01
João Calmon (1994)
Um caso emblemático de “cristianização” na história política do Espírito Santo aconteceu na disputa para o Senado de 1994, quando os então senadores Gerson Camata e João Calmon, ambos do PMDB, eram pré-candidatos à reeleição. Entretanto, na convenção do partido só o nome de Camata foi homologado. Para a segunda vaga, o PMDB optou pelo ex-deputado Dailson Laranja, que era muito próximo do advogado José Ignácio Ferreira, então filiado ao PSDB, de quem havia sido colega de plenário na Assembleia Legislativa. Os dois tiveram seus mandatos cassados no final dos anos 60, durante a ditadura militar. Sem legenda para concorrer ao Senado, Calmon, que era um político experiente e tinha reconhecimento nacional pela atuação na área da educação, concorreu a uma vaga na Assembleia Legislativa. Porém, não logrou êxito e deixou para trás a carreira política. Morreu cinco anos depois. Sem uma campanha efetiva, Laranja recebeu a segunda menor votação do Estado para o Senado naquele ano, enquanto o mais votado na disputa foi Gerson Camata. Parte do PMDB apoiou informalmente José Ignácio, que acabou ficando com a segunda vaga de senador em 1994 e foi impulsionado quatro anos depois a concorrer ao governo estadual.
02
Audifax Barcelos (2008)
Em 2008, Audifax Barcelos (Rede) estava filiado ao PDT e era prefeito da Serra com boa avaliação. Eleito quatro anos antes para o cargo sob as bênçãos do seu “criador”, o atual prefeito do município, Sérgio Vidigal (PDT), de quem fora secretário municipal, Audifax era cotado para concorrer à reeleição. No entanto, Vidigal estava sem mandato eletivo desde que havia deixado a prefeitura, em 2005, e no ano seguinte perdeu a eleição para o governo do Estado. Com isso, em 2008 decidiu concorrer novamente à Prefeitura da Serra. Com o comando do PDT estadual nas mãos, Vidigal obteve de Audifax a desistência da disputa à reeleição e foi o candidato da legenda no município. Desde então, os dois passaram a ser adversários políticos e assim foi iniciada a disputa criador versus criatura no maior colégio eleitoral do Espírito Santo. Em 2012 e 2016, já filiado a outros partidos (PSB e Rede), Audifax concorreu contra Vidigal e o derrotou nas duas oportunidades.
03
Ricardo Ferraço (2010)
Em uma memorável coletiva à imprensa em abril de 2010, os capixabas foram comunicados pelo então governador do Estado, Paulo Hartung (na época no PMDB), que ele apoiaria o então senador Renato Casagrande (PSB) para a sua sucessão. Naquela época, Hartung e Casagrande faziam parte do mesmo grupo político. Porém, era o então vice-governador Ricardo Ferraço (hoje PSDB, na época no PMDB) que estava sendo preparado para ser seu sucessor. O episódio ficou conhecido como “abril sangrento”, corroborado pelas declarações de Ferraço sobre o ocorrido: “Eu sangrei porque o fogo amigo me corroeu”. Os bastidores que levaram à manobra política envolveram contrapartidas partidárias costuradas nacionalmente, embora as três principais lideranças locais envolvidas tenham dito que eram arranjos estaduais. Ao final, Hartung apoiou Casagrande ao Palácio Anchieta, mantendo um vice do PT como havia sido acordado por Ferraço, e fez campanha para o seu vice se eleger senador. Quatro anos depois, Ferraço apoiou a reeleição de Casagrande contra Hartung. Eles permanecem aliados e fazem dobradinha para a corrida ao governo nas eleições 2022, enquanto o Hartung faz parte de um grupo político adversário deles e afirma que seu ciclo de mandatos se encerrou.