As cidades do Espírito Santo onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) teve mais de 68% dos votos válidos no segundo turno das eleições de 2018 têm um risco relativo de contaminação por Covid-19 30% maior do que os municípios onde ele foi menos votado. De acordo com especialistas, a postura do presidente ao descumprir medidas de isolamento e não utilizar máscara contribui para que seus seguidores o reproduzam e, assim, facilitem a transmissão do coronavírus em locais em que ele possui maior apoio.
Um levantamento feito por A Gazeta, com a colaboração do economista e professor da UVV Wallace Millis, mostra que nas 16 cidades onde o percentual de votos para Bolsonaro foi igual ou maior que 68% dos eleitores, em 2018, o risco médio de contaminação atualmente chega a 142,7 pessoas a cada 100 mil habitantes. Já nas 16 cidades em que Bolsonaro perdeu para seu adversário, Fernando Haddad (PT), a taxa de contaminação foi de 109,1 pessoas a cada 100 mil habitantes.
A análise do número de casos a cada 100 mil habitantes é a mais indicada para este tipo de comparação, em que são analisadas cidades com tamanhos diferentes de população. Em Venda Nova do Imigrante, por exemplo, cidade em que Bolsonaro teve 81% dos votos em 2018, a taxa de contaminação é de 170 a cada 100 mil habitantes. A sexta maior taxa do Estado. O município teve 4.259 casos confirmados de Covid-19.
Já em Ponto Belo, cidade em que Bolsonaro teve a menor votação no Estado, com 35% dos votos válidos – o que indica que, pelo menos em 2018, ele tinha uma aceitação menor entre os moradores – a taxa de contaminação foi de 73 indivíduos a cada 100 mil habitantes, com o 7º menor índice do Estado. Até a última terça-feira (8), o município contava com 579 casos confirmados de Covid-19.
O levantamento reproduz resultados semelhantes ao de um estudo realizado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e pela Universidade de Toronto, que apontam uma tendência maior de mais contaminações em locais onde Bolsonaro tem mais apoio. Esse índice se torna mais evidente quando são consideradas a alta de casos nos dias seguintes a pronunciamentos do presidente minimizando a gravidade da pandemia.
Professor da UNB, o cientista político Frederico Bertholini ressalta que o apoio ao presidente não é uma "situação causal", em que, necessariamente, cidades onde ele teve mais votos ficam mais vulneráveis à Covid-19. No entanto, ele diz ser inegável que eleitores mais identificados com o presidente tendem a apoiar o discurso negacionista de Bolsonaro e reproduzir o não cumprimento de medidas sanitárias.
"Não é uma relação direta, mas é evidente que o discurso dele sobre uma suposta irrelevância do vírus, defendendo o não isolamento e outras hipóteses sem comprovação científica que ele levanta acabam contribuindo para as pessoas que o seguem se cuidarem menos, fazendo com que o vírus circule mais"
Naturalmente, o apoio maior ao presidente em um local não é um fator que, necessariamente, implica um número mais elevado de casos. Outros fatores como os índices econômicos e sociais, além do acesso à saúde da população local também contribuem para definir se o nível de transmissão será maior ou não em uma cidade.
Assim, apesar da ocorrência maior de índices mais altos de contágio em cidades onde Bolsonaro teve mais votos, as duas primeiras cidades do ranking de casos por 100 mil habitantes são Vila Valério, com 208 casos/100 mil habitantes, e Águia Branca, com 196 casos/100 mil habitantes. Os dois municípios deram mais votos ao candidato do PT, com 44% e 41% dos votos válidos para Bolsonaro.
Na comparação foram listados 16 municípios em que Bolsonaro teve mais de 68% dos votos no segundo turno: Venda Nova do Imigrante (81%), Castelo (79%), Alfredo Chaves (78%), Vargem Alta (77%), Domingos Martins (76%), Conceição do Castelo (76%), Cachoeiro de Itapemirim (75%), Rio Novo do Sul (75%), Santa Maria de Jetibá (74%), Santa Teresa (73%), Colatina (72%), Guarapari (72%), Marechal Floriano (70%), Marataízes (70%), Iconha (69%) e Itarana (68%).
Entre os 16 municípios em que ele teve menos de 51% dos votos, estão: São José do Calçado (51%), Sooretama (50%), São Domingos do Norte (50%), Mimoso do Sul (50%), Boa Esperança (48%), Vila Pavão (48%), Água Doce do Norte (46%), Alto Rio Novo (46%), Montanha (44%), Vila Valério (44%), Pedro Canário (41%), Águia Branca (41%), Pinheiros (41%), Conceição da Barra (39%), Mucurici (38%) e Ponto Belo (35%).
A análise considerou o número de casos de Covid-19 registrados até o dia 8 de junho de 2021 no Espírito Santo. De acordo com o economista Wallace Millis, é mais adequado comparar o número de casos de Covid nas cidades porque a transmissão está diretamente relacionada ao cumprimento ou não de medidas sanitárias, enquanto o número de mortes pode ter como variável determinante a qualidade do serviço de saúde entre uma cidade e outra.
"Quando analisamos a relação entre a votação em Bolsonaro e as taxas de contágio por cidade, a correlação é positiva, embora fraca, com índice aproximado de 0,32. Isso ocorre porque há muitas outras variáveis demográficas na análise epidemiológica, entre as quais o papel da gestão local na consolidação social dos protocolos de segurança", explica o economista.
EM NOME DO CONSERVADORISMO, ELEITOR "RAIZ" CONSIDERA MEDIDAS CONTRADITÓRIAS
O cientista político Frederico Bertholini é coautor de uma pesquisa, com cerca de 9 mil entrevistados, que identificou que eleitores mais comprometidos com o presidente podem apoiar uma medida contrária a suas preferências caso ela gere benefícios políticos ao governo.
Bertholini explica que é importante considerar, ainda, que nem todas as pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018 apoiavam seu plano de governo durante as eleições, já que, para ele, uma parte significativa dos votos que recebeu foram por aqueles que o escolheram foi por acreditar que Bolsonaro poderia conduzir uma agenda liberal no país ou promover o combate a corrupção.
Para o pesquisador, pessoas que se baseiam pela moral e o conservadorismo "acima de tudo", como uma fatia mais radical do bolsonarismo, por exemplo, tendem manter o apoio ao presidente por achar que ele é o único que pode conduzir pautas relacionadas aos valores que elas defendem.
"É o que chamamos na literatura política de populismo. Muitos eleitores acreditam que só o presidente é capaz de manter a ordem e acham que sem ele o modo de vida que eles defendem estará ameaçado. O populista é aquele que cria essa identidade do 'povo contra a elite'. Essa 'elite' podem ser os cientistas, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Justiça e todos aqueles que se opõem a ele ou o criticam", analisa.
No Espírito Santo, o cientista político João Gualberto Vasconcellos afirma que Bolsonaro foi o candidato escolhido por um movimento conservador histórico no Estado, que tem sua formação desde o início do século XX. Para ele, está clara a relação entre a escolha de voto e a decisão em seguir ou não as medidas sanitárias.
"Bolsonaro teve esse apoio expressivo em 2018 porque o eleitorado capixaba é um eleitorado conservador. Muitas dessas cidades onde ele teve mais votos tiveram a história marcada pela presença forte do movimento integralista. O exército bolsonarista ainda é grande e organizado. Há claramente duas narrativas se formando, a do presidente, que agora quer colocar em sua conta a vacinação do povo brasileiro, e a da CPI da Covid, que quer impedir isso. Não dá para prever qual narrativa vencerá", observa.