Emoção e protagonismo na Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2). Nesta semana, a unidade - que é referência no atendimento à população LGBTQIA+ privada de liberdade-, recebeu a apresentação do exercício cênico “Manga Rosa, Coração Civil”, resultado de meses de oficinas de teatro realizadas com 15 internas e internos.
O trabalho integra o projeto “Palco Livre: teatro no presídio LGBTQIA+”, contemplado pelo Funcultura e pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Sob orientação do oficineiro Antonio Marx, os participantes mergulharam, desde agosto, em atividades que envolveram expressão corporal, técnicas vocais, jogos teatrais e práticas de improvisação. O processo formativo somou 36 horas de aulas e culminou na encenação apresentada dentro da própria unidade.
A proposta da montagem, explica Antonio, vai além do exercício artístico. Ela nasce de uma perspectiva de educação em direitos humanos e aborda temas como racismo, machismo, LGBTfobia e outras violências que atravessam a sociedade.
O teatro abre brechas para reflexões que nem sempre chegam ao cotidiano do cárcere. É um espaço de troca, de sensibilidade e de descoberta de emoções que estavam adormecidas
Para ele, o impacto se dá tanto no palco quanto no processo: "Eles e elas rompem, por algumas horas, os limites da cela e se encontram com outras possibilidades de si".
O diretor da unidade, Gabriel Fitaroni Neves da Cunha, destaca que iniciativas como essa ampliam o alcance das ações de ressocialização. Segundo ele, a arte tem um papel fundamental na reconstrução de vínculos e na formação de novas perspectivas.
“Garantir que projetos como esse aconteçam dentro da PSME2 reafirma nosso compromisso com um tratamento penal humano. A oficina permite que os participantes expressem suas histórias, desenvolvam novas habilidades e possam vislumbrar caminhos diferentes”, afirmou. Nesta edição, apenas pessoas do regime provisório participaram.
Entre as surpresas reveladas ao longo das oficinas está a interna Mharyetta Jhoaquina, que trouxe ao projeto sua formação como cantora lírica. Durante a apresentação, sua performance vocal ganhou destaque:
Canto desde muito cedo e descobri o canto lírico ainda na adolescência. Estar no palco e cantar novamente foi reviver algo que me conecta com quem eu sou. A música me faz sentir livre
O Palco Livre é realizado em parceria com a Ufes, por meio do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde (NuDHS), e conta também com a colaboração da ReBEDH-ES, fortalecendo a presença da arte como instrumento de cidadania e transformação dentro do sistema prisional.