Aposta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para frear o derretimento de sua popularidade, as manifestações do 7 de Setembro, que mobilizaram apoiadores em 179 cidades do país (24 delas no Espírito Santo), mostraram que o presidente ainda conta com um apoio considerável nas ruas, mas tem se isolado no ambiente político, segundo analistas ouvidos por A Gazeta.
Na opinião de especialistas, o discurso adotado por Bolsonaro, ao criar mais tensão com o Supremo Tribunal Federal (STF) e dizer que não vai cumprir decisões judiciais de Alexandre de Moraes, um ministro da Corte, ultrapassa uma barreira democrática – além de ser considerado um crime de responsabilidade.
Nos bastidores, as palavras ditas pelo presidente acenderam um sinal vermelho até mesmo entre políticos do Centrão, que ainda eram fiadores de alguma estabilidade para Bolsonaro. A atenção, agora, se volta para o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que tem em sua gaveta mais de uma centena de pedidos de impeachment contra o chefe do Executivo.
Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Lira, após ouvir o discurso de Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo – em que chamou Alexandre de Moraes de "canalha" e defendeu o "enquadramento" do ministro – voou imediatamente para Brasília, para conversar com aliados e autoridades.
Para o cientista político Fernando Pignaton, Bolsonaro, como a clássica figura do "líder carismático", precisa da tensão para manter seu eleitorado. Apesar disso, para o especialista, o preço para interromper o derretimento da popularidade bolsonarista pode ter um custo político alto para o presidente.
"O líder carismático, como Max Weber coloca na literatura política, é aquele que precisa sempre criar uma tensão em torno de si para manter o público fidelizado. Como político de direita, Bolsonaro teve uma vitória política ontem, mostrou que não está sozinho e conseguiu interromper a queda de sua popularidade. Só que isso teve um custo político alto, as forças de Centro e de outras alas que já se opunham a ele viram que essa tensão criou uma ameaça real à democracia. E a resposta a essa ameaça pode ser um movimento de união para repudiar qualquer tentativa autoritária", explicou.
"O desafio agora é saber se essas lideranças vão colocar de lado a Eleição de 2022 para defender a civilização democrática, ou se vão avaliar que essa resposta poderá esperar até o pleito do ano que vem"
Pignaton acredita que o movimento que tem se desenhado, com discursos defendendo a democracia feitos por alas políticas opostas, como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pode se assemelhar às campanhas pelas Diretas Já, na década de 1980.
"É como uma nova campanha pelas Diretas. Onde a nação se uniu para construir a democracia. O momento que vivemos, com ameaças reais de rupturas democráticas, exige das lideranças um pensamento para além da vitória eleitoral. Exige uma consciência histórica de que um marco civilizatório construído no passado, que é a Constituição Federal, está sob ameaça e precisa ser protegido", aponta.
DISCURSO GOLPISTA FOI ALÉM DO LIMITE DO CENTRÃO
Na avaliação do cientista político e professor do Insper-SP Leandro Consentino, os protestos, embora massivos, ficaram aquém da expectativa dos líderes bolsonaristas. Com 125 mil pessoas, segundo estimativa da PM-SP, na Avenida Paulista, Bolsonaro mostrou que "não é um Collor", que ao chamar atos em favor de si mesmo em 1992, com manifestantes indo às ruas de camisas verde e amarelo, assistiu a uma derrota histórica, com o público ocupando as cidades com camisas pretas contra o então presidente.
No entanto, para Consentino, Bolsonaro ainda está longe de ter apoio suficiente para promover alguma ruptura democrática.
"Estamos mais próximos do isolamento do presidente do que de uma ruptura democrática. As elites políticas, pelos movimentos que vimos ontem à noite (terça) e hoje pela manhã (quarta), demonstram que uma linha foi atravessada. Os presidentes da Câmara e do Senado, que até então seguiam uma tendência de apaziguamento do discurso de Bolsonaro, guardaram distância."
Ele acrescenta: "Dizer que não vai cumprir uma decisão de um ministro do STF, além de crime de responsabilidade claro previsto na Lei de Impeachment, é ir contra a própria Corte. Já estamos vendo alguns partidos do Centro, como o MDB e o Solidariedade, que não entravam nessa disputa, começar a falar em impeachment", avalia.
"Me parece que o sinal vermelho está aceso e que é preciso fazer algo e que esperar até as eleições pode ser tarde demais. Se os movimentos forem mais brandos e de apaziguamento do discurso do presidente, a tendência é para um festival de notas de repúdio"
“Não me parece que o STF adotará essa estratégia, uma vez que isso pode até desmoralizar a Corte. O que é preciso pontuar é que o ponto mais crítico, que é a violência política nas ruas, ainda não teve episódios tão graves. Não sei se chegaremos a esse limite ou não. Mas estamos em uma temperatura de ebulição maior, com protestos contra o presidente no final de semana e espero que este teto não seja ultrapassado”, alerta.
LIRA PEDE "BASTA" À ESCALADA NEGATIVA E FIM DE BRAVATAS
Em pronunciamento no início da tarde desta quarta-feira, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), adotou o tom da pacificação dos Poderes após os discursos do presidente Jair Bolsonaro no Sete de Setembro. Lira apontou que “as redes sociais superdimensionam a crise” e que “o único compromisso inadiável está marcado para 3 de outubro de 2022”.
"Conversarei com todos, e com todos os poderes. É hora de um basta a essa escalada em um infinito looping negativo. Bravatas em redes sociais, vídeos e um eterno palanque deixaram de ser um elemento virtual e passaram a impactar o dia a dia do Brasil de verdade", disse o presidente da Câmara.