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Protagonismo negro: a força que transforma criatividade em negócios no ES

Eles já passam de 15 milhões de donos de negócios no país. Apesar desse número, os dados mostram que empreender, para a população negra, ainda é mais desafiador. Na reportagem especial, histórias de quem tem superado as estatísticas no Espírito Santo
Guilherme Sillva

Publicado em 29 de Abril de 2026 às 09:00

A empreendedora Márcia Bispo vende turbantes na Grande Vitória
Márcia Bispo se tornou empreendedora ao vender turbantes na Grande Vitória Crédito: Fernando Madeira

Silvana Araújo aprendeu cedo o tino para os negócios. Negra, com ensino médio completo e filha de pais nordestinos, ela desafiou as estatísticas: hoje comanda um negócio com quase 30 funcionários e que deve faturar, só em 2026, 50 milhões de reais.


Nem sempre foi assim. Silvana começou a jornada aos 17 anos em uma loja de shopping em Vitória. Foi estoquista, vendedora e gerente. "Fiz muitos treinamentos até me tornar vendedora e, na profissão, encontrei o meu propósito, porque eu sou e nasci vendedora", conta.

Virou expert em negócios de moda. Fez escola na lendária Yes, Brazil, grife de sucesso nos anos 1990. "Amava trabalhar com aquela roupa incrível, exuberante e que tinha a cara da mulher capixaba". No varejo, também passou por marcas como Hugo Boss e Colcci, onde aprendeu a gostar de pessoas, de conversar e de ouvir. Até que se tornou empreendedora.

A empreendedora Silvana Araújo tem loja e showroom em Vila Velha
Além do showroom, Silvana Araújo abriu uma loja de roupas e peças de artesanato brasileiro Crédito: Ricardo Medeiros
Há duas décadas, ela abriu o showroom com o seu nome e um catálogo de marcas reconhecidas no mercado, entre elas Lança Perfume, Animale Jeans e Maria Filó. "Só trabalhei na loja dos outros, estava na hora de ter meu negócio. As marcas são exclusivas no estado e 70% dos clientes estão conosco desde o início", celebra.


Além do showroom, no ano passado ela inaugurou a Casa Malê, uma loja de quase 300 metros quadrados onde marcas desejadas dialogam com peças vintage garimpadas por ela. "Cada detalhe celebra a criatividade e a brasilidade, valorizando a essência do trabalho artesanal, em especial de talentosos artesãos nordestinos. Essa loja me traz prazer".

A empresária sempre teve que vencer os desafios de ser mulher e negra. "Várias vezes já chegaram aqui perguntando a mim pela dona do negócio. Amo ser preta, e o meu maior desafio é ser mulher. Trabalho em um negócio masculino". 

Mesmo sem ter cursado faculdade ou especialização, Silvana se considera uma empreendedora nata. "Não tive educação financeira; entre erros e acertos, construí algo grande, que impacta muitas vidas, e isso me dá orgulho. Minha missão é que as pessoas que trabalham comigo avancem e também possam abrir o seu próprio negócio". 


Realizada profissionalmente, prestes a abrir um novo negócio na Prainha, em Vila Velha, e sonhando em dar a volta ao mundo em um veleiro, a empreendedora sabe que venceu. 'Eu venço todos os dias, mas isso também traz sacrifício. Vou atrás, sem freio, do que eu quero. Imagina: uma mulher negra, pobre, com pouca escolaridade... Olha onde eu cheguei. Eu venci na vida". 

Dados do empreendedorismo negro

Silvana chegou bem mais longe do que a maioria dos empreendedores negros no Brasil. Hoje, eles já somam mais de 15,8 milhões de donos de negócios no país. No Espírito Santo, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) revelam que, dos cerca de 604.500 empreendedores, 55,69% são pessoas pretas ou pardas — o que representa mais de 336.600 pessoas.

O estudo Empreendedorismo Negro no Brasil 2025, do Sebrae, mostra que houve um crescimento de 17% no número de pretos e pardos donos de estabelecimentos nos últimos 10 anos. Em comparação, o volume de empreendedores brancos, que totaliza cerca de 14 milhões, cresceu 12,9% no mesmo período.


