O prejuízo de R$ 165 milhões que a Unimed Vitória acumulou com a aplicação em fundos da Infinity Asset é alvo de investigação da Polícia Federal. A gestão da cooperativa, que assumiu em março deste ano, decidiu fazer uma queixa-crime, com a entrega de documentos referentes às aplicações feitas nos últimos anos.
Informações obtidas pela reportagem de A Gazeta são de que os documentos foram entregues à Polícia Federal no Espírito Santo. Após análise, o órgão decidiu encaminhar o caso para ser investigado pela equipe de São Paulo, onde fica a sede da gestora dos fundos e onde, supostamente, teria ocorrido o crime. Em nota, a corporação policial paulista informou que “não se manifesta sobre eventual investigação em andamento”.
Por nota, a Unimed Vitória explica que, desde que tomou conhecimento sobre o caso envolvendo os fundos da Infinity Asset, tem adotado providências para resguardar a cooperativa, seus cooperados, colaboradores e clientes. "Entre as ações, está o registro de queixa-crime junto à Polícia Federal, sobre a qual a cooperativa não pode fornecer nenhuma informação para não prejudicar as investigações em curso", informa.
Até o momento, as assembleias com os cotistas do fundo Infinity Asset, incluindo a Unimed Vitória, não foram promissoras. Após três encontros, a sinalização é de que a devolução dos recursos retidos poderá ocorrer em março do próximo ano.
Unimed denuncia e PF investiga prejuízo causado por fundo de investimento
"A cooperativa participou de todas as assembleias realizadas pela Vanquish Asset, atual gestora dos fundos Infinity, realizadas nos dias 7, 12, 13 e 30 de junho, nas quais os cotistas votaram pela liquidação do fundo. E foi aprovado o plano de recuperação e ressarcimento em D+271 (o que significa em 272 dias, algo como março do próximo ano)", explica a cooperativa, em nota.
Ainda não foram apresentadas quais serão as garantias e até mesmo quem vai ser o garantidor do pagamento. A próxima reunião está agendada para agosto.
Mais de seis mil cotistas, entre eles a Unimed Vitória e outras 29 cooperativas da rede, foram alvos de prejuízos causados pelas perdas em fundos da Infinity Asset, que, nos últimos anos, vinha apresentando uma série de inconsistências.
Em abril deste ano, as carteiras da Infinity foram transferidas para a Vanquish Asset Management que, em maio, fechou os fundos devido à falta de liquidez dos ativos e a necessidade de uma reavaliação sobre o produto. Com isso, a Unimed não pode sacar os recursos aplicados, configurando o prejuízo de R$ 165 milhões.
A Unimed Vitória destacou que o prejuízo não impacta os usuários do plano. "A administração da cooperativa não sofreu nenhum impacto e que as suas operações seguem normalmente, mantendo toda a assistência aos seus beneficiários", assinala, em nota.
O vai e vem do fundo
Os maiores investimentos feitos pela Unimed Vitória junto à Infinity ocorreram a partir de 2019, fase em que o fundo começou a colapsar. Em 2020, por exemplo, o Infinity Select – fundo que a cooperativa investiu –, que já vinha acumulando perdas, foi fechado para resgate e a sua gestora foi desligada do quadro da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) após o julgamento de um processo por descumprimento ao código de administração de recursos de terceiros, ou seja, por não atuar em conformidade com a legislação.
Foi quando o fundo praticamente derreteu, com queda aproximada de 80% nos últimos três anos, segundo dados da InfoMoney. Em meados de 2021, a decisão da Anbima foi suspensa, em cumprimento a uma determinação judicial proferida em ação que tramita em sigilo. Em dezembro do mesmo ano, o comitê de investimentos da Unimed Vitória foi alertado sobre o descredenciamento. Mas a cooperativa optou por manter investimentos em outros fundos da mesma gestora.
“Em dezembro de 2021, o Comitê de Investimentos da cooperativa foi alertado para o fato de que a Infinity havia sido descredenciada pela Anbima. Na ocasião, realizaram o resgate de parte do montante investido em dois produtos e optaram por manter os valores aplicados em outros quatro”, explicou a cooperativa em nota oficial.
O mesmo texto da Unimed Vitória relata ainda que os investimentos com a Infinity começaram a ser feitos em 2016. Até o final de 2018, a cooperativa acumulava um total de R$ 40 milhões aplicados. A partir de maio de 2019, os investimentos passaram a ser feitos no Infinity Select e chegaram, até 2023, a um volume de R$ 186 milhões.
À reportagem, foi relatado que entre 2019 e 2023 também houve saques, restando cerca de R$ 112 milhões aplicados, que, somados à rentabilidade e à aplicação feita antes deste período, chegariam ao montante do prejuízo, R$ 165 milhões.
Em ata da assembleia geral ordinária da cooperativa, realizada em 27 de março deste ano, é informado sobre as aplicações financeiras: “Mantivemos as aplicações financeiras seguras e acima da meta, com rendimento superior à taxa de juros e à inflação, com resultado de mais de R$ 40 milhões no ano de 2022”.
Gestão na fase dos investimentos
Na fase em que a Unimed Vitória realizou os investimentos, teve a sua administração conduzida por duas equipes, ambas eleitas. A última delas entregou a gestão em março.
- Gestão 2015 a 2019:
- Marcio Almeida - Diretor-Presidente (também administrou a cooperativa entre os anos de 2011 a 2015)
- Fernando Ronchi - Diretor Administrativo-Financeiro
- Alexandre Ruschi (2015 a 2017) - Presidente do Conselho de Administração
- Marcus Tanure - (2017 a 2019) - Presidente do Conselho de Administração
- Gestão 2019 a 2023
- Fernando Ronchi - Diretor-Presidente
- Luiz Carlos Paier - Diretor Administrativo-Financeiro
- Jesse Tabachi (2019 a 2021) - Presidente do Conselho de Administração
- Luiz Sobral (2021 a 2023) - Presidente do Conselho de Administração
- Comitê de Investimentos da Cooperativa
- Jean Pierre - Superintendente Financeiro
- Fernando Ronchi - Diretor-Presidente
- Luiz Carlos Paier - Diretor Administrativo
O superintendente financeiro Jean Pierre pediu demissão da cooperativa após o dia 17 de maio, data em que a Infinity Asset – cujas carteiras foram transferidas para a Vanquish Asset Management – informou que os resgates dos fundos estavam suspensos, devido à falta de liquidez dos ativos e à necessidade de uma reavaliação sobre o produto. O que configurou o prejuízo da Unimed Vitória.
A reportagem tentou contato com os presidentes e alguns diretores, que não foram localizados. Fernando Ronchi informou que não falaria sobre o assunto. Outros diretores não retornaram as mensagens enviadas.