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Murilo Góes

Procura-se comida caseira fora de casa

Podemos comprar bolinho de chuva em padarias, mas nada substitui a vivência de sua ritualística na casa de alguém

Publicado em 26 de Outubro de 2025 às 07:00

Publicado em 

26 out 2025 às 07:00
Murilo Góes

Colunista

Murilo Góes

m.goesmurilo@gmail.com

Bolinhos de chuva com açúcar e canela
Bolinhos de chuva com doce de leite  Crédito: Tasty Click
A maior rede social do mundo é o alimento, e quem recentemente declarou isso foi o chef Rodrigo Oliveira, profissional que muito admiro e de quem não ousaria discordar. Temperado por diferentes culturas, o alimento se transforma em comida para promover intercâmbios entre o estômago e as emoções.
Na história narrada pela gastronomia moderna, o termo "restaurante" vem de "restaurar", referindo-se aos caldos nutritivos e restauradores que eram servidos em hospedagens e casas de saúde para revigorar os visitantes na França do século XVIII. Acontece que a restauração nunca foi apenas sobre o físico: o descanso promovido na pausa para comer possibilita movimentar também os ânimos das nossas memórias.
Merendar fora de casa cria lembranças e estimula novos prazeres. Quando viajamos, por exemplo, gostamos ou não de lugares também por aquilo que experimentamos e restauramos, literalmente, com a boca. 
Degustar outras comidas é a forma mais absoluta de conhecer novas culturas. Mas em algum momento as novidades também podem cansar: nessas horas, queremos voltar à nossa própria casa para revigorar o emocional com arroz, feijão e bife reconhecidamente temperados.
Um bom filho à casa torna, mas penso que procurar comida caseira fora de casa também pode nos fazer entrar no lar de outra pessoa para, em uma refeição, visitar sua intimidade de sabores. Morando em Vitória, recebo poucos convites e visitas porque, em casa de ferreiro, o espeto perfura quando a cara é de pau…
Talvez não seja por coincidência, mas facilmente encontro pimentas e maioneses caseiras em cardápios que vão do boteco ao fast food - afinal, antes de se tornar uma blogueira do afeto, a culinária do lar já era um espaço comercialmente idealizado para apoios e conexões emocionais.
Há um mercado que traduz a cozinha doméstica como comida afetiva, isso é natural. Já experimentei pães caseiros produzidos industrialmente que eram terríveis, porque, obviamente, jamais conheci alguém que morasse entre esteiras e maquinários de inox.
Café com bolinho de chuva, por outro lado, ilustra um bom pretexto para eu me conectar com uma cozinheira de casa até nos dias mais ensolarados. A simplicidade enganosa desses bolinhos fritos encobre cuidados que vão da iniciativa de misturar bem os ingredientes, passando pela paciente imersão oleosa que é sucedida pelo polvilhar de açúcar com canela para chegar numa mesa previamente organizada no intuito de restaurarmos o corpo, o espírito e uma série de fofocas.
Podemos comprar bolinho de chuva em padarias, é verdade. Mas nada substitui a vivência dessa ritualística na casa de alguém. É difícil competir com os sabores demarcados pelas memórias olfativas, auditivas e os cuidados circunstanciais - eis aí uma honestidade muito particular de comidas caseiras, verdadeiros artesanatos que decoram as bocas e geralmente deixam as más línguas prazerosamente ocupadas.

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

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