resta agora esperar pelo desenrolar do caso e observar como se dará a tomada de decisões pelo grupo.
Ele pontua, por exemplo, que, com a mudança, a Vale se torna mais parecida com uma corporação, com controle mais pulverizado, mas que isso tende a beneficiar a companhia que, desde sua privatização, se destaca pela sua capacidade de governança.
“São pessoas de experiência assumindo o conselho e não há, até então, nenhum temor por qualquer impacto negativo. O que pode mudar é que o conselho passará a enxergar o que é melhor para a companhia de maneira geral, em vez de eventualmente defender interesses de um ou outro grupo acionista. Quando se tem um controlador, esse bloco tem mais peso. Como isso foi extinto, os conselheiros terão mais liberdade para executar suas funções, olhando por essa ótica pulverizada.”

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