O rendimento médio habitual dos donos de negócio negros cresceu 23%, mas a desigualdade persiste: os brancos ganham cerca de 79,6% a mais que os pretos e também apresentaram crescimento mais intenso no período. O rendimento real médio habitual de empreendedores negros é de R$ 2.601,00, enquanto o de pessoas brancas chega a R$ 4.672,00.

A concentração no setor de serviços, aliada à baixa formalização e à falta de cobertura previdenciária, revela desafios estruturais do empreendedorismo negro: 42,4% desses empreendedores atuam em serviços, apenas 25,1% possuem CNPJ e somente 30,5% contribuem para a Previdência Social.


Apesar de estudarem mais, elas ainda ganham menos. Homens negros têm rendimento médio habitual de R$ 2.868, enquanto o de mulheres negras é de R$ 2.090. A renda de mulheres negras donas de negócios é 27% menor do que a de homens negros, 46% inferior à de mulheres brancas e 59% menor do que a de homens brancos.

A estudiosa de empreendedorismo periférico e liderança feminina, Gabriela Duque, destaca que mulheres negras vivem uma intersecção de desigualdades: raça, gênero e, muitas vezes, território. 'Ao mesmo tempo, são elas que sustentam uma parte enorme da economia real do país. Muitas mulheres negras empreendem por necessidade para sustentar suas famílias, vendendo roupas, fazendo tranças, produzindo cosméticos e comida, ou oferecendo serviços', afirma.

Mulheres negras representam uma das maiores parcelas do empreendedorismo feminino no Brasil, muitas vezes atuando por necessidade para garantir o sustento familiar. "Ainda assim, boa parte não se reconhece como empreendedora, pois o imaginário desse setor ainda está muito associado a grandes empresas ou startups. Além disso, elas enfrentam jornadas múltiplas, baixa autoestima e pouca rede de apoio, o que as faz ver o negócio apenas como sobrevivência quando, na verdade, estão movimentando a economia todos os dias", destaca Gabriela.

Estampas afro

Dados da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), a principal pesquisa sobre empreendedorismo no mundo, mostram que fazer a diferença e ganhar a vida diante da escassez de empregos são as principais motivações que levam o empreendedor negro a iniciar um negócio no Brasil.


Foi o desejo por autonomia financeira que levou Roseane da Conceição de Oliveira, de 35 anos, a buscar o próprio negócio. Criada em Caratoíra, em Vitória, ela trabalhou como professora de reforço escolar e manicure, até decidir cursar modelagem de vestuário. Nascia ali sua vocação para o empreendedorismo. 

"Comecei a trabalhar em casa e minha avó espalhou na vizinhança que eu era estilista. Ela, que também era costureira, começou a me indicar suas clientes. Trabalhei para outra marca até que, em 2022, lancei a Azaluz", conta. 

Rose decidiu apostar na moda afro contemporânea ao notar a ausência de marcas que representassem essa identidade. "Sempre gostei de peças em alfaiataria, mas eram caras para o meu orçamento. Crio peças com estampas afro e cortes diferenciados. Os coletes são as peças-curinga", destaca.

Roseane da Conceição de Oliveira, ela criou a marca de roupa Azaluz
Rose decidiu apostar na moda afro contemporânea e criou a Azaluz Crédito: Ricardo Medeiros
As primeiras clientes foram as parentes. Depois vieram os amigos. Hoje, as vendas acontecem em feiras, eventos, em sua residência e pelas redes sociais. Rose conta que o principal desafio é o racismo. "Além da questão da raça, também existe a social. Enquanto empreendedora preta e periférica, o principal desafio é a falta de recursos", afirma.


Rose conta que já pesquisou sobre linhas de crédito — recurso financeiro disponibilizado por bancos para investimento em crescimento, fluxo de caixa ou aquisição de bens. "Mas ainda não tive coragem. Fico com medo de pegar o empréstimo e não dar conta de pagar", confessa.


