Um homem que trabalhava como lavador de carros e auxiliar de pedreiro foi morto pelo "tribunal do tráfico" – grupo de traficantes, incluindo adolescentes – após furtar fios de cobre em um motel e ser denunciado aos criminosos pelo gerente do estabelecimento no bairro São Diogo I, na Serra. A informação sobre a motivação do crime foi divulgada pela Polícia Civil, em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (27).
Segundo a corporação, as investigações apontaram que Osiel de Jesus Bispo, de 36 anos, teria cometido o furto para conseguir dinheiro para usar drogas. Ele foi morto no dia 11 de março de 2024. Ao todo, oito pessoas são suspeitas do crime – cinco delas foram indiciadas.
Conforme a Polícia Civil, são envolvidos no crime:
- 3 adolescentes, que não tiveram os nomes divulgados e não podem ser expostos, considerando o Estatuto da Criança e do Adolescente (Ecriad)
- José Carlos Ferreira Amaral, de 57 anos, que era gerente do motel e denunciou o suspeito do furto ao "tribunal do tráfico", sem procurar uma delegacia
- Jhonatan de Jesus Silva, de 28 anos
- Kauã dos Santos Jesus, de 21 anos
- Guilherme Dutra Viana Teixeira, de 21 anos
- Adryan Ferreira Leão Damásio, de 20 anos
O titular da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori, revela que Osiel foi agredido com pauladas e morto com golpes no pescoço. O delegado explicou que o "tribunal do tráfico" realizou uma espécie de "julgamento". O local escolhido foi um terreno baldio, onde se reuniram Osiel, a esposa dele, o gerente do motel e os suspeitos.
"A vítima ficou sentada no chão, com todos à sua volta. O gerente do estabelecimento foi perguntado sobre o furto de fios sofrido e confirmou. A vítima percebeu que iria morrer e resolver partir para cima do Guilherme [suspeito] e eles entram em luta corporal. Após Osiel ser espancado por aproximadamente cinco minutos, todos saíram do local. Mas dois adolescentes voltaram e deram golpes com pedaço de uma garrafa no pescoço da vítima", afirmou o delegado Sandi Mori.
O crime foi motivado pelo furto de fios em um motel do bairro. Segundo o delegado, Osiel e a esposa consumiam droga com frequência. Mas para evitar o consumo na frente do filho, pagavam uma diária no motel, no valor de R$ 80, e utilizavam a droga em um dos quartos. Ainda segundo a Polícia Civil, em um dos dias, o homem precisava de mais dinheiro para consumir a droga e resolveu furtar fios de cobre no próprio motel. O suspeito, no entanto, foi flagrado por José Carlos Ferreira Amaral.
As drogas tinham acabado, ele queria comprar mais e resolveu furtar fios, mas foi flagrado. José Carlos, ao invés de procurar uma delegacia, resolveu pedir ajuda aos traficantes na 'favelinha'. Por este motivo, ele também foi indiciado no homicídio. A participação dele foi fundamental para que o crime ocorresse
Sandi Mori afirma que Osiel de Jesus Bispo já havia sido preso por homicídio e tinha o hábito de cometer pequenos furtos. José Carlos também já foi condenado por homicídio, num crime cometido em Nova Venécia em 2009. Segundo o delegado, o gerente do motel saiu da cadeira 2016.
O titular da DHPP da Serra explica que, na norma estabelecida pelo tráfico de drogas, casos de furtos não são toleradas no bairro de atuação da facção. Por este motivo, o chamado "tribunal do tráfico" costuma definir uma punição. Neste caso, a morte. A esposa de Osiel não foi agredida e, até o momento do homicídio, tentou convencer os traficantes para que não matassem o companheiro, segundo a polícia.
Os cinco suspeitos com idade superior a 18 anos foram presos entre setembro e novembro de 2024. Os suspeitos confirmaram participação no crime, com exceção de Adryan Ferreira Leão Damásio, que negou. Os envolvidos, inclusive o gerente do motel, foram indiciados por homicídio qualificado por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima, associação criminosa e corrupção de menores. Conforme a Polícia Civil, quatro deles seguem presos desde então. Adryan responde em liberdade e utiliza tornozeleira eletrônica.