A parcela de agosto do Auxílio Brasil, com o novo valor de R$ 600 - válido até dezembro -, começou a ser paga nesta terça-feira (9). Mas o recurso que chega às contas de 293.734 beneficiários no Espírito Santo não deve ser suficiente para trazer de volta ao carrinho de compras itens que deixaram de ser consumidos por conta da alta dos preços. Isso porque, em Vitória, a cesta básica, com 13 produtos, já custa em média R$ 700,75, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Na cesta básica, constam produtos como carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, legumes (tomate), pão francês, café em pó, frutas (banana), açúcar, banha/óleo e manteiga. Em comparação a abril de 2020, quando o governo federal aprovou pagamento de auxílio emergencial com o mesmo valor do atual Auxílio Brasil, o preço da cesta básica na Capital teve um aumento de 30% - o custo era de R$ 537,89 naquela ocasião.
Apesar de a Grande Vitória ter apresentado deflação de 1,31% em julho, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta terça-feira (9), os preços dos alimentos continuam subindo e tiveram alta de 1,61% no último mês. Entre as maiores altas estão do leite longa vida, que ficou 30,78% mais caro; do mamão, aumento de 10,46%; e do queijo, 10,10%.
Novo valor do Auxílio Brasil não compra uma cesta básica em Vitória
E esse cenário de alta de preços corre o risco de persistir, na opinião de alguns economistas. Isso pode desvalorizar ainda mais o novo Auxílio Brasil e sacrificar o poder de compra de famílias que continuam se ressentindo dos efeitos da pandemia, seja em função do desemprego seja por causa da queda no salário.
De acordo com os especialistas, entre os fatores que podem contribuir para o aumento da inflação no país estão o cenário incerto das eleições e ainda os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia.
“O auxílio é uma medida pontual, não uma solução, que veio para tentar atender uma parcela da sociedade sem renda ou com uma renda bem pequena”, explicou o economista Ricardo Paixão.
Entretanto, de acordo com o economista, os gastos para cobrir o benefício podem piorar ainda mais a inflação no futuro. Isso porque a PEC Kamikaze, que autorizou o aumento no valor do Auxílio Brasil e a criação dos auxílios caminhoneiro e taxista, deve adicionar um custo de R$ 41,2 bilhões às contas públicas não previsto no orçamento deste ano, rompendo o teto de gastos, definido em lei no ano de 2016.
“O auxílio vai custar um valor alto para os cofres públicos. Significa que o governo está se endividando. Estamos no meio de uma armadilha. Não podemos criticar o benefício, porque vem para ajudar uma parte da população que é vítima dessa inflação e do desemprego. Entretanto, o benefício vai até dezembro. E causa um desequilíbrio, com efeito colateral de agravar as contas públicas do governo. Lá na frente, a fatura vai chegar para a sociedade pagar, podendo agravar o problema da inflação, que será maior a longo prazo”, destacou Ricardo Paixão.
O economista Vaner Correa, porém, enxerga um cenário de otimismo para os próximos meses. Mesmo com o novo valor do Auxílio Brasil e o aumento de gastos pelo governo federal, ele acredita que a tendência será de queda da inflação.
“Se formos analisar as forças internas da economia, temos um movimento de melhoria neste segundo semestre. Claro que há uma preocupação com o conflito entre Rússia e Ucrânia. Mas estamos conseguindo, com essas medidas do governo federal, ter um semestre melhor. Na minha opinião, os próprios meses serão de melhoria”, disse Vaner.
No entanto, Ricardo Paixão acredita que as eleições serão um complicador para um cenário otimista.
“Não há muito o que comemorar. Estamos diante de um cenário eleitoral, de incertezas e os preços podem mudar. Ora aumentam, ora diminuem. Para a camada mais humilde, na qual a renda varia e fica abaixo do salário mínimo (R$ 1.212), a única preocupação é a alimentação. Com a alimentação cara, muitas dessas pessoas acabam precarizando o que comem. Se o cenário não melhorar, pode aumentar o número de pessoas que vivem em condição de pobreza extrema”, analisa Ricardo Paixão.