Com uma produção de cerca de 30 peças mensais, a marca tornou-se sua principal fonte de renda. Rose acredita no sucesso da Azaluz e enxerga um futuro próspero. "O meu desejo é que meu trabalho me dê estabilidade financeira e que, com ela, eu consiga realizar outros sonhos e ter uma vida mais confortável". 

Desistir não é opção

A especialista em diversidade, equidade e inclusão, Josy Santos, explica que o empreendedorismo negro é o conjunto de iniciativas lideradas por pessoas pretas ou pardas que, além de gerar renda, atua como instrumento de autonomia, reparação histórica e fortalecimento cultural.


"No Brasil, esse movimento tem grande relevância. Segundo o Sebrae, mais de 50% dos empreendedores brasileiros são negros, considerando pretos e pardos. No entanto, a maioria desses negócios nasce por necessidade e em condições mais vulneráveis de acesso a capital, redes e oportunidades", diz a diretora executiva do Instituto Cória.
Frase Josy santos


Josy explica que criar oportunidades para empreendedores negros é fundamental para reduzir desigualdades históricas e ampliar a diversidade econômica. Segundo o IBGE, embora representem 56% da população, pessoas negras ainda concentram os menores rendimentos do país. Dados da Pnad e do Sebrae reforçam esse cenário, mostrando que empreendedores negros faturam menos que os brancos e estão mais vulneráveis à informalidade.


"Quando ampliamos o acesso a crédito, capacitação e mercado, estamos fortalecendo cadeias produtivas locais, gerando renda e criando novos modelos de negócio. Além disso, muitos desses empreendedores criam soluções que atendem a demandas ignoradas por décadas pelo mercado tradicional", conclui a especialista.

Estudos mostram que o chamado mercado afro-brasileiro movimenta mais de R$ 1,7 trilhão por ano no país, segundo levantamento do Instituto Locomotiva e do Data Favela — uma potência econômica que reafirma o papel central da população negra no consumo nacional.


O empreendedorismo negro consolida-se como uma agenda estratégica para o futuro da economia brasileira. "Cada vez mais, vemos surgir uma nova geração de empreendedores na moda, beleza, tecnologia e economia criativa, criando marcas com identidade, inovação e propósito", destaca Josy Santos.


Foi o que fez o empreendedor Allan Sales, de 38 anos. Natural de Duque de Caxias e criado por mãe solo, ele cresceu observando o universo das bolsas: sua mãe trabalhava no setor de acabamento da Vitor Hugo, grife que era verdadeiro objeto de desejo nos anos 1990. "A gente vivia uma questão de escassez muito grande. Obviamente minha mãe conseguia comprar as coisas do dia a dia, mas não sobrava para muito mais", lembra.


O tempo passou e, aos 18 anos, ele chegou ao Espírito Santo. Iniciou o curso de Publicidade e Propaganda e conquistou um estágio no extinto Museu Vale, em Vila Velha. Ali, o horizonte se expandiu. "Comecei a me relacionar com artistas como Regina Chulam e Vik Muniz. Foi então que, de fato, minha cabeça se voltou para o universo artístico", conta.

O empreendedor Allan Sales tem uma marca de roupa
Allan Sales teve uma marca de bolsas e agora criou uma marca de roupa Crédito: Ricardo Medeiros

Em 2015, ele se reconectou com o universo materno e despertou sua faceta empreendedora. Começou dando dicas de estilo até fundar a Black Boo, marca de bolsas com pegada urbana. "Só que eu não sabia costurar", lembra, rindo. Com pouco mais de R$ 200, ele comprava ecobags e estampas, pagando uma empresa para realizar a sublimação (técnica de transferência de imagem para o tecido).


"Comecei a fazer bolsas personalizadas, mas faltava um corte diferente. Como não tinha dinheiro, ou eu aprendia a costurar ou a marca não sobrevivia. Uma amiga me doou uma máquina e aprendi sozinho. Costurava dia e noite. Minha ideia sempre foi criar um acessório com uma estética que pudesse transitar por diferentes gerações", conta.


