A nova gasolina brasileira, que prometia melhorar a performance e a eficiência dos veículos e reduzir o consumo, está sendo comercializada em todos os postos do Espírito Santo desde agosto do ano passado, segundo a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) e a Petrobras – que responde por quase todo abastecimento das distribuidoras no país. No entanto, com a escalada nos preços do combustível, os consumidores têm tido dificuldades em perceber a diferença no motor e no bolso.
Chamada de gasolina com "padrão europeu", a nova fórmula passou a ser obrigatória no país. O prazo inicial estipulado pela ANP para que todos os distribuidores e postos se adequassem ao novo padrão era o dia 3 de novembro de 2020. Nessa primeira fase, o valor mínimo de octanagem RON para a gasolina comum deveria ser de 92 e, em uma segunda fase, que começaria em janeiro de 2022, chegaria a 93.
Segundo a ANP e a Petrobras, no entanto, ainda no início do ano passado a produção estava adequada à nova regra, tendo alcançado o padrão de 93 RON antes do tempo estipulado. Em outros países, como os europeus, por exemplo, o RON é de 95. De acordo com as novas determinações da ANP, para a gasolina premium ou aditivada, o RON passou a ser de 97 desde agosto do ano passado.
"A partir do momento que a ANP publicou a resolução em janeiro/2020, a Petrobras iniciou o ajuste de seus processos para garantir o atendimento à nova especificação, tendo atingido os limites da nova especificação bem antes do início de sua vigência, em agosto de 2020. A gasolina do Espírito Santo atende à nova especificação da ANP desde 3/8/2020 com RON 92. No caso das gasolinas oriundas das refinarias da Petrobras é garantido o valor típico de RON 93", disse a Petrobras, por nota.
Existem dois parâmetros de octanagem – Motor Octane Number (MON) e Research Octane Number (RON). No Brasil, antes da mudança, só era especificado o MON e o índice antidetonante (IAD), que é a média entre MON e RON.
Além do parâmetro de octanagem, a nova gasolina alterou o estabelecimento de valor mínimo de massa específica, de 715,0 kg/m3, deixando o combustível com mais energia para diminuir o consumo, e o valor mínimo para a temperatura de destilação em 50% (T50) para a gasolina A, de 77ºC. Essa alteração melhora o desempenho e o aquecimento do motor.
A Petrobras garante que estudos foram feitos para atestar a eficiência do novo combustível, mas não detalha os resultados. O instrutor de manutenção automotiva do Senai, Anderson Gonçalves Pardinho, explica que dois fatores dificultam a garantia de que a mudança trouxe ganhos para o consumidor. Primeiro, porque para aferir a qualidade do combustível vendido seria necessário fazer testes em laboratórios, Segundo, a escalada de preços dificulta até mesmo uma comparação simples feita pelo próprio consumidor.
"É um novo combustível, mas depois vieram aumentos consecutivos no preço e um maior rendimento não foi percebido pelo consumidor. Talvez ele poderia perceber se mudasse o combustível e mantivesse o valor para comparar se tem um rendimento maior, se está andando mais e gastando menos que antes", aponta.
Um aumento expressivo do preço foi notado nas bombas. Com a alta do dólar e da cotação do barril de petróleo no mercado internacional, em janeiro deste ano, por exemplo, a gasolina comum em solo capixaba chegou a seu maior patamar de preço em 11 meses. Na época, o preço médio chegava a R$ 5,08. Em março, chegou a R$ 6,00. Agora, está em R$ 5,70 segundo o monitor da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz).
Quando foi anunciada a nova gasolina, era esperado que o combustível custasse um pouco mais para o bolso do consumidor. A Petrobras argumenta, no entanto, que a alteração no valor está muito mais ligada a outros fatores do que a qualidade da gasolina em si. "O valor da gasolina é muito mais sensível a outros fatores (valor do petróleo, taxa de câmbio, frete) do que aos parâmetros que foram alterados", sustenta.
Entre os fatores que definem o preço na bomba estão impostos federais e estaduais, margem de distribuição e margem de revenda.
Com tantos fatores incidindo sobre a mesma questão, os consumidores tem dificuldade de atestar a melhora. Ricardo Rodrigues, de 30 anos, mora em Vitória e usa o veículo para trabalhar na Serra, mas não sentiu a diferença.
"Não percebi nenhum ganho na autonomia do carro e muito menos alívio no bolso. Pelo contrário, parece que está cada vez mais caro, o que nos obriga a pensar em alternativas e deixar o carro em casa", relata.