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Crimes em Vitória

Justiça começa a julgar acusados por crimes em noites sangrentas na Piedade

Em onze meses, a partir de março de 2018, oito pessoas foram assassinadas na região, e duas sobreviveram após tentativas de homicídio. Em alguns casos os acusados pelos crimes já vão enfrentar o banco dos réus

Publicado em 08 de Novembro de 2021 às 21:55

Vilmara Fernandes

Publicado em 

08 nov 2021 às 21:55
Começam a chegar à reta final os processos dos acusados por pelo menos oito assassinatos, além de duas tentativas de homicídio, ocorridas em quase um ano no Morro da Piedade. Foram noites sangrentas, com crimes brutais, seguidos de ataques e ameaças a moradores que foram expulsos do bairro, localizado em Vitória. Era o resultado da guerra do tráfico de drogas pela disputa de territórios.
Os violentos ataques tiveram início em março de 2018. O primeiro caso foi a morte dos irmãos Ruan e Damião Reis no alto da Piedade, executados com mais de 60 disparos por não saberem informar o paradeiro do chefe do tráfico local. Por este crime, oito pessoas vão enfrentar o Tribunal do Júri. Confira o vídeo:
Nas semanas que se seguiram a morte dos irmãos, os ataques ao bairro em busca dos traficantes que comandavam a região continuaram. No dia 27 de maio de 2018, ocorreu outro crime: Aladir Oliveira Filho, que estava no grupo que executou os irmãos, foi assassinado.
O ato de vingança partiu de Wallace de Jesus Santana, uma das lideranças no tráfico da Piedade, à época. O processo referente a este caso acabou sendo anexado ao caso dos irmãos, visto que o executor de Aladir também foi morto nas semanas seguintes.
Casas abandonadas eram usadas por traficantes de drogas para controlar movimentação no morro da Piedade
Casas abandonadas eram usadas por traficantes de drogas para controlar movimentação no morro da Piedade Crédito: Fernando Madeira
Mas a execução de Aladir acabou acirrando os ânimos, uma vez que o seu filho, Allan do Rosário, fazia parte do grupo de criminosos que continuou a promover ataques ao bairro em busca das lideranças do tráfico, incluindo Wallace.
No dia 29 de maio de 2018, para vingar a morte de seu pai, Allan Rosário e seus companheiros, organizaram um novo ataque à Piedade, mas novamente não conseguiram localizar Wallace. Ocorre que no alto da Piedade encontraram um morador, Lucas Teixeira Verli, que acabou sendo brutalmente assassinado pelo grupo de traficantes.
Seis pessoas foram denunciadas pela morte de Verli. São eles:
  • Allan do Rosário de Oliveira
  • Flávio Sampaio
  • Gean Gaia de Oliveira
  • Josenilton Marcolino Correia
  • Tiago da Silva, o Thiago Floresta
  • Geovani Andrade Bento, o Vaninho
Segundo o andamento processual do site do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) foi realizada no último dia 3 a audiência de instrução e julgamento deles, quando foram ouvidas testemunhas e os réus. Agora o processo segue para as argumentações finais dos advogados e do MPES. Parte deste grupo (cinco) também participou da execução dos irmãos Ruan e Damião.

