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Estúdio em Vitória

Mulheres acusam tatuador do ES de praticar violência sexual durante  atendimento

Uma mulher registrou um boletim de ocorrência no final do mês passado; ela relata que estava sozinha com o tatuador quando ele colocou a mão dentro de sua calcinha

Publicado em 08 de Fevereiro de 2022 às 18:02

Vilmara Fernandes

Publicado em 

08 fev 2022 às 18:02
Braço sendo tatuado
Braço sendo tatuado Crédito: Pixabay
No dia 24 de janeiro, uma jovem de 20 anos registrou um boletim de ocorrência onde relata que foi vítima de violência sexual em um estúdio de tatuagem, em Vitória. Logo após contar o que ocorreu também em uma rede social, outras mulheres decidiram contar que foram vítimas do mesmo profissional e de outros no Espírito Santo.
A jovem fez a tatuagem na parte superior do braço, no dia 21, uma sexta-feira. No dia ela estava acompanhada de sua mãe, que não pode estar presente no dia em que foi agendado, dia 24, para que fossem feitos retoques. Desta vez, ela foi sozinha.
Conta que dentro do estúdio, ela estava deitada em uma maca e o tatuador se posicionou atrás de sua cabeça. Com a mão direita ele segurava o equipamento para fazer os retoques. Já o braço esquerdo ele colocou sobre o corpo da jovem e pediu que ela colocasse a mão do braço que estava sendo tatuado, em cima da mão dele.
"Ele ficava deslizando o braço pelo meu corpo e em determinado momento ele colocou a mão dentro do meu short, tocando dentro da minha calcinha. Reclamei e ele tirou a mão"
Vítima - Mulher que denunciou a violência sexual
Naquela tarde ela deixou o estúdio desnorteada. “Quando minha mãe chegou em casa, do trabalho, eu contei o que tinha acontecido, chorei muito. Também contei ao meu namorado. E ainda naquela noite decidimos procurar uma delegacia para fazer o registro da ocorrência”, conta.
A jovem relata que se sente destruída. “Psicologicamente você fica destruída. Fiquei bem abalada. A vida da gente muda, a gente fica diferente. A impressão que tenho é de que estou sempre em alerta.

RELATO DE OUTRA  VÍTIMA

Durante a semana a jovem decidiu fazer uma postagem em sua rede social, como um alerta. Para sua surpresa, o assunto foi repostado por outras pessoas e várias mulheres fizeram relatos de terem vivenciado a mesma situação, no mesmo estúdio e com o mesmo profissional. Há relatos envolvendo também outros profissionais da tatuagem no Espírito Santo.
Uma delas é uma profissional da área da saúde, que foi ao local para fazer a cobertura de uma outra tatuagem na parte superior do braço no segundo semestre do ano passado. Com ela ocorreu a mesma situação. O tatuador utilizou o seu braço livre para se apoiar em cima da genitália dela, aproveitando a situação para alisar o local.
“Fiquei nervosa, sem saber como fazer ou reagir. Não consegui expressar o meu descontentamento com a situação. E também fiquei com medo. Era muito desconfortável", relata.
A profissional de saúde não conseguiu nem mesmo voltar ao estúdio para fazer os retoques na nova tatuagem. Também não teve coragem de ir a uma delegacia para não ter que relatar o que tinha vivido. “Mas agora, diante do que aconteceu com a outra jovem, vou procurar a delegacia para fazer a ocorrência”, conta.
Ela conta que uma amiga fez uma tatuagem na barriga e ele pediu que tirasse a blusa e ainda os protetores que ela utilizava no seio, exigindo que ficasse totalmente nua.
Corpo sendo tatuado
Corpo sendo tatuado Crédito: Pixabay

DEPOIMENTOS NAS REDES SOCIAIS

Na postagem, algumas mulheres relataram que tinham vivido a mesma situação, no mesmo estúdio, mas com outro tatuador. “Ele passava a mão no meu corpo. Na época eu era muito burra, Eu guardei para mim…”
Outra relata que a técnica utilizada pelo profissional é de quem vai apoiar o braço e com isto pratica o abuso. “Quando fiz a minha primeira tatuagem na virilha fui abusada com este papo de apoio…”, conta outra.
Conta que outros profissionais em Vitória também utilizam a mesma técnica de abuso. “Eu devia ter uns 19 anos na época e fiz uma tattoo no seio. Ele incentivava a tirar o outro lado e pegava uma coisa gelada e passava no meu mamilo para ele ficar duro”, conta.
E há até os que filmam escondido. “Eu passei por isto, por ser numa parte íntima, ele tava com a câmera em cima”, relata.