A marca já era conhecida, as bolsas faziam sucesso e Allan criava cada vez mais. Até que o ciclo foi interrompido. "Surgiu a oportunidade de uma parceria com investidores, um universo que eu não conhecia. No segundo ano, a cobrança pelo resultado financeiro tornou-se esmagadora e o negócio não resistiu. A marca fechou". Ele avalia que faltou paciência para consolidar uma identidade tão singular. "Fiquei sem paz para trabalhar. Tive que pausar a Black Boo". 


Allan está recomeçando com uma nova proposta, desta vez no vestuário. 'Por enquanto, não vou produzir as roupas do zero; vou comprar os itens e aplicar meu trabalho de personalização. Haverá minha autoria na curadoria, mas pretendo, em breve, assumir todo o desenvolvimento. Vou mesclar o streetwear com a alfaiataria".


O novo portfólio terá calças, camisas e cintos, vendidos por e-commerce e em seu ateliê. O empreendedor deseja transformar vidas por meio de sua arte. "Tenho o sonho de criar um instituto criativo onde eu consiga mostrar um novo prisma para a juventude", planeja.

Afroempreendedorismo

Os termos empreendedorismo negro e afroempreendedorismo são conceitos próximos e, frequentemente, usados como sinônimos. Ambos referem-se ao protagonismo de pessoas pretas e pardas na liderança de negócios, unindo geração de renda e identidade.


No entanto, o termo afroempreendedorismo costuma enfatizar também a valorização da identidade, da cultura e da estética afro-brasileira nos negócios. Isso aparece com força em setores da economia criativa - como moda, beleza, gastronomia e artes -, nos quais produtos e serviços dialogam diretamente com a representatividade.


Essa explosão de cores e de protagonismo pode ser vista nos tecidos que colorem as ruas da Grande Vitória. "Meu turbante é a minha coroa. Usar o acessório é um gesto de identidade e cuidado", define Márcia Bispo. Ao perceber o valor simbólico da peça, ela transformou a importância do acessório em uma oportunidade de negócio.


Começou, em 2025, vendendo turbantes pelas redes sociais e logo passou a expor em feiras de moda. "Emprestei peças para cantoras, ensinei outras mulheres a usarem o acessório e entrei de vez no mercado. Quando fui para a rua, o negócio começou a crescer", lembra.

Márcia Bispo trabalha com turbantes
O acessório é o protagonista na vida de Márcia Bispo. "Meu turbante é a minha coroa" Crédito: Fernando Madeira

O ofício de amarrar os turbantes foi herança da mãe. A veia comercial, porém, veio da Bahia. "Com as minhas tias, que trabalham com o acessório no Pelourinho, em Salvador, aprendi o empreendedorismo. Vi que era possível ganhar dinheiro e ter sucesso com a nossa cultura", revela.


A marca Afrobispo nasceu com um investimento inicial de R$ 5 mil. "É a minha expressão e o meu jeito de transformar ancestralidade em estilo. Sou turbanteira: compro os tecidos e crio as amarrações de acordo com o formato de rosto de cada cliente", explica.


Aos finais de semana, ela monta sua barraca em feiras de Guarapari, Vila Velha e Vitória. "No Centro da Capital, vendo muito bem. Hoje, tenho capacidade para comprar mais tecidos e pagar alguém para me ajudar em grandes eventos", conta Márcia, que acaba de lançar uma linha de chapéus inspirada em entidades de matriz africana.


Seu público é composto, majoritariamente, por mulheres que enxergam no acessório um poder de afirmação. "Atraio pessoas com a negritude afirmada. Elas sabem que não vestem apenas um acessório, usam a ancestralidade", diz Márcia, que planeja financiar um veículo maior, já que o atual tornou-se pequeno para tantas demandas.

Acessórios que são o poder

Formas marcantes e design contemporâneo definem a Arame Sem Farpa. A marca apresenta acessórios que extrapolam as fronteiras do Espírito Santo, levando a estética e a cultura afro para todo o país.