GRUPO ENCONTRA O CHEFE DO TRÁFICO E O MATA

Como ainda não tinham conseguido a sua vingança contra as lideranças do tráfico da Piedade, o grupo de criminosos voltou a promover ataques ao bairro. Segundo as investigações, no dia 9 de junho de 2018 eles decidiram fazer uma nova incursão à Piedade e na manhã do dia 10 de junho eles finalmente encontraram Wallace de Jesus Santa e o assassinaram.
Jovem foi assassinado no Morro da Piedade
Jovens foi assassinado no Morro da Piedade Crédito: Reprodução/TV Gazeta
Por este crime, sete pessoas vão sentar no banco dos réus, em data ainda não marcada. São eles:
  • Allan Rosário Oliveira, o Alan rosário ou Gordinho 
  • Rafael Batista Lemos, o Boladão
  • Gustavo Batista Lemos, o Fefe 
  • Flavio Sampaio, Coroa ou Flavinho 
  • Gean Gaia de Oliveira, Chocolate 
  • Célia Nilza Wanzeler de Souza 
  • Bruna Lemos de Souza 
Do grupo acima, quatro participaram também da execução dos irmãos Ruan e Damião (Allan, Rafael, Flávio e Gean). Três deles também foram acusados pela execução de Lucas (Allan, Flávio e Gean).
Na sentença do Juizado da Primeira Vara Criminal de Vitória, sobre o crime de Wallace, é dito: “A vitima foi surpreendida pelos diversos disparos de arma de fogo efetuados pelos executores, que estavam em superioridade numérica, tendo o crime sido praticado porque a vítima, dias antes, ceifou a vida de Aladir Oliveira Filho, bem como porque os executores visavam tomar o controle do tráfico ilícito de entorpecentes da localidade (Piedade)”.
Moradores deixam o Morro da Piedade após crimes em 2018
Moradores deixam o Morro da Piedade após crimes em 2018 Crédito: Fernando Madeira
Na investigação policial anexada ao processo é relatado que logo após a execução de Walace, o grupo que o executou fez ameaças aos moradores. Saíram gritando pelo morro exigindo a saída de todos os familiares das pessoas que comandavam o tráfico local, e deram um prazo de 30 dias.
Nos meses que se seguiram, dezenas de moradores decidiram abandonar suas casas na Piedade. Muitos foram morar em casa de parentes, em outros bairros, ou lançaram mão do aluguel social da Prefeitura da Capital. Algumas famílias chegaram a se organizar para dividir residência com outras e assim fugirem da violência.
Luiz Fernando da Conceição Gomes de 18 anos (camisa branca e relógio); Patrick Oliveira de Souza de 26 anos (boné e camisa preta) e Wemerson da Silva Lima, conhecido como Perreco, de 23 anos.
Luiz Fernando da Conceição Gomes de 18 anos (camisa branca e relógio); Patrick Oliveira de Souza de 26 anos (boné e camisa preta) e Wemerson da Silva Lima, conhecido como Perreco, de 23 anos. Crédito: Reprodução

MAIS UMA NOITE SANGRENTA

Pouco mais de seis meses após o assassinato de Walace e ao período de expulsão de moradores, ocorreu mais uma noite sangrenta. Em 14 de janeiro de 2019, na divisa entre os Morros da Piedade e Moscoso, em uma área conhecida como "Poeirão", três jovens foram assassinados. Outros dois conseguiram sobreviver.
A perícia criminal da Polícia Civil, na época, informou que foram encontradas aproximadamente 40 cápsulas de calibres .380 e 9mm. As vítimas que morreram foram atingidas por cerca de 10 a 15 perfurações, cada uma. Naquele dia morreram: Luiz Fernando da Conceição Gomes, 18 anos; Patrick Oliveira de Souza, 26; e Wemerson da Silva Lima, 23. Sobreviveram um coletor de lixo de 28 anos, e uma adolescente, de 15 anos.
Em outubro de 2019, a denúncia apresentada pelo MPES foi aceita pela Justiça estadual. No último dia 3 foi realizada uma  audiência de instrução, quando testemunhas e réu foram ouvidos. Uma nova audiência, para ouvir outras testmunhas, vai ser realizada em data ainda não agendada. Por este crime foram denunciados três pessoas:
  • Allan Rosário de Oliveira
  • Rafael Batista Lemos
  • Carlos Magno Pereira Teixeira

