A advogada Márcia Borlini Marim Sanches, presa nesta quarta-feira (15), comandava, com outros traficantes, a organização criminosa de seu namorado, que tem ligações com a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). Parte do trabalho dela era viabilizar o ingresso de drogas em presídios capixabas. É o que apontam as investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Narcóticos (Denarc) de Guarapari e citadas na sentença do Juizado da Primeira Vara Criminal do mesmo municípios, que condenou sete pessoas pelo tráfico de entorpecentes para penitenciárias.
Advogada do ES comandava organização criminosa ligada ao PCC
O delegado Guilherme Eugênio Rodrigues explica que as advogadas condenadas, Marcia e Joyce da Silva Boroto, eram “garotas de recado” do Primeiro Comando de Vitória (PCV), levando mensagens da organização criminosa para as lideranças da facção que estão presas. O fato foi apontado também nas investigações realizadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), na Operação Armistício, que resultou na denúncia de mais de 40 pessoas - incluindo as duas - já aceita pela Justiça estadual.
RELACIONAMENTO AMOROSO COM LIDERANÇA CRIMINOSA
Márcia começou um relacionamento com Rogério Alvarenga Carvalho Silva, também condenado na mesma sentença, quando já era advogada dele. O caso amoroso, segundo as investigações, chegou a ser anunciado por Rogério aos demais integrantes da organização criminosa, o que garantiu a ela ascensão na organização.
“Ela estabeleceu uma união estável com o Rogério e os dois cresceram e expandiram os negócios. Márcia deixou ser garota de recados. As investigações apontam que ela já distribuía as drogas nos presídios e passou também a ter funções de comando, negociando com os fornecedores de drogas e com os subordinados, tendo ainda ajudado a aproximar a organização do PCC”, relata o delegado que comandou as investigações e a Operação Vade Mecum, deflagrada em setembro do ano passado.
Foram identificadas ainda cartas e mensagens de Rogério a outras pessoas e até familiares, onde revelava estar sendo pressionado a assumir uma postura mais atuante no PCC, o que ele acabou fazendo. “Ele escolheu o PCC, mas passou a ficar preocupado com os conflitos com o PCV. Neste cenário, ordenou que Abel Graciano e João Victor Alvarenga Borges Carvalho, outras lideranças de sua organização, comprassem armas e mais drogas para vender. Dezenas e dezenas de armas, pistolas e submetralhadores, uma de cada calibre”, explica o delegado.
Rogério comanda o tráfico em Nova Brasília, em Cariacica. “Mas ele coloca drogas em outros bairros, em parceria com outros traficantes, e até para alguns pontos de Terra Vermelha (Vila Velha)”, observa.
APOIO DE INSPETOR PARA TRAFICAR DROGAS EM VIANA
Na sentença de condenação do Juizado da Primeira Vara Criminal de Guarapari é apontado que Márcia tinha um esquema de distribuição de drogas: “Após detida análise dos autos, nota-se que o acusado Rogério, inicialmente preso no CDPV (Viana), mantinha um relacionamento amoroso com a também acusada Márcia, que inicialmente era a sua advogada. Ao que tudo indica, Márcia desde este período já se movimentava para o acesso às dependências do referido estabelecimento penal para a inserção de drogas e redistribuição por parte de Rogério”, diz o texto.
É informado ainda que ela contou com a ajuda do inspetor penitenciário Thiago Luiz da Costa Nogueira Bicalho, também condenado na mesma sentença. “Apurou-se que Márcia tinha contato com Thiago, acusado neste processo e inspetor penitenciário lotado no CDPV (Viana), com quem, inclusive, manteve relacionamento íntimo durante período anterior a Rogério”.
O problema surgiu quando Rogério foi transferido para Guarapari. “A direção do CDPV de Viana adotou medidas para conter a entrada de drogas no presídio e decidiu transferir Rogério para Guarapari. No novo presídio, Rogério tentou manter o controle da venda de drogas, mas também encontrou resistência da direção do estabelecimento”, explicou o delegado.
Na sentença é informado que a transferência não agradou Rogério. : "[...] Ao chegar em Guarapari alegou, por intermédio de sua advogada Márcia, e agora, já namorada/companheira, ter sido agredido/torturado, com o objetivo de ser novamente encaminhado para Viana. Todavia, as apurações constataram que as agressões e torturas alegadas por Rogério eram inverídicas, pelo que se manteve no CDP Guarapari”, é dito no texto.
Diante das dificuldades para ingressar com as drogas no CDP de Guarapari, Marcia decidiu fazer novas parcerias. “Com o fito de manter as atividades ilícitas do tráfico de drogas as quais possivelmente já se perfaziam em Viana, se fazia necessário novas 'parcerias', agora em Guarapari. Márcia, namorada/companheira de Rogério, se viu necessitada de captar uma intermediária para que ela evitasse contato direto com os funcionários do novo estabelecimento penal, já que, como por ela alegado, Rogério era muito ciumento, tanto que não permitia que ela sequer sorrisse para outros homens. Tal situação seria um óbice a novos agrupamentos tendo Márcia como ponto central, pelo que se viu na demanda de ter outra pessoa que lhe auxiliasse”, aponta outro trecho da sentença.