Nascida no Bairro da Penha, no Território do Bem, em Vitória, a empreendedora e multiartista Iaiá Rocha, de 30 anos, comanda a Arame Sem Farpa. A marca de joalheria artesanal nasceu de um olhar apurado na fotografia e hoje transforma o metal em acessórios que carregam história.

Iaiá Rocha faz acessórios com arames
Iaiá Rocha criou a marca de joalheria artesanal através de um olhar apurado Crédito: Carlos Alberto Silva
A marca surgiu em 2022, ainda sob o impacto da pandemia de Covid-19. "Estava sem trabalhar, então comprei arames e comecei a criar algumas peças. Em poucos meses, ela tornou-se conhecida. Passei a divulgar minhas criações e as pessoas se interessaram. Aos poucos, fui aprimorando os materiais e hoje a Arame Sem Farpa tem uma identidade muito forte", diz a capixaba.

Iaiá conta que o investimento inicial foi baixo e o crescimento, orgânico. "O negócio foi se pagando. Como eu tinha um emprego fixo, todo o valor que entrava na Arame Sem Farpa era reinvestido. Isso gerou um lucro saudável e, com o tempo, o projeto passou a se autossustentar", recorda.

A proposta da artista é desenvolver peças inspiradas no Afrofuturismo e na joalheria contemporânea. O portfólio inclui brincos, pulseiras, anéis, gargantilhas, braceletes e paramentas de orixás. "Os acessórios afro são expressões potentes de identidade, resistência e ancestralidade. Eles carregam significados que extrapolam a estética", define Iaiá.

As vendas acontecem online, mas as principais vitrines são as feiras e os festivais de música. Em 2026, Iaiá expôs em uma loja colaborativa no Lollapalooza Brasil, através da Feira Preta - o maior festival de afroempreendedorismo e economia criativa da América Latina. "Foi uma experiência incrível, com milhares de pessoas conhecendo o meu trabalho", celebra.

Iaiá, que é multiartista, conta que um dos principais desafios foi conciliar múltiplos trabalhos para manter as contas em dia. "Criei um caminho baseado em educação empreendedora, uma inteligência financeira sólida e na capacidade de fazer reserva. O que mais aprendi como mulher negra e periférica é a importância de criar redes e conexões para diminuir os obstáculos. Sozinha, a gente chega muito mais devagar", reflete a empreendedora, que hoje colhe os frutos: tem realizado sonhos, conquistado prêmios e vive exclusivamente de sua arte. "A Arame Sem Farpa está ganhando espaço e visibilidade. E eu quero muito mais". 

Força econômica

Gabriela Duque, especialista em Comunicação de Impacto, Empreendedorismo Periférico e ESG, explica que, historicamente, pessoas negras tiveram menos acesso à terra, ao crédito, à educação financeira e às redes de poder. "Mesmo assim, sempre empreenderam - seja nas feiras ou nos setores de beleza, moda, gastronomia e serviços", pontua.


 "O empreendedorismo negro nasce dessa capacidade de transformar poucos recursos em solução, de buscar a sobrevivência e de monetizar a resolução de problemas do cotidiano. É criatividade, inovação e inteligência de território", define Gabriela.


Ela explica que o afroempreendedorismo também está intrinsecamente ligado à valorização da cultura negra e à circulação de riqueza dentro da própria comunidade. É o que se convencionou chamar de "Black Money": uma estratégia de fortalecimento econômico baseada no consumo consciente e no apoio mútuo entre pessoas negras.


Gabriela reforça que, quando o afroempreendedor tem acesso a capital, formação e mercado, o impacto vai muito além do indivíduo. "Eles geram empregos em territórios periféricos, fortalecem economias locais e criam novas referências de sucesso. É a construção de um futuro mais inclusivo para as próximas gerações. A economia criativa, especialmente nas áreas de moda e beleza, é o maior exemplo dessa transformação", conclui.

Frase de Gabriela Duque


O empreendedorismo negro é uma engrenagem vital, representando aproximadamente 20% do PIB nacional. "Apesar dessa relevância, estudos do Sebrae mostram que o empreendedor negro, em média, inicia seu negócio com um investimento menor do que o branco e enfrenta mais barreiras no acesso ao crédito", alerta a especialista.