TATUADORA RECOMENDA FICAR ATENTA

Uma tatuadora, que pediu para não ser identificada, informou que este tipo de procedimento, de se apoiar em cima do cliente, não é o correto. E mais, que os clientes precisam ser informados do passo a passo de tudo o que será feito
“Mesmo eu sendo mulher e tatuando uma outra mulher, peço licença para tocar, informo o que vai ser feito, explico o procedimento. Quando a mulher precisa tirar a blusa, coloco até esparadrapo nos seios para ela se sentir mais confortável”, explica.
O recomendável, segundo ela, é que a pessoa vá ao estúdio acompanhada. O que tem sido difícil em decorrência da pandemia. “É importante o cliente saber que não é normal ficar deslizando a mão pelo corpo do outro, roçando e alisando”, observa.
Mulheres acusam tatuador do ES de praticar violência sexual durante atendimento

O QUE DIZ A LEI

Renata Bravo, advogada e consultora de direitos e políticas públicas de mulheres avalia que, embora o que Boletim de Ocorrência tenha descrito a situação com a jovem como assédio sexual, o caso pode ser enquadrado como estupro.
“É uma situação em que, ainda que não exista grave ameaça, a mulher está em condição de vulnerabilidade, com pouca roupa, diante de uma impossibilidade de dizer que não queria praticar aquilo. Muitas não sabiam e foram forçadas a terem seus corpos violados”, observa.
E nem mesmo o artifício de colocar a mão da vítima por cima, como em geral o tatuador pede, pode ser interpretado como uma espécie de guia.
"Ela jamais consentiu o que viveram. E se não existiu o pedido dele e o consentimento dela, é estupro sim"
Renata Bravo - Advogada e consultora de direitos e políticas públicas de mulheres
Dependendo do caso, avalia ainda que pode até ser enquadrado no crime de violação sexual mediante fraude, previsto no artigo 215 do Código Penal. “Ele utiliza este ardil de usar a mão da vítima e talvez possa ser considerado uma fraude para que a mulher não entenda que ele está querendo praticar este ato, mas cabe a violação sexual mediante fraude, dependendo do caso”, acrescenta.
Ela esclarece que não é normal tocar o corpo de uma mulher sem o seu consentimento. “Ainda temos em nossa cultura a aituação de que o estupro só ocorre com é a penetração, ou ato com grande violência, forçada, o que não é verdade”, explica.
Renata orienta a todas que vivenciaram situação semelhante a denunciarem. “Devem procurar a delegacia para relatar o que aconteceu, para que os abusadores sofram a punição de todos os casos praticados”.

O OUTRO LADO

O advogado do tatuador e do estúdio, Rodolpho Nascimento Malhame, informou que ainda não é o momento de se manifestar sobre o caso envolvendo o seu cliente. "Acredito ser muito prematuro para quaisquer esclarecimentos, tendo em vista ainda se tratar de um procedimento embrionário. "
Os nomes das mulheres que fizeram as denúncias estão sendo preservados por serem vítimas de violência.
Já o nome do tatuador e do estúdio não estão sendo informados, nesta etapa, em decorrência da fase inicial das investigações da Polícia Civil

O QUE DIZ A POLÍCIA CIVIL

Por nota, a Polícia Civil informou que está investigando o caso, sem dar mais detalhes. Veja a íntegra da nota:
“A Polícia Civil informa que o caso está sob investigação da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Vitória e diligências estão sendo realizadas. Detalhes da investigação não serão divulgados, por enquanto. A Polícia Civil destaca que a população tem um papel importante nas investigações e pode contribuir com informações de forma anônima através do Disque-Denúncia 181, que também possui um site onde é possível anexar imagens e vídeos de ações criminosas, o disquedenuncia181.es.gov.br. O anonimato é garantido e todas as informações fornecidas são investigadas.”

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