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Eleições 2022

Os candidatos rifados pelos partidos na história política no ES

Situações como as vividas neste ano por César Colnago, coronel Ramalho e Sergio Meneguelli, retirados da disputa ao Senado, contam com episódios emblemáticos nas disputas eleitorais do Estado

Publicado em 09 de Agosto de 2022 às 08:01

Ednalva Andrade

Publicado em 

09 ago 2022 às 08:01
César Colnago, Alexandre Ramalho e Sérgio Meneguelli, retirados pelos partidos da disputa ao Senado nas Eleições 2022
César Colnago, Alexandre Ramalho e Sergio Meneguelli, retirados pelos partidos da disputa ao Senado nas Eleições 2022 Crédito: Montagem A Gazeta | Geraldo Neto
Política não é para amadores. A afirmação escolhida pelo coronel Alexandre Ramalho (Podemos) para descrever o seu sentimento diante da decisão do partido de não lançá-lo na disputa ao Senado pode ser aplicada de forma recorrente nas eleições, em especial durante o período de definição de candidaturas.
Também se encaixa bem nesse processo político-partidário a frase usada pelo ex-prefeito de Colatina Sergio Meneguelli (Republicanos) para demonstrar sua insatisfação com o fato de ter sido barrado da corrida ao Senado: “Aniquilaram o meu sonho”. A afirmação foi feita em discurso proferido durante a convenção do Republicanos, no dia 31 de julho.
Os candidatos rifados pelos partidos na história política no ES
Esses exemplos são uma amostra de que, para ser candidato, é preciso muito mais do que estar filiado a um partido e cumprir outros requisitos constitucionais, como idade mínima para concorrer a determinado cargo. Exige também conhecimento e inserção na política partidária, boa capacidade de articulação com outras lideranças políticas, além de demonstrar que consegue conquistar o eleitor e angariar votos.
Ramalho e Meneguelli são os casos mais notórios de candidatos rifados da disputa eleitoral de 2022 no Espírito Santo, até o momento. Mas estão longe de serem os únicos. Situações similares se acumulam a cada processo eleitoral na história do Estado. Em alguns casos, o apoio da legenda do preterido vai para um nome de outra sigla; em outros, o postulante rifado é substituído por outra pessoa do mesmo partido.
No caso de Meneguelli, o substituto foi outro nome do Republicanos, o presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso. Ao ex-prefeito foi oferecida a opção de concorrer a uma vaga de deputado estadual, candidatura que já tem registro solicitado à Justiça Eleitoral.
Já Ramalho teve a candidatura a senador negada pelo Podemos para que a legenda entrasse formalmente na coligação do governador Renato Casagrande (PSB) à reeleição. A sigla também passou a apoiar a candidata de Casagrande ao Senado, a senadora Rose de Freitas (MDB).
Ao outrora postulante ao Senado, resta concorrer a deputado federal ou estadual ou ainda desistir da disputa por um cargo eletivo, antes mesmo de tentar pela primeira vez. Até o momento, Ramalho não consta entre as candidaturas registradas pelo Podemos, em uma situação que, no jargão político nacional, é chamado de "cristianização".

O que é 'cristianização'?

O jargão político “cristianização” pode ser traduzido como ser abandonado pelo partido político e não tem qualquer relação com Jesus Cristo. O termo surgiu a partir de uma situação ocorrida na eleição presidencial de 1950, quando o candidato do antigo PSD à Presidência da República, Cristiano Machado, foi deixado de lado pelo partido, que passou a apoiar informalmente o favorito na disputa, o ex-presidente Getúlio Vargas, que se elegeu pelo PTB. Desde então, diz-se que um candidato que é preterido pelo próprio partido em uma eleição é "cristianizado".

Um terceiro nome barrado da disputa ao Senado nas eleições deste ano foi o ex-vice-governador César Colnago (sem partido). Inicialmente, ele afirmou que havia deixado o PSDB, após 30 anos de filiação, e migrado para o PSD com intenção de concorrer ao governo do Estado. Porém, lá esbarrou com a pré-candidatura a governador de Guerino Zanon, que deixou o mandato de prefeito de Linhares e o MDB para entrar na corrida ao Palácio Anchieta.
Em maio, depois de entendimento com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, Colnago anunciou que entraria na disputa para senador e declarou apoio a Guerino para o governo. Contudo, teve as suas pretensões frustradas mais uma vez quando o pré-candidato do PSD a governador anunciou que a vaga de senador na sua chapa seria usada para atrair outros partidos.
Colnago ainda tentou resistir e persistiu na pré-campanha percorrendo diversos municípios, mesmo depois de perder a presidência do partido. No entanto, no final de julho enviou uma carta à direção do PSD pedindo sua desfiliação da sigla e, com isso, ficará fora da disputa eleitoral de 2022.
Outro que também teve as intenções eleitorais frustradas nas eleições deste ano foi o superintendente da Polícia Federal no Espírito Santo, Eugênio Ricas. Ele chegou a declarar o interesse em entrar na disputa ao Palácio Anchieta, mas abortou a missão antes de confirmar a filiação ao PSD. Um dos motivos seria o fato de ter de brigar por espaço na legenda com Guerino Zanon, o qual tem décadas de experiência na política e na vida partidária, enquanto ele tentaria sua primeira eleição.
Na avaliação do cientista político Fernando Pignaton, representante brasileiro da Associação Internacional para Pesquisa e Intervenção Social (Aifris), esses casos são reflexos do congestionamento de candidaturas ao mesmo cargo, seja entre os partidos da base de apoio de Casagrande, onde Ramalho estava, seja no campo da direita, centro-direita e extrema-direita, a exemplo de Meneguelli e Colnago.
Além disso, Pignaton considera que essas pré-candidaturas fracassadas são exemplos que não vão à frente porque o postulante não obteve êxito em uma, duas ou mesmo nas três capacidades que ele considera necessárias a um candidato, dentro da estrutura partidária existente no Brasil atualmente:  articulação partidária, articulação política e capacidade eleitoral. 
De acordo com o cientista político, a articulação partidária seria a capacidade de estar por dentro do que acontece no partido e conhecer as estruturas partidárias em si; e articulação política corresponderia a conhecer todas as peças do tabuleiro eleitoral, desde as aliadas às adversárias, e conseguir transitar bem entre elas. Já a capacidade eleitoral poderia ser traduzida no potencial de votos do candidato para o cargo pretendido, bem como do potencial de convencimento do eleitor e de carisma do candidato.
"Havia mais candidatos para cargos majoritários do que era possível. Até que se estabeleçam os acordos, os candidatos que não têm força política, partidária e eleitoral acabam ficando de fora. É preciso ter força dentro do partido, capacidade de obter votos e boa relação dentro no meio político. "
Fernando Pignaton - Cientista político e representante brasileiro da Associação Internacional para Pesquisa e Intervenção Social (Aifris)
Pignaton acrescenta que Ramalho está entrando na política, então ainda desconhece algumas articulações do meio. Meneguelli, por sua vez, embora já tenha alguma experiência, só exerceu mandatos no âmbito do município de Colatina, onde foi vereador e prefeito. Além da falta de vivência num cenário mais expandido, o cientista político destaca que o ex-prefeito é considerado mais um influencer digital, devido ao sucesso dele nas redes sociais, do que propriamente uma liderança política. 