Na prática, isso significa que muitas ideias promissoras crescem em ritmo lento ou acabam ficando pelo caminho. "O dinheiro circula pelas mãos dessas pessoas e movimenta a economia, mas, muitas vezes, não permanece para gerar capital, riqueza e crescimento sustentável", observa Gabriela Duque.

Dificuldade de acesso ao crédito

Dados do GEM 2024 (Global Entrepreneurship Monitor) revelam que 76,7% dos empreendedores negros em estágio inicial abriram seus negócios com o objetivo de "fazer a diferença no mundo". O índice é quase 8% superior ao registrado entre empreendedores brancos, evidenciando que o propósito social é um motor central para esse público.

Contudo, o caminho é marcado por obstáculos: a dificuldade de acesso ao crédito é a principal barreira para alavancar esses negócios. No Brasil, apenas 26% dos empreendedores negros conseguem financiamento, um reflexo direto do racismo estrutural. Esse cenário é agravado pelo menor faturamento médio e pela infraestrutura precária, resultando em um empreendedorismo que, em sua maioria, nasce da necessidade e sobrevive com baixo capital de giro.

Fau Ferreira, fundadora do Afroempreendendo, comanda um ecossistema voltado ao suporte de pessoas negras que buscam conhecimento para desenvolver seus negócios. Ela explica que a busca por autonomia é o grande motor: diante da escassez de oportunidades no mercado formal ou do desgaste causado pelo racismo, muitos encontram no empreendedorismo a alternativa para gerir o próprio tempo, força e energia.

"Empreender também é uma herança ancestral. Mesmo enquanto escravizadas muitas mulheres negras começaram a vender diversos produtos nas ruas e com isso conseguiam comprar a própria alforria e a de seus familiares, iniciando ali a construção de riqueza e liberdade", diz a gestora nacional de Afroempreendedorismo do Sebrae. 

A gestora reforça, ainda, a urgência de políticas públicas direcionadas. "Se investirmos nos empreendedores negros conseguiremos fazer uma mudança significativa na economia do Brasil. Estamos desenvolvendo soluções que respeitem as peculiaridades desse público: desde a moradia distante dos grandes centros - que impõe um longo tempo de deslocamento - até a barreira do crédito e a necessidade de uma linguagem que se conecte com a sua realidade".

Um estudo do Sebrae, baseado na PNAD Contínua, detalha os abismos que o afroempreendedorismo ainda enfrenta, como a dificuldade de acesso a crédito, onde apenas 26% desse público consegue empréstimos nas instituições bancárias; a falta de rede de apoio, principalmente as mulheres e, a falta de acesso a novos mercados o que culmina num baixo faturamento – mulheres negras faturam menos 48% a menos do que mulheres brancas e 61% a menos que homens brancos.


Fau Ferreira explica que a dificuldade ao crédito se deve a dois fatores básicos: a falta de garantias e de documentações específicas exigidas pelos bancos. "Embora seja difícil de comprovar oficialmente, sabe-se que o CEP de residência é um critério silencioso de avaliação que prejudica esse público, visto que 80% dos empreendedores negros moram em periferias ou comunidades", alerta.

Frase de Fau ferreira


A especialista observa que o empreendedor negro costuma iniciar o negócio com os recursos que tem em mãos, focando na entrega imediata de um produto ou serviço. "Com o andamento do negócio é necessário parar e construir um planejamento estratégico analisando o negócio e construir ações para alcançar os objetivos. Também é preciso construir uma boa relação com os clientes".

Vencendo o racismo

O negócio de Heberth Portilla, de 30 anos, começou pequeno, mas hoje ostenta um portfólio de estrelas. Suas peças ganharam o Brasil em figurinos assinados para artistas como Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza, Pabllo Vittar, Marina Sena, Liniker e Luedji Luna. “Tudo começou quando vesti a Lia Clark, que me abriu portas para muitas coisas. Passei a assinar vários figurinos”. Recentemente, expandiu fronteiras ao colaborar com a estrela colombiana Karol G em um projeto para a NFL, onde foi responsável pelo visual de mais de 80 bailarinos e músicos. "Foi uma experiência extremamente enriquecedora e desafiadora, que marcou minha trajetória".


