Algumas histórias não cabem apenas nos livros ou nos arquivos da memória. Elas permanecem vivas nos espaços que ajudaram a construir, nas ideias que inspiraram gerações e nos caminhos que abriram para outros seguirem. É nesse lugar que vive o legado de Maria Verônica da Pas: artista, médica e militante e uma das figuras mais importantes para a construção da cultura capixaba.
Seu nome hoje batiza o Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas, o Mucane, em Vitória, um espaço dedicado à arte, à memória, à produção intelectual e à valorização da identidade afro-capixaba. Mais do que uma homenagem, o nome do museu é o reconhecimento de uma trajetória marcada por coragem, sensibilidade e compromisso com a cidadania.
Uma vida moldada pela luta e pelo conhecimento
Verônica nasceu em 9 de julho de 1948, na cidade de Itabira, em Minas Gerais, mesma cidade do escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade. Mas foi no Espírito Santo que construiu sua trajetória. Ainda criança mudou-se com a família para Cariacica, onde cresceu no bairro Jardim América.
Desde cedo, carregava um sonho que parecia distante para muitas meninas negras de sua geração: tornar-se médica. Com o apoio da família, transformou o desejo em realidade. Tornou-se psiquiatra e dedicou sua carreira à defesa de uma medicina humanizada e à construção de políticas públicas voltadas à saúde mental e à dignidade das pessoas.
Mas sua atuação nunca se limitou aos consultórios ou hospitais. Para Verônica, cuidar da saúde também significava enfrentar as estruturas sociais que produzem desigualdade, racismo e exclusão.
Arte como ferramenta de memória e resistência
Se a medicina foi uma das frentes de sua atuação, a cultura e as artes se tornaram outro território fundamental de sua militância. Verônica compreendia a arte como instrumento de construção de identidade, de preservação da memória e de afirmação da presença negra na história.
Segundo a professora e cientista social Jaiara Dias, além de idealizar o Mucane, Verônica também produzia arte.
"Ela era poeta, compunha músicas e também se aventurou no audiovisual na década de 1990, roteirizando dois curtas-metragens: O papel histórico da mulher negra e Insurreição de Queimados"
O segundo filme foi produzido em parceria com o historiador Cléber Maciel e resgata a revolta de negros escravizados ocorrida em 1849 na região de Serra, um dos episódios mais importantes da resistência negra no Espírito Santo.
Para Jaiara, essa produção artística revela a forma como Verônica utilizava diferentes linguagens para preservar a memória afro-brasileira no estado. “Ela contribuiu também com o audiovisual capixaba, ajudando a potencializar a memória africana no Espírito Santo”, afirma.
O sonho que virou museu
Mais do que produzir arte, Verônica buscava abrir caminhos para que artistas negros tivessem espaço, visibilidade e reconhecimento. Foi dessa visão que nasceu a ideia do Museu Capixaba do Negro.
A proposta começou a ganhar forma em 1988, quando Verônica coordenou o Seminário Internacional da Escravidão na Universidade Federal do Espírito Santo. O evento reuniu pesquisadores, artistas e intelectuais de diferentes países para discutir os impactos da escravidão e as formas de resistência negra.
A partir desse movimento, ela passou a defender a criação de um espaço permanente dedicado à memória e à cultura afro-capixaba.
De acordo com Jaiara Dias, o museu foi resultado de um processo intenso de articulação política e mobilização social. “Verônica foi a principal idealizadora e primeira coordenadora do Museu Capixaba do Negro. A ideia surgiu justamente a partir das discussões promovidas naquele seminário internacional”, explica.
Depois de anos de pressão e negociações, o museu foi oficialmente criado em 13 de maio de 1993, por decreto assinado pelo então governador Albuíno Cunha Azeredo, um dos primeiros governadores negros do país.
“Ela compreendia que a construção do Mucane era um dos caminhos possíveis para que o Estado cumprisse seu papel na formulação de políticas públicas que garantissem cidadania e respondessem às demandas da população negra capixaba”, destaca Jaiara.
O museu como território de vida
Verônica foi a primeira coordenadora do Mucane e esteve à frente do espaço até pouco antes de sua morte, em 1996. Durante esse período, dividia o tempo entre o trabalho no Hospital São Lucas e a construção do projeto cultural que havia idealizado.
Mesmo diante de dificuldades estruturais e falta de recursos, manteve o museu vivo por meio de atividades culturais, exposições, cursos e encontros do movimento negro.
Entre as iniciativas estavam aulas de dança afro, rodas de capoeira, exposições de arte, visitas escolares e até um pré-vestibular voltado à juventude negra. O objetivo era transformar o museu em um espaço de formação, reflexão e fortalecimento da comunidade.
Em 1995, durante as mobilizações pelos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares, Verônica organizou uma vigília cultural no museu com o lema “Ocupar para resistir”, convidando artistas e militantes a manterem o espaço vivo por meio da presença da comunidade.
Um legado que permanece
Verônica da Pas morreu em 2 de outubro de 1996, mas sua trajetória deixou marcas profundas na cultura capixaba.
Para Jaiara Dias, seu legado ultrapassa a criação de uma instituição cultural. “Verônica deixou uma contribuição muito importante para a cultura capixaba com a fundação do Mucane, que se tornou um cenário de pertencimento e intelectualidade negra”, afirma.
Segundo a pesquisadora, Verônica também foi uma referência para as mulheres do movimento negro no estado. “Ela foi uma importante referência de empoderamento e estética negra para muitas mulheres do movimento negro capixaba”, destaca.
Hoje, o museu que leva seu nome permanece como símbolo dessa trajetória. Um lugar onde arte, memória e história se encontram para lembrar que a cultura também é território de resistência. E que algumas vidas, como a de Verônica da Pas, continuam ecoando muito depois de sua partida.