Na comemoração do bicentenário da Independência do Brasil, o uso eleitoral de uma data política e de manifestação cívica é mais um ponto nebuloso na história recente nacional. Os movimentos de negação do passado e a tentativa de um grupo de forjar uma identidade nacional excludente, baseada em suas próprias identificações e em uma visão idealizada de pátria e liberdade têm marcado o momento atual da História do Brasil.
A realização de desfiles para celebrar o 7 de setembro é uma tradição nacional que remonta ao Século XIX, conforme informações do Arquivo Nacional, e segundo pesquisadores ganhou força em períodos de um nacionalismo mais exacerbado, como no período entre guerras mundiais e durante o governo de Getúlio Vargas. Para comemorar os 200 anos da Independência do Brasil, até o coração de Dom Pedro I "desfilou" sob a escolta dos "Dragões da Independência".
Paralelamente a esses eventos passados, que passaram a contar com a participação de estudantes e escolas, juntamente com militares, a história do povo brasileiro como nação foi ganhando novos contornos. O Brasil passou por uma ditadura militar a partir de 1964, que durou 21 anos, e iniciou o atual período democrático após o movimento Diretas Já, consolidado com a aprovação da Constituição de 1988 e as eleições presidenciais de 1989.
Em meio a tudo isso, a visão de um Brasil afirmativo, de um povo miscigenado e tolerante também foi sendo construída. Porém, atualmente não é mais a mesma, principalmente diante de uma nação que vive um processo eleitoral extremamente polarizado e convive há pelo menos cinco anos com o avanço do conservadorismo, impulsionado pela eleição do atual presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2018, e do avanço da extrema direita na política nacional. Exemplos de intolerância são cada vez mais frequentes em todos os cenários.
No entanto, não é uma novidade do bolsonarismo e de movimentos ligados à direita o uso político de datas como o 7 de setembro ou de símbolos como a bandeira do Brasil. Segundo a cientista política e professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp Luciana Ferreira Tatagiba, “usar os feriados e símbolos pátrios é uma estratégia dos grupos para construir legitimidade para suas pautas”.
Tatagiba lembra a forma como os movimentos populares e religiosos pautam, desde 1995, o grito dos excluídos, bem como o uso de símbolos pátrios, entre os quais o hino nacional e a bandeira brasileira, no Movimento Diretas Já, e ressalta: “não se trata apenas de usar os símbolos nacionais, mas de disputar os seus sentidos”.
A professora da Unicamp considera o uso político dos símbolos nacionais importante do ponto de vista de "construção de unidade e de uma identidade por cima das diferenças". Ela enfatiza que “o problema não está, portanto, no uso dos símbolos nacionais como estratégia de luta política”, mas no fato de que determinados grupos da sociedade “se acham mais brasileiros que outros” e “pretendem tomar para si essa identidade nacional e forjá-la, narcisisticamente, à sua imagem e semelhança”.
Ela considera que os movimentos sociais de extrema direita buscarão fazer isso neste 7 de setembro, repetindo um discurso que eles têm sustentado desde 2015, pelo menos, e que se fortaleceu na campanha eleitoral de 2018.
"Eles dizem: ‘nós somos o povo, os verdadeiros brasileiros, por isso somos nós que temos o direito de nos apropriar dos símbolos da nação’. O problema está nessa ‘reserva de mercado’. Isso é profundamente autoritário, porque nega a legitimidade dos conflitos, da diferença, da pluralidade, que são princípios basilares de uma sociedade democrática
"
Na avaliação do professor de Teoria Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Milton Lahuerta, a fragmentação dos movimentos sociais progressistas acaba, ainda que de maneira não intencional, contribuindo para o avanço da ideia de nação personificada pela direita, que integra um movimento de negação muito forte. Esse grupo se coloca como “a verdadeira essência nacional”, na mesma medida em que repete à exaustão um discurso que une religião, família, pátria e liberdade a partir de uma visão própria e distorcida de fatos e eventos históricos, como a ditadura militar.
“Não estamos conseguindo sintetizar as lutas, não há diálogos entre as partes, fica tudo muito fragmentado e quem está resgatando a ideia de nação, num sentido muito problemático, porque inclusive destrói o que de fato nós fomos e somos, é a direita”, assinala Lahuerta.