OUTROS CASOS

Engana-se quem pensa que apenas novatos na política são alvos de rasteiras em disputas eleitorais ou, para usar um termo do folclore político nacional, são “cristianizados”. Relembre alguns casos: 

01

João Calmon (1994)

Um caso emblemático de “cristianização” na história política do Espírito Santo aconteceu na disputa para o Senado de 1994, quando os então senadores Gerson Camata e João Calmon, ambos do PMDB, eram pré-candidatos à reeleição. Entretanto, na convenção do partido só o nome de Camata foi homologado. Para a segunda vaga, o PMDB optou pelo ex-deputado Dailson Laranja, que era muito próximo do advogado José Ignácio Ferreira, então filiado ao PSDB, de quem havia sido colega de plenário na Assembleia Legislativa. Os dois tiveram seus mandatos cassados no final dos anos 60, durante a ditadura militar. Sem legenda para concorrer ao Senado, Calmon, que era um político experiente e tinha reconhecimento nacional pela atuação na área da educação, concorreu a uma vaga na Assembleia Legislativa. Porém, não logrou êxito e deixou para trás a carreira política. Morreu cinco anos depois. Sem uma campanha efetiva, Laranja recebeu a segunda menor votação do Estado para o Senado naquele ano, enquanto o mais votado na disputa foi Gerson Camata. Parte do PMDB apoiou informalmente José Ignácio, que acabou ficando com a segunda vaga de senador em 1994 e foi impulsionado quatro anos depois a concorrer ao governo estadual.

02

Audifax Barcelos (2008)

Em 2008, Audifax Barcelos (Rede) estava filiado ao PDT e era prefeito da Serra com boa avaliação. Eleito quatro anos antes para o cargo sob as bênçãos do seu “criador”, o atual prefeito do município, Sérgio Vidigal (PDT), de quem fora secretário municipal, Audifax era cotado para concorrer à reeleição. No entanto, Vidigal estava sem mandato eletivo desde que havia deixado a prefeitura, em 2005, e no ano seguinte perdeu a eleição para o governo do Estado. Com isso, em 2008 decidiu concorrer novamente à Prefeitura da Serra. Com o comando do PDT estadual nas mãos, Vidigal obteve de Audifax a desistência da disputa à reeleição e foi o candidato da legenda no município. Desde então, os dois passaram a ser adversários políticos e assim foi iniciada a disputa criador versus criatura no maior colégio eleitoral do Espírito Santo. Em 2012 e 2016, já filiado a outros partidos (PSB e Rede), Audifax concorreu contra Vidigal e o derrotou nas duas oportunidades.

03

Ricardo Ferraço (2010)

Em uma memorável coletiva à imprensa em abril de 2010, os capixabas foram comunicados pelo então governador do Estado, Paulo Hartung (na época no PMDB), que ele apoiaria o então senador Renato Casagrande (PSB) para a sua sucessão. Naquela época, Hartung e Casagrande faziam parte do mesmo grupo político. Porém, era o então vice-governador Ricardo Ferraço (hoje PSDB, na época no PMDB) que estava sendo preparado para ser seu sucessor. O episódio ficou conhecido como “abril sangrento”, corroborado pelas declarações de Ferraço sobre o ocorrido: “Eu sangrei porque o fogo amigo me corroeu”. Os bastidores que levaram à manobra política envolveram contrapartidas partidárias costuradas nacionalmente, embora as três principais lideranças locais envolvidas tenham dito que eram arranjos estaduais. Ao final, Hartung apoiou Casagrande ao Palácio Anchieta, mantendo um vice do PT como havia sido acordado por Ferraço, e fez campanha para o seu vice se eleger senador. Quatro anos depois, Ferraço apoiou a reeleição de Casagrande contra Hartung. Eles permanecem aliados e fazem dobradinha para a corrida ao governo nas eleições 2022, enquanto o Hartung faz parte de um grupo político adversário deles e afirma que seu ciclo de mandatos se encerrou.

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