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Investigação

Milícia privada é suspeita de financiar atos antidemocráticos no ES

Grupo é investigado por suspeita de dar apoio financeiro, logístico e oferecer serviços, como banheiros e alimentação, aos que acampam na Prainha, em Vila Velha

Publicado em 20 de Dezembro de 2022 às 08:06

Vilmara Fernandes

Publicado em 

20 dez 2022 às 08:06
Bloqueio na região da Prainha
Ato na região da Prainha, em Vila Velha Crédito: Fernando Madeira
A investigação sobre as lideranças do atos bolsonaristas no Espírito Santo, a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), identificou provas e indícios da atuação de uma milícia privada. O grupo é suspeito de dar apoio financeiro, logístico, oferecer serviços, como banheiros, e até alimentação aos que acampam na Prainha, em Vila Velha, e na obstrução de estradas em território capixaba.
As provas foram levantadas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que requisitou à Polícia Civil a instalação de um inquérito que vem sendo acompanhado por promotores de Justiça. Uma outra investigação sobre a milícia privada também está sendo conduzida pela Polícia Federal.
No inquérito que tramita no Estado, o MPES pediu que duas pessoas fossem intimadas a prestar depoimento: Ubirajara Nobre Carlos, vulgo Bira Carlos ou Bira Nobre, e Marcos Willian dos Santos. Os dois deveriam ser ouvidos por fatos que indicam possível prática do crime de milícia privada, previsto no artigo 288-A do Código Penal, cuja pena vai de quatro a oito anos de prisão.
A Polícia Civil chegou a encaminhar, diretamente ao STF, um relatório preliminar com nomes de alguns suspeitos de liderar os atos bolsonaristas no Espírito Santo. Na lista aparece apenas o nome do Bira, apontado como um dos coordenadores da greve dos caminhoneiros no Espírito Santo no governo Temer, em 2018. Ele também tentou uma cadeira na Assembleia Legislativa nas eleições deste ano pelo PL, partido do presidente Bolsonaro. Marcos Willian não foi citado nesse relatório.
Protestos / Manifestantes bloqueiam a BR 101, em Linhares, na altura da Ponte Joaquim Calmon
Manifestantes bloqueiam a BR 101, em Linhares, na altura da Ponte Joaquim Calmon Crédito: Internauta

Atuação nos atos

A Gazeta apurou que as provas obtidas até o momento indicam que o grupo atuava como uma associação criminosa. Não há indícios de participação de forças policiais no grupo, mas ele conta com o apoio de diversas pessoas, incluindo empresários que financiam os serviços, como o pagamento de banheiros químicos, alimentação e até bloqueios de estradas.
Há informações ainda de que o grupo, mesmo sem uso de arma de fogo, ia para as estradas, coagia, ameaçava e causava temor. Segundo relatos feitos à reportagem, a atuação em solo capixaba era similar a de outros grupos no país, indicando o mesmo modo de agir, principalmente em relação ao financiamento promovido pelos empresários.
Um dos indícios da atuação do grupo foi identificado na Prainha, em Vila Velha, onde ainda acontecem os atos bolsonaristas, realizados em frente ao 38º Batalhão de Infantaria do Exército.
A Gazeta apurou que a Ouvidoria do MPES recebeu cerca de 50 registros de reclamações decorrentes dos transtornos causados na região. Nas proximidades funciona um hospital.
O local é um sítio histórico que abriga importantes construções antigas, como a mais antiga igreja em funcionamento do Brasil, a Igreja do Rosário. Por essas razões, o local tem restrições na mobilidade, principalmente para caminhões pesados, para preservar o patrimônio.
O MPES chegou a enviar uma notificação recomendatória para a Prefeitura de Vila Velha, que foi orientada a tomar medidas em relação aos impactos do protesto no sítio histórico, ocupado desde o dia 2 de novembro. No documento, o Ministério Público cita que no local há a instalação de barracas, motorhomes e outros veículos de forma indevida, relatando também os danos causados aos moradores e ao sítio histórico.

O que diz Bira Nobre

Em entrevista para A Gazeta, ao ser questionado sobre sua participação no movimento, o candidato a deputado estadual nas eleições 2022 Bira Nobre (PL) respondeu com indignação. "É brincadeira. Não acredito nisso (da apuração de participar de possível milícia privada). Eu não fui intimado, fui sim em manifestações na Prainha, fui, vou e estou lá como cidadão, até porque lá não tem líder", disse. Antes de desligar o telefone, afirmou: "Se quiser falar comigo, apareça na Prainha".
A Gazeta tentou mas não conseguiu contato com Marcos Willian dos Santos. Caso haja manifestação, este texto será atualizado.

Megaoperação no país

As manifestações antidemocráticas, inclusive a que ocorre em Vila Velha, também foram alvo de uma megaoperação da Polícia Federal autorizada pelo STF nesta quinta-feira (15). Foram cumpridos mandados no Espírito Santo, Distrito Federal e mais sete Estados — Acre, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rondônia e Santa Catarina.
No Estado, quatro pessoas tiveram a prisão decretada por atos antidemocráticos e investigadas por quatro crimes: contra a honra, incitação ao crime, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, todos previstos no Código Penal.
Estão presos o vereador de Vitória Armandinho Fontoura (Podemos), o jornalista Jackson Rangel, e o pastor Fabiano Oliveira. O candidato a deputado estadual derrotado Max Pitangui (PTB) está foragido. Além disso, estão com monitoramento eletrônico (tornozeleira) os deputados estaduais Capitão Assumção (PL) e Carlos Von (DC).
Também foram ordenados o bloqueio de contas bancárias e de perfis em redes sociais de suspeitos de organizar e financiar atos antidemocráticos e outros crimes.

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