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Preso desde dezembro

Desembargador do ES é denunciado pela PGR por obstrução de investigação no Rio

Além de Macário Júdice Neto, foram denunciados o deputado Rodrigo Bacellar e o ex-deputado TH Joias; defesa afirma que magistrado provará sua inocência

Publicado em 16 de Março de 2026 às 17:19

Tiago Alencar

Publicado em 

16 mar 2026 às 17:19
Macário Júdice Neto, desembargado preso pela PF
Macário Júdice Neto é desembargador no Tribunal Regional Federal da 2ª Região Crédito: Cloves Louzada
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou denúncia, nesta segunda-feira (16), contra o deputado estadual Rodrigo Barcellar (União), o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias – ambos do Rio de Janeiro –, e o desembargador federal do Espírito Santo Macário Júdice Neto, preso desde dezembro do ano passado.
Eles e outras duas pessoas (Jéssica de Oliveira Santos e Thárcio Nascimento Salgado) foram denunciados por obstrução de investigação relacionada ao vazamento de informações sigilosas para o Comando Vermelho, no Rio. 
Em documento de 22 páginas, ao qual a reportagem de A Gazeta teve acesso, é destacado que, entre 2 e 3 de setembro de 2025,  na condição de relator de investigações no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário teria usado informações sigilosas para antecipar a deflagração da Operação Zargun — que levou à prisão de TH Joias.
Valendo-se do cargo, o desembargador teria revelado a Bacellar, com quem mantinha amizade, a existência de medidas cautelares contra TH e outros investigados. Com isso, o magistrado supostamente agiu para beneficiar o núcleo político da organização criminosa alvo da ação policial.
Desembargador do ES é denunciado pela PGR por obstrução de investigação no Rio
Procurado para comentar a denúncia da PGR, o advogado Patrick Berriel, que atua na defesa do desembargador federal, afirmou ter recebido a informação com  surpresa, além de pontuar que Macário provará sua inocência no processo (veja a nota na íntegra no fim do texto).

Desembargador reconheceu vazamento durante sessão

Preso desde dezembro do ano passado, Macário Júdice reconheceu que houve vazamento da ação policial, mas atribuiu o ato a policiais envolvidos nas prisões e apreensões.
A afirmação do desembargador foi feita durante uma sessão de julgamento do caso no TRF-2, em 8 de setembro de 2025, cinco dias após TH Joias ser preso.
“A operação vazou. E não foi na Justiça Federal. Eu fui contra a execução dos mandados junto com a Polícia Civil, não porque desconfio ou não confio na Polícia Civil. Porque, depois que três ou quatro se unem, vira comício”, declarou Macário Júdice. Ouça abaixo a fala na íntegra.
Conforme informado pelo jornal O Globo, a transcrição do voto de Macário consta no relatório da Polícia Federal entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR). Diferentemente dos outros investigados, o magistrado não foi indiciado por ser desembargador federal. Dessa forma, o caso teve de ser levado à PGR, que agora decidiu oferecer denúncia contra ele.
Em fevereiro, a Polícia Federal indiciou a esposa do desembargador, Flávia Júdice Neto, ex-assessora da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj); o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União); e o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva.
Macário disse que alertou o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Fábio Galvão, a não fazer a operação em conjunto.
“E fizeram. E tiveram a dificuldade de prender o TH porque a operação vazou. Então, talvez essa seja a situação de não encontrarem armas, dinheiro. Depois das 18h do dia anterior da prisão, já sabiam. Quem é que ia deixar alguma coisa à mostra?”, manifestou o desembargador.

Entenda as suspeitas contra o desembargador

A investigação da Polícia Federal apontou que Macário teria vazado informações da Operação Zargun. A principal linha de apuração se baseia em um suposto encontro do desembargador com o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, em um jantar em 2 de setembro, véspera da ação policial que levou à prisão de TH Joias.
Agentes confirmaram que houve uma troca de mensagens, às 22h12 de 2 de setembro, entre o assessor de Bacellar, Rui Carvalho Bulhões Júnior, e TH. Na conversa, o então presidente da Alerj teria relatado a Rui que estava em uma reunião com o desembargador capixaba, em uma churrascaria.
A PF ainda teria encontrado, no celular do presidente da Alerj, mensagens trocadas entre ele e o desembargador, o que embasou a investigação. Depois disso, Bacellar teria avisado TH Joias sobre a operação da Polícia Federal.
Após ser avisado por Bacellar, TH Joias teria apagado dados do seu celular e se desfeito de objetos em casa. Com um aparelho novo, teria colocado Bacellar como primeiro contato na lista de comunicação urgente. Enquanto a Polícia Federal estava em sua residência, o então deputado enviou ao presidente da Alerj uma foto das imagens do sistema de segurança que mostravam a equipe dentro do local. Os ambientes estavam revirados e faltavam móveis.
Em 3 de dezembro, Bacellar foi preso durante outra operação, a primeira fase da Unha e Carne, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
As investigações mostraram indícios de que TH Joias usava o mandato para favorecer o Comando Vermelho e intermediava compra e venda de fuzis, além de drogas e equipamentos antidrones.
De acordo com a denúncia, esses equipamentos eram utilizados para impedir ações policiais em áreas sob domínio da facção. TH ainda é acusado de nomear para cargos na Alerj pessoas investigadas por envolvimento com o CV.
A defesa de Bacellar afirmou que ele não atuou para obstruir investigações e negou ter vazado informações a possíveis alvos de operações da Polícia Federal. Os advogados dizem ainda que Bacellar foi ouvido pela PF e esclareceu tudo o que lhe foi perguntado.
Ainda segundo a defesa, o então presidente da Alerj não teria jantado com o desembargador na véspera da prisão de TH Joias. Segundo o advogado de Bacellar, o desembargador “teve o nome mencionado em vão” durante uma conversa entre seu cliente e TH Joias.

O que dizem as defesas

Patrick Berriel, advogado de defesa de Macário Júdice Neto

A defesa do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto recebeu com surpresa a denúncia da Procuradoria-Geral da República oferecida contra o seu cliente e lamenta que toda a narrativa desenvolvida pela acusação seja fruto de ilações e conjecturas que não se sustentam diante da lógica mais elementar e dos elementos concretamente reunidos ao longo da investigação. De toda forma, Macário se mantém sereno em razão da plena confiança que nutre pelo Poder Judiciário e da certeza de que provará sua inocência no processo

Defesa de Rodrigo Bacellar

A Defesa do Deputado Rodrigo Bacellar recebe com surpresa a denúncia oferecida pela Procuradoria-Geral da República, uma vez que está baseada em ilações e narrativas repetidamente refutadas, por meio de extensa prova documental. A acusação se traduz numa infrutífera tentativa de esconder arbitrariedades da Polícia Federal, já que NADA foi apurado que pudesse relacioná-lo aos fatos. Por fim, pontue-se, ainda, que foram realizadas medidas cautelares contra os verdadeiros responsáveis pelos vazamentos, o que, uma vez mais, evidencia a plena inocência e afasta o Deputado Rodrigo Bacellar de qualquer conduta ilícita, o que se espera seja brevemente reconhecido e declarado." 

A defesa dos demais denunciados não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

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