A moda sempre foi o norte de Heberth Portilla, 30 anos. Natural da Bahia e filho de um enfermeiro e de uma feirante, ele cresceu fascinado pelos desfiles que via na televisão. O sonho das telas tornou-se realidade aos 18 anos, quando se mudou para Vitória. “Antes da moda, fui estagiário de telemarketing no Banco do Brasil”, recorda. Após cursar a faculdade, Heberth mergulhou em uma criação que classifica como agênero e fora dos padrões, fundando a marca autoral que leva o seu nome.


“É uma marca que transborda a vontade de se comunicar, porque cada peça carrega identidade e intenção. É uma proposta autêntica, que foge do clichê e busca se destacar pela originalidade e pela forma como se conecta com as pessoas”, descreve. O estilista trabalha com malharia, especialmente a lycra, pela versatilidade, conforto e alto potencial de modelagem. "Não atuo diretamente na costura, pois meu foco está no processo criativo. Gosto de idealizar os looks, desenhar, pesquisar materiais e desenvolver os conceitos das coleções", explica.

Heberth Portilla tem uma marca de roupa
Heberth Portilla criou uma marca autoral de roupas Crédito: Vagner Resende

Heberth começou o negócio com pouco dinheiro. "Não recordo o valor exato, pois tudo foi construído aos poucos e sob muitas dificuldades. Mas lembro que, para desenvolver minha primeira coleção, eu tinha cerca de R$ 300,00. Foi um desafio imenso", revela. Apesar do orçamento restrito, ele nunca recorreu a financiamentos ou crédito externo. "Sempre administrei a marca sozinho. Isso trouxe obstáculos, mas me ensinou a ser resiliente e a valorizar cada conquista ao longo do caminho", afirma o estilista.


Apesar do sucesso global, Heberth conhece de perto as barreiras de ser um estilista preto em um mercado dominado por brancos. “A indústria da moda ainda é extremamente desigual e racista; muitas vezes, o que prevalece não é o talento, mas o acesso. Para nós, empreender exige o dobro de esforço e resiliência. É uma realidade que, por vezes, beira o desânimo”, desabafa. Ainda assim, ele persiste com um propósito maior: inspirar outros a acreditarem na própria criatividade e provar que é possível construir algo autêntico e relevante, mesmo começando do zero e sem recursos.

A importância da capacitação

Lisandra Carneiro, gestora de afroempreendedorismo no Sebrae/ES, reforça que criar oportunidades específicas para esse público é uma questão de justiça econômica. "O empreendedor negro já possui uma presença expressiva no mercado brasileiro, mas ainda enfrenta desigualdades estruturais profundas, especialmente em renda, formalização e acesso a novas oportunidades", destaca.


Ela pontua que os principais desafios estão ligados à baixa formalização, menor renda, menor proteção previdenciária, mais dificuldade de acesso a crédito e menor acesso a redes e oportunidades. "Nacionalmente, entre os donos de negócio negros, apenas 24,7% possuem CNPJ e 29,1% contribuem para a previdência, além de apresentarem rendimento médio inferior ao dos empreendedores brancos".

Os dados confirmam que empreender, para a população negra, é um caminho de obstáculos acentuados pelas desigualdades estruturais. Isso reflete em menor renda, baixa formalização e acesso restrito a instrumentos de crescimento. No caso das mulheres negras, o abismo é ainda mais profundo: no 4º trimestre de 2025, a renda média habitual dessas empreendedoras foi de R$ 2.090, enquanto mulheres brancas receberam R$ 3.874 e homens brancos atingiram R$ 5.144.

Lisandra Carneiro aponta que a escassez de capital é uma das barreiras mais rígidas para o empreendedorismo negro.
Frase Lisandra Carneiro


Lisandra reforça que esse cenário cria um efeito dominó que dificulta drasticamente o acesso ao crédito, atração de investimentos e, consequentemente, a expansão do negócio. 


