Não é nada fácil encontrar um tema de segurança pública para tratar na época natalina: não tem pauta positiva... A solução foi voltar à minha infância em Cachoeiro, quando não havia quase nenhuma criminalidade e os riscos que corríamos eram criados pelas nossas próprias estripulias.
O delegado de polícia era o sargento PM Francelino (naquela época podia), mas para mim ele era mesmo o meu professor de Educação Física, três vezes por semana, e o católico devoto que podia ser visto na missa todos os domingos, orando em atitude tão humilde, contrita e compenetrada que não ousaríamos interromper nem para cumprimentar. O fato de saber que ele existia me passava toda a sensação de segurança de que eu podia precisar.
Certo dia, nossa empregada doméstica apareceu com sinais do que hoje chamaríamos de violência doméstica. Naquela época, era “normal”, mas o fato se repetiu e mamãe pediu a intervenção do sargento Francelino, que chamou o marido para uma conversa (naquela época podia). Não sei o que ele falou, mas o fato é que o problema se resolveu de uma vez por todas.
Eu teria muitas outras histórias como essa, terminadas de maneira justa e, às vezes, enérgica, mas rápida e com raras prisões, recompondo o tecido social, em vez de rasgá-lo de vez. Todas soariam muito estranhas hoje em dia, mas naqueles tempos o formalismo era sacrificado em favor da eficiência prática.
E tinha o subdelegado Acenor Fraga, bonachão, que nas manhãs de domingo era meu treinador no time da AABB e quase sempre me escalava para o time de camisa azul: obviamente não entendia nada de futebol e não sabia reconhecer um verdadeiro talento, ou eu teria sido um profissional...
Essa, basicamente, foi a minha experiência pessoal com a violência e com a polícia até ir estudar no Rio. Não que a pobreza fosse inexistente, mas não havia esses fossos sociais e urbanos de hoje em dia. A violência da época, ainda muito concentrada no campo, vinha migrando apenas para as grandes cidades e, com ela, e a discriminação.
Em Cachoeiro, ao contrário, crianças muito mais pobres ou mais ricas que eu estudavam nas mesmas escolas. Brincávamos (e brigávamos, porque naquela época podia) juntos. Hoje, paredões visíveis e invisíveis separam as pessoas, mas não as protegem, pelo contrário.
Será que Francelino e Acenor podiam se dar ao luxo de serem amistosos com todos porque Cachoeiro estava sempre tranquila, ou era o contrário? Nada acontecia ou eu é que não me dava conta? Cachoeiro mudou ou fui eu? Não faço ideia, mas lembrar deles sempre me aquece o coração.