EXPULSÕES E VINGANÇA MOTIVARAM ATAQUES E MORTES

Segundo as investigações, por trás das mortes e dos ataques à Piedade, com reflexos nos bairros Fonte Grande e Moscoso, estão expulsões de traficantes e vinganças.
O grupo que promoveu os ataques em 2018, junto com suas famílias, havia sido expulso destas localidades pelos que estavam chefiando o tráfico na região, entre os anos 2012 e 2013. O comando do tráfico da Piedade passou para as mãos dos integrantes da família Ferreira Dias (formada pelos irmãos João Paulo, Felipe, e ainda por Walace).
Em 2018, os que haviam sido expulsos decidiram retomar o controle da região e para isto viabilizaram a criação de uma espécie de um consórcio entre ex-traficantes da Fonte Grande e Moscoco (Rafael, Gustavo, Alan, Gaia, Leandro, e Renato) com traficantes de São Benedito (Vaninho e Janderson Mala-velha) e com outro de Cobi de Baixo (Flavio Sampaio).
Participaram ainda familiares destes traficantes que ainda moravam na Piedade ou próximo ao bairro. Foram eles que auxiliaram com informações sobre os que estavam comandando o bairro e sua localização. Contaram com o apoio do PCV/Trem Bala.
Moradores da Piedade deixam suas casas após conflito e insegurança
Moradores da Piedade deixam suas casas após conflito e insegurança Crédito: Fernando Madeira - 14/06/2018

O OUTRO LADO

A advogada Paula Maroto Gasiglia Schwan faz a defesa dos réus Leandro Correia Ramos Barcelos, Renato Correira Ramos e Flavio Sampaio. Em relação ao caso da morte dos irmãos da Piedade, ela informou que ainda vai se reunir com seus clientes para decidir se irá recorrer contra a denúncia de pronúncia que os encaminhou ao júri popular.
Destaca que o processo está em segredo de justiça, mas que a defesa acredita que a justiça será feita, e os réus vão provar sua inocência no plenário.
“A decisão de pronúncia é um mero juízo de admissibilidade, só diz sobre a prova de materialidade e dos indícios de autoria do crime. O Tribunal do Júri é que é juiz competente para casos dolosos contra a vida, os homicídios. É onde iremos provar a inocência deles”, explicou Paula.
O advogado Fernando Admiral Souza é o responsável pela defesa de Thiago Floresta. Informou que ainda não conversou com seu cliente sobre a decisão. “Embora o Thiago seja inocente e sem envolvimento com o crime, acredito que não vamos recorrer para que o processo siga a júri, onde vou mostrar que ele é inocente”.
Disse ainda que Thiago passou a ser citado no processo após a realização de uma operação policial no Morro de São Benedito. “Uma das armas apreendidas no local, utilizada no crime dos irmãos, foi encontrada próxima ao Thiago. E por conta desta arma é que ele passou a figurar como suspeito e acabou sendo pronunciado”.
Os responsáveis pela defesa de Bruna Lemos de Souza, os advogados Taylon Gigante e Carlos Guilherme Pagiola,  informaram, por nota, que recorreram da decisão de pronúncia em decorrência da fragilidade das provas contrárias a sua cliente.
"No atual contexto processual, é importante esclarecer que o Código de Processo Penal é expresso quando aduz que não cabe ao juiz aprofundar-se na apreciação das provas ao proferir decisão de pronúncia. Diante disso, por acreditar na nítida fragilidade das provas, é que recorremos da aludida decisão judicial, tendo em vista que ao longo da marcha processual fora concedido o direito da defendida recorrer em liberdade", informou o texto da nota.
Os advogados de defesa dos demais réus não foram localizados pela reportagem. Assim que se manifestarem, esta matéria será atualizada.

Atualização

11/11/2021 - 4:45
Foram acrescentadas informações enviadas pela defesa de Bruna Lemos de Souza. No dia 8 de novembro foi promovida uma correção no título desta reportagem, considerando que o anterior afirmava que a Justiça começa a punir acusados por crimes na Piedade. Porém, como os réus não foram sentenciados, o correto é dizer que a Justiça começa a julgar os acusados. O título foi alterado. 

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