Nesse cenário, torna-se vital impulsionar o afroempreendedorismo por meio de capacitação, consultorias e apoio à formalização. No Espírito Santo, essa estratégia ganha força com o Programa Plural, iniciativa do Sebrae/ES focada na inclusão produtiva e na equidade. O programa é voltado ao fortalecimento de públicos historicamente sub-representados, como a população negra, mulheres, pessoas LGBTQIA+, empreendedores 60+ e aqueles em contextos de maior vulnerabilidade social.


"Também se conecta a iniciativas como o Sebrae Delas e a novas trilhas específicas, a exemplo do projeto Negócio de Preta, desenhado especificamente para o fortalecimento de afroempreendedorasNo Espírito Santo, a capilaridade desse apoio é evidente: os dados mostram que uma em cada quatro empresas lideradas por mulheres recebeu suporte do Sebrae em 2025", explica Lisandra.


A gestora ressalta que o fortalecimento institucional é o diferencial para que ideias se transformem em negócios sustentáveis. "O apoio das instituições reduz as distâncias de acesso à informação, ao mercado e à orientação estratégica. Os dados mostram que muitos empreendimentos negros ainda operam em estruturas frágeis; por isso, ter um ambiente que acolha e crie oportunidades concretas é decisivo para transformar potencial represado em crescimento real", defende Lisandra.


No Espírito Santo, esse papel é ainda mais importante quando se considera que as empreendedoras negras já representam uma parcela muito relevante do empreendedorismo feminino no estado.

Ela deu a volta por cima

Outro exemplo de força no mercado capixaba é Jaqueline Serafim dos Santos. Para ela, a trajetória no empreendedorismo exigiu mais do que talento: foi necessária uma dose extra de persistência para que o negócio rompesse as barreiras iniciais e prosperasse.


Criada no Bairro da Penha, em Vitória, Jaqueline cresceu acompanhando o ofício de uma tia, que atuava como cabeleireira em casa. "Aos 14 anos, comecei a ser ajudante dela na aplicação de tranças. Foram três anos de aprendizado inicial", recorda.


Antes de se consolidar, Jaqueline buscou diversas frentes: vendeu bolsas e acessórios e trabalhou como diarista. Em um momento de vulnerabilidade, acabou envolvida com o tráfico de drogas, o que a levou a ficar presa por três anos e quatro meses. "Foi um período duro, mas de profundo amadurecimento. Sofri perdas irreparáveis; vi meu único filho entrar em depressão pela minha ausência e precisei enterrar minha mãe algemada", relembra.

Jaqueline Serafim dos Santos, ela trabalha com tranças há 28 anos.
Jaqueline Serafim trabalha com tranças há duas décadas Crédito: Ricardo Medeiros

Ao conquistar a liberdade, Jaqueline decidiu que era hora de reconstruir sua história. Começou vendendo quentinhas e bolos, mas foi no ramo da beleza que reencontrou seu propósito. Com um empréstimo de R$ 10 mil feito por uma amiga, fundou o Black Girls Ateliê. Sem recursos para um ponto comercial, a estratégia foi a inteligência doméstica: "Investi tudo em materiais e poltronas. O negócio nasceu na sala de casa", recorda.


Atualmente, o salão ocupa um ponto comercial na Ilha de Monte Belo, em Vitória, onde Jaqueline atende uma média de quatro clientes por dia. No catálogo, as tranças são o carro-chefe: da nagô às box braids, passando pelo entrelace e as modernas knotless braids com cachos. Mais do que um salão, o espaço tornou-se um refúgio de valorização da estética afro, ajudando mulheres a resgatarem a autoestima e a assumirem seus cabelos.


Ao longo dos anos, Jaqueline investiu em capacitação, fez cursos de empreendedorismo e aprendeu a administrar o próprio negócio. "Meu grande sonho agora é adquirir um imóvel comercial e conquistar a independência do aluguel", projeta ela, que hoje compartilha sua trajetória com orgulho. "Fui persistente, não desisti".

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