Uma falha mecânica pode ter causado o tombamento do ônibus de excursão que deixou três mortos e 45 feridos na BR 262, em Ibatiba, Região do Caparaó, no Espírito Santo, no último domingo (27). Segundo o chefe da delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Viana, Marcel Haase, testemunhas relataram que o veículo teria perdido o freio ao passar pela chamada Curva da Ferradura, no km 151 da rodovia.
Haase ressaltou que a informação é preliminar e que a causa do acidente ainda será investigada. Uma equipe de perícia foi encaminhada ao local para analisar as circunstâncias do tombamento e apontar o que provocou o acidente.
“Todas as informações são preliminares, mas testemunhas no local disseram que o ônibus teria perdido o freio na curva da ferradura”, afirmou Haase em entrevista ao Bom Dia Espírito Santo.
O ônibus, que pertence a uma empresa de Contagem, em Minas Gerais, retornava de Itaoca, em Itapemirim, no Sul do Espírito Santo. Segundo a PRF, havia 48 pessoas no veículo. Morreram no acidente o motorista, Douglas Rodrigues de Souza Oliveira, de 38 anos, que era de Contagem, e as passageiras Vera Lúcia de Andrade, de 44, e Maria Aparecida Martins Barbosa, de 54, de Belo Horizonte (MG). Os corpos foram encaminhados Seção Regional de Medicina Legal (SML) de Venda Nova do Imigrante e liberados aos familiares ainda na segunda-feira (28).
Dos 45 feridos, dois foram levados para a Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro de Itapemirim: um homem de 39 anos com fratura na mandíbula e uma mulher de 34 anos com traumatismo craniano. Na Santa Casa de Misericórdia de Iúna, foram atendidas 25 vítimas no pronto socorro, em situação de urgência e emergência. Segundo o hospital, três delas foram tranferidos para unidades de referência na Grande Vitória, para onde tambem foram levados os demais feridos.
A Santa Casa de Iúna informou que alguns feridos atendidos no local já foram liberados pelos médicos, mas ficarão na unidade aguardando transporte enviado pela empresa responsável pelo ônibus ou por familiares.
No Pronto Atendimento de Ibatiba, das 20 vítimas encaminhadas à unidade após o acidente, 10 foram transferidas para outras unidades de saúde. Cinco pessoas, entre elas, duas crianças seguem internadas. As demais foram liberadas.
A Polícia Científica disse que o ônibus passará por um exame especializado do Departamento de Engenharia Forense (DENF), complementar à perícia realizada no local do acidente. As equipes estão organizando o deslocamento para que o exame seja feito o mais breve possível, mas ainda não há data definida.
Procurada pela reportagem, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou que ônibus envolvido no acidente trafegava de forma irregular no momento da tragédia.
Segundo a ANTT, o veículo (placa KJJ-3E79), de propriedade da empresa GOJ Transporte e Turismo Ltda., possuía Licença de Viagem aberta apenas para o trecho entre Santa Bárbara (MG) e São Paulo (SP). Ao passar pelo Espírito Santo, o coletivo descumpria o itinerário aprovado pela fiscalização federal.
Apesar da irregularidade no trajeto, a ANTT pontuou que o coletivo cumpria as exigências técnicas e legais de circulação: o Certificado de Segurança Veicular (CSV), a aferição do cronotacógrafo e o seguro contra acidentes estavam dentro da validade.
A constatação de rota não autorizada deve integrar o inquérito policial que apura as responsabilidades do acidente na rodovia federal, de acordo com a ANTT.
Geraldo de Oliveira, responsável pela GOJ Transporte e Turismo Ltda., afirmou que o ônibus havia sido vendido pela empresa cerca de 35 a 40 dias antes do acidente, mas que a transferência ainda não havia sido formalizada. Segundo ele, o atual proprietário utilizou o coletivo para substituir outro ônibus que apresentou problema mecânico antes da viagem.
Geraldo disse que orientou o comprador a informar à ANTT sobre a substituição do veículo. “A gente tem a opção de informar troca de veículo, troca de motorista. Aconteceu um problema, pode ser substituído”, afirmou.
Ele afirmou que, no sábado, ao perguntar se o procedimento havia sido realizado, ouviu do comprador: “Eu não consegui informar a troca do veículo porque trabalho com cooperativa, não tenho sistema próprio da ANTT, sou cooperado”.
Geraldo acrescentou que, quando a empresa possui acesso direto ao sistema, a alteração pode ser feita em cerca de 20 minutos. Ele afirmou ainda que o ônibus estava com a documentação e o seguro regulares.
A reportagem aguarda contato do atual proprietário para ouvi-lo sobre o caso.
A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias do acidente. Segundo o delegado de Ibatiba, Bruno Alves Rodrigues, as mortes das duas passageiras são investigadas, preliminarmente, como homicídio culposo, quando não há intenção de matar, mas o resultado ocorre por imprudência, negligência ou imperícia.
Também são apuradas possíveis lesões corporais culposas relacionadas às demais vítimas. O motorista do ônibus, que também morreu no acidente, seria inicialmente investigado como pessoa física. Com a morte dele, houve extinção da punibilidade, conforme previsto no Código Penal. A investigação, no entanto, continuará para apurar eventual responsabilidade da empresa.