A pessoa escolhida para exercer esse papel foi Joyce: “Nesta linha, surge Joyce, acusada nestes autos, advogada e amiga de Márcia. Conforme se extrai dos autos, Joyce começou a manter um relacionamento com (X.) inspetor penitenciário da unidade de Guarapari. Valendo-se dessa aproximação tentou persuadi-lo a fazer entrega de drogas ao acusado Rogério”.
AMEAÇAS A AGENTE INFILTRADO LEVARAM A PRISÃO DE ADVOGADA
O delegado não informou sobre como se deu a participação do “agente infiltrado”, alegando que técnicas de investigação não podem ser divulgadas, mas a sentença de condenação aponta que o inspetor penitenciário do CDP de Guarapari não aceitou fazer a entrega de drogas propostas por Joyce e denunciou o esquema.
“Denunciou o esquema à polícia, que desde então, com a devida autorização judicial, tornou-se agente infiltrado, ‘participando’ das negociações com o objetivo de aguardar o melhor momento para o desmantelamento da associação e demais crimes que permeavam a situação”, diz o texto.
Esse "agente infiltrado" acabou sendo ameaçado por Márcia, o que resultou na prisão dela. “Decreto a prisão preventiva da acusada Márcia Borlini Marim Sanches, na medida em que as medidas cautelares diversas da prisão, in casu, são insuficientes para garantir a ordem pública e a paz social, pois a ausência de vigilância, ainda que em prisão domiciliar e com monitoração eletrônica, está oferecendo risco à sociedade, considerando o alto poder de articulação da acusada e pelas ameaças que o agente infiltrado vem sofrendo", aponta a sentença.
OUTROS ENVOLVIDOS NO ESQUEMA
Além das advogadas, o esquema de envio de drogas para os presídios contava com apoio de outras pessoas. De acordo com o delegado Guilherme Eugênio, na liderança da organização estava Rogério, que contava com o apoio de Márcia. Ela passou a negociar com fornecedores de drogas, subordinados, e teria autonomia para dar ordens.
Tinha ainda Abel Graciano, que era o terceiro na linha de comando, gerindo a parte operacional, como os ataques aos grupos rivais. Ele acabou sendo preso e foi substituído por João Victor Alvarenga Borges Carvalho. “Joyce era a encarregada de entregar as drogas no CDP de Guarapari para Gerivan Ferreira Queiroz, que por sua vez, entregava o material para Rogério”, explica o delegado. “Nesse contexto, as provas acostadas aos autos, demonstram que a base externa dessa atividade delitiva, englobava as pessoas de João Victor e Abel. Eles administravam o comércio de drogas, de armas e de todo o gerenciamento criminoso, que tinha Rogério como líder”, diz também o texto da sentença.
O delegado Guilherme explica que a venda de drogas para os presídios tem dois objetivos. Um deles é o dinheiro, o outro, o poder. “Desconheço local onde a droga valha mais do que no sistema prisional. O custo é proporcional ao risco de entrada do material, por isso é muito mais cara. Uma bucha de maconha, dependendo da qualidade e tamanho, varia entre R$300 a R$500. Fora (da prisão) oscila entre R$ 20 a R$30”, explica.
A DEFESA DAS ADVOGADAS
A reportagem tentou contato com a defesa da advogada Márcia. A informação é de que o advogado Hugo Nunes renunciou a defesa dela. Ainda não há informações sobre quem assumiu o caso.
O advogado Selso Ricardo Damasceno, que faz a defesa de Joyce, informa que ainda não foi informado oficialmente sobre a sentença de condenação. Assim que isto ocorrer, ele vai analisar quais recursos serão feitos.
Avalia ainda que as autoridades policiais no Estado estão equivocadas na condução de algumas políticas de segurança. “Temos um grande problema em relação à criminalidade, mas percebemos em relação às autoridades policiais que querem arrumar culpados, como advogados. O problema é maior, com fragilidades no sistema, agora o que não pode é atribuírem a responsabilidade a advogados, prendendo-os”, disse.
Selso ainda aponta ilegalidades na Operação Vade Mecum, realizada pela Denarc de Guarapari, e com isto, avalia, também é ilegal a condenação de sua cliente.
“Aquela operação foi ilegal, não obedeceu aos ditames legais. Houve um flagrante preparado, de um agente penitenciário que cometeu o crime de tráfico de drogas. Uma ilegalidade também da Promotoria de Justiça por não ter denunciado o agente penitenciário por corrupção ativa e ainda trafico”, destacou.
Ele adiantou que está preparando recursos contra a sentença de condenação. “Vamos recorrer contra essa condenação, que se baseou em uma operação ilegal, dirigida pelo delegado de Guarapari. Tenho certeza de que iremos absolver a doutora Joyce com recursos em instâncias superiores”, informou.