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Murilo Góes

Não quer entrar para tomar uma xícara de café?

Há muito tempo ele é usado como pretexto. É a bebida geralmente convocada quando queremos agendar risadas, desabafos, fofocas e momentos de decisão

Publicado em 24 de Fevereiro de 2025 às 07:00

Publicado em 

24 fev 2025 às 07:00
Murilo Góes

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Murilo Góes

m.goesmurilo@gmail.com

Não quer entrar para tomar uma xícara de café?
Todo mundo pode faltar a um encontro, menos o café Crédito: Milton Buzon/Shutterstock
Nos últimos meses, o café disputou com o calor o título de reclamação da temporada. Tem sido interessante ver como o preço de um grão pode esquentar ainda mais a pauta dos diálogos ordinários.
Sim, há muito tempo a gente usa o café como pretexto. É bebida geralmente convocada quando queremos agendar risadas, desabafos, fofocas, momentos de decisão e outras oportunidades para estar em companhia (de preferência, em algum lugar com ar-condicionado).
Todo mundo pode faltar a um encontro, menos o café. Vestido em garrafas, em cápsulas, em prensas - ou mesmo nu, coado direto na xícara -, ele nomeia a bebida e a ocasião. Até aos que se dizem distanciados desse vício, beber ao menos uma dose serve como metáfora para refletir sobre o que tenho chamado de memória do prato: os valores mobilizados ao redor de uma comida, sejam eles conscientes ou não.
Gostaria de entrar para tomar uma xícara de café? Cresci assistindo ao seriado Chaves e idealizando, por exemplo, encontros apaixonados em torno da bebida. Só na adolescência passei a pensar na frase de Dona Florinda como convite discreto para comensalidades mais adultas. A verdadeira intenção pouco importa, mas o óbvio precisa ser sublinhado: para que exista café, alguém vai precisar esquentar a água. E quem foi que preparou a última xícara oferecida a você?
O filme iraniano Meu Bolo Favorito é um verdadeiro tributo também às memórias inconscientes da comida: preparar uma mesa à espera de alguém numa vida de solidão. Quantas referências sobre um sujeito a comida é capaz de reunir e revelar? No longa-metragem, o bolo ainda cria uma memória para refletir sobre a arbitrariedade de um regime teocrático controlador dos mínimos prazeres em companhia.
O perigo de uma crença única geralmente acontece quando tentamos ocultar memórias ao impedir que elas sejam compartilhadas. Mas o inconsciente da comida é teimoso e sempre nos lança a algum diálogo para produzir sentidos e criar lembranças. Democraticamente, é importante poder tomar um café com Deus pai, mesmo sabendo que outros podem preferir uma cachaça com Zé Pelintra.
Memórias ocultas da comida geralmente não são reguladas por preço, mas têm bastante valor. Via de regra, toda comida é afetiva e as emoções podem variar bastante. Nesse caminho, os adjetivos demarcam as impressões dos que verdadeiramente vivem de experimentar o mundo - seja em busca do doce perfeito, do almoço inesquecível, do bolo favorito ou mesmo do café amargamente inflacionado.

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

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