O professor de Teoria Política destaca que esse não é um problema exclusivamente brasileiro e cita os fatos recentes ocorridos nos Estados Unidos, que culminaram na eleição do ex-presidente republicano Donald Trump. Para Lahuerta, o ex-presidente e o seu partido conseguiram falar com “os Estados Unidos profundo”, ou seja, cidadãos que se sentiam desprestigiados e deixados de lado pelo sistema, como os atingidos pela crise do sistema imobiliário naquele país no final dos anos 2000.
“Foi essa base que eles foram buscar para afirmar uma ideia de uma nação tradicionalista, que remete a uma visão idealizada de pátria, de família e de passado, que não corresponde à realidade, mas que atende à necessidade daqueles que perderam de se sentirem representados. O Brasil, de certa maneira, está vivendo algo parecido”, avalia o cientista político.
"OLHAR PARA O PASSADO PARA CONSTRUIR O FUTURO"
Apesar do cenário atual esmiuçado por Lahuerta e Tatagiba, os dois cientistas políticos apontam que é possível resgatar a ideia de unidade de nação e há avanços ao longo desses 200 anos de Independência que precisam ser comemorados.
Da mesma forma que muitas questões têm surgido em razão do bicentenário da Independência, há 100 anos movimentos como o iniciado a partir da Semana de Arte Moderna tentavam resgatar a brasilidade e construir uma identidade nacional a partir das obras de arte, músicas, literatura e expressões culturais. O movimento teve entre os célebres integrantes o escritor Mário de Andrade, a quem Lahuerta remete para falar sobre a "ideia generosa de Brasil" expressa pela música popular, pois, segundo o professor, o escritor dizia que "com a música é possível construir uma nova síntese do Brasil".
"Essa ideia de um Brasil afirmativo, de que tem algo a mostrar para o mundo e esse algo a mostrar passa por uma trajetória que, apesar de todos os problemas graves que temos, acabou propiciando um encontro entre os diversos, um certo equilíbrio entre os extremos, uma aproximação das pontas da sociedade, inclusive no que se refere às relações étnico-raciais. Não somos uma sociedade de Apartheid. Isso não significa que não temos racismo, mas que construímos algo que tem uma singularidade que se expressa na arte, na maneira do brasileiro ser. É isso que está sendo negado por esse grupo que hoje dominou o governo federal. Eles querem afirmar um Brasil que só existe na cabeça deles", critica o cientista político.
A professora enfatiza também que há avanços que mostram o caminho a seguir, pois o Brasil é "uma nação plural que, aos trancos e barrancos, vai buscando reconhecer no espelho suas diferentes faces". "Nossa independência depende de nossa capacidade de olhar para o passado para construir o futuro. Nesse sentido, considero um passo digno de comemoração, nesse momento sombrio, o que temos alcançado em termos do combate ao racismo, ao sexismo e à intolerância religiosa", sintetiza a professora da Unicamp.
Tatagiba reconhece, entretanto, que há um enorme caminho pela frente. "A questão é se vamos esperar mais 200 anos, ou se vamos acelerar a construção de um país que seja de fato para todos", pondera.
Lahuerta concorda sobre a necessidade de reconhecimento dos avanços que ocorreram ao longo da história para que o país possa avançar como nação. Ele alerta que esse é um ponto que precisa ser reconhecido por quem está no campo progressista e democrático, a fim de ampliar a elaboração de políticas democráticas e não fragmentadas e que restringem mais do agregam.
"O que está faltando para nós? Eu falo do campo progressista e democrático de maneira abrangente: está faltando capacidade de articular agendas, de sintetizar. Isso implicaria numa retomada do passado, porém não no sentido de destruí-lo ou de negá-lo, mas de fazer avançar as teses, aquelas posições que foram importantes para a época. Está faltando reconhecimento dos avanços culturais pelas forças que são de oposição ao grupo que tenta crescer com o conservadorismo", conclui o cientista político.
Agora, resta saber, como questionou a professora Luciana Tatagiba, quantos anos serão necessários para que as ações e os reconhecimentos necessários sejam feitos em prol de uma agenda democrática que possa barrar o avanço do conservadorismo no Brasil.