Suposto esquema teria envolvimento de ex-presidentes da Câmara da Serra: Rodrigo Caldeira e Neidia Pimentel (destaque)Crédito: Ricardo Medeiros / Carlos Alberto Silva / Reprodução TV Gazeta
Entre os alvos da ação para ressarcimento dos valores estão o vereador Rodrigo Caldeira (Republicanos) e a ex-vereadora Neidia Pimentel, que teriam favorecido a prática criminosa quando estiveram na presidência da Casa de Leis. Na relação ainda constam outros oito nomes, entre servidores e empresários, e quatro empresas.
Na ação a que a reportagem de A Gazeta teve acesso, a promotora Maria Clara Mendonça Perim, da 13º Promotoria de Justiça Cível da Serra, aponta, entre outras irregularidades, sobrepreço em contratos, aumento injustificado de vagas de emprego — de 4 para 16 telefonistas, por exemplo — e fabricação de pesquisas de preços para beneficiar empresas nas negociações, que visavam à terceirização de mão de obra de apoio administrativo, incluindo o fornecimento de materiais, equipamentos e uniformes.
Conforme a promotoria descreve, a licitação e a execução contratual foram utilizados como instrumentos de fraude, com a participação articulada de diferentes empresas do mesmo grupo econômico — Servinorte Serviços Ltda., Grupo Servip (Aucamar), Serge Serviços Ltda. e Servimar Serviços e Conservação Ltda. – ME —, que atuaram, segundo o órgão ministerial, de forma simulada para conferir aparência de legalidade ao processo.
MPES cobra R$ 18,4 milhões por suposta fraude em contratos da Câmara da Serra
Neste esquema, continua o MPES, o empresário Julio Cezar Barbosa teria papel central, atuando como o sócio oculto e verdadeiro proprietário de empresas terceirizadas que se beneficiavam de contratações fraudulentas junto à Câmara da Serra. Ele teria usado familiares como "laranjas" para participar das licitações.
Desde 2012, a promotoria criminal da Serra apura indícios de irregularidades em contratos da Câmara Municipal, que teriam começado em 2009. Mas foi o Contrato 003/2014, assinado em março de 2014, o objeto principal da ação civil que pede o ressarcimento dos danos aos cofres públicos. Houve oito aditivos contratuais ao acordo original, que estenderam a execução dos serviços até meados de 2019.
Rodrigo Caldeira e Neidia Pimentel, cada qual durante o período em que estiveram no comando da Casa de Leis, contribuíram para a prorrogação do contrato.
A ex-vereadora, por exemplo, foi responsável por autorizar a formalização do primeiro ao quarto aditivo e ordenar as despesas, mesmo diante de irregularidades latentes, na avaliação da promotoria, especialmente em relação às falhas de cotação orçamentária e o aumento injustificado de postos de trabalho de telefonistas.
Essa decisão teria contribuído para o aumento do custo da prestação dos serviços ao revestir a contratação com uma 'falsa aparência de economicidade' (derivada da redução de postos menos dispendiosos), resultando em prejuízo ao erário. O Tribunal de Contas apontou que a substituição de auxiliares e assistentes administrativos por telefonistas resultou em uma despesa sem interesse público, configurando dano aos cofres públicos no valor de R$ 3,16 milhões, conforme observa o Ministério Público.
O vereador Rodrigo Caldeira também fez uma autorização de prorrogação excepcional do contrato (8º aditivo), sem adotar as providências administrativas indicadas pela procuradoria da Câmara Municipal, que havia alertado o ex-presidente sobre a necessidade de regularização das pesquisas de mercado para manter a contratação.
A prorrogação do contrato resultou em despesa de valor acima do que seria pago em nova contratação, causando um prejuízo de quase R$ 160 mil.
Por meio de nota, o vereador Rodrigo Caldeira afirmou que não é acusado de corrupção na ação do MPES sobre supostas fraudes na Câmara da Serra. Ele disse que seu nome aparece em apenas quatro das cerca de 350 páginas do processo, e sempre de forma indireta.
Segundo Caldeira, os contratos questionados foram herdados de gestões anteriores e um deles, alvo da ação, teria sido reduzido em R$ 150 mil durante sua gestão. O vereador declarou que nunca foi omisso, que manteve serviços para garantir o funcionamento da Casa e disse confiar na Justiça para esclarecer os fatos.
Leia, na íntegra, a nota do vereador Rodrigo Caldeira
Quero deixar claro que não sou acusado de corrupção. O processo do Ministério Público tem cerca de 350 páginas, envolvendo várias pessoas e empresas, mas o meu nome aparece em apenas 4 páginas, e ainda assim de forma indireta.
Quando assumi a presidência da Câmara, encontrei contratos que vinham de muitos anos antes de mim, de gestões de ex-presidentes. Um desses contratos a qual sou acusado de improbidade administrativa, por não o ter revisado especificamente, já existia há bastante tempo na Câmara.
E o que eu fiz não foi aumentar gasto, pelo contrário: eu reduzi esse mesmo contrato em cerca de R$ 150 mil, justamente para economizar para a Câmara. Diante da acusação de omissão, quero deixar claro que nunca fui omisso. Assinei documentos como todo gestor faz, mas sempre com responsabilidade.
Mantive a empresa citada no processo porque ela já prestava serviço há anos, e a Câmara não podia parar de funcionar. Infelizmente, algumas pessoas têm tentado distorcer os fatos e usar essa situação para me atacar. Mas a verdade é que a minha gestão sempre foi marcada por seriedade e compromisso. Eu confio na Justiça e sei que tudo será esclarecido.
A reportagem de A Gazeta tenta contato com a ex-presidente da Câmara Municipal Neidia Maura Pimentel e os demais denunciados pelo MPES. O espaço segue aberto para as manifestações.
O vereador Rodrigo Caldeira (Republicanos) enviou nota neste sábado (27), um dia após a publicação da reportagem sobre ação do MPES que aponta suposto esquema fraudulento na Câmara Municipal da Serra. O texto foi atualizado.