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Como falar sobre pobreza e desigualdade com as crianças

A vencedora do Nobel de Economia Esther Duflo e o cantor brasileiro Emicida lançam dois livros infanto-juvenis que ajudam a abordar esses temas. 'As crianças são capazes de entender e lidar com qualquer assunto', diz Duflo.

Publicado em 20 de Julho de 2026 às 18:35

BBC News Brasil

Publicado em 

20 jul 2026 às 18:35
Imagem BBC Brasil
Duas obras infanto-juvenis recém-lançadas pela Companhia das Letrinhas trazem a pobreza e a desigualdade social como temas centrais Crédito: Companhia das Letrinhas
"Uma caminhada de mil léguas começa com um primeiro passo. Em outras palavras: comece."
E, assim, Emicida começa. A introdução de dois livros infanto-juvenis assinada pelo cantor paulistano é o primeiro passo para uma pergunta complexa: como falar sobre pobreza e desigualdade com as crianças?
A resposta foi elaborada em conjunto com a economista Esther Duflo. A franco-americana é professora de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), foi a segunda mulher na história a ganhar o Nobel de Economia, e também a mais jovem, aos 46 anos de idade, em 2019.
Juntos, eles escreveram Volta por cima e Conta Comigo, obras recém-publicadas pela Companhia das Letrinhas. As publicações abordam temas relacionados à pobreza global e convidam as crianças a refletirem sobre soluções coletivas para enfrentar esse desafio.
Para isso, as obras narram as trajetórias de Imeuni, Tsongai e Bibir, personagens que vivem em lugares fictícios, mas que poderiam estar na África, Ásia ou América do Sul. Por meio deles, as histórias levam a reflexões sobre situações envolvendo pobreza e as soluções para reduzi-la.
Volta por cima narra a trajetória de uma jovem que deseja encontrar um trabalho, mas não sabe por onde começar. Ao longo da história, aparecem temas como empreendedorismo, economia local, inovação e até microcrédito.
"Esse livro trata da dificuldade (mas também da possibilidade) de encontrar o próprio caminho", explica Duflo à BBC News Brasil.
"A personagem quer muito trabalhar, mas tem poucas oportunidades. Ela tenta, fracassa e tenta novamente até encontrar seu caminho. É uma jovem forte, que pode servir de exemplo tanto para meninos quanto para meninas."
Já em Conta comigo, valores como solidariedade, comunidade e empreendedorismo surgem na história, que também trata de problemas como violência doméstica, etarismo (discriminação devido à idade) e preconceito.
Com essas histórias, a mensagem que a economista quer passar é a de que "crianças pobres não são perigosas, pais pobres não são preguiçosos e pessoas pobres têm vidas ricas, cheias de amizades e significados", como quaisquer outras pessoas.
"E também que a pobreza causa muitos problemas, mas nós, seres humanos, também podemos encontrar as soluções. É por isso que cada um desses livros gira em torno de um problema e de uma solução — uma solução que, na minha profissão como economista, vi que realmente funciona."
As ilustrações são cheias de cores e foram feitas por Cheyenne Olivier, ilustradora francesa especializada em livros infantis.
Ela se inspirou no universo visual dos gráficos de economia, para despertar a curiosidade das crianças pelas histórias, que contam com uma ajuda especial para guiá-las.
Imagem BBC Brasil
As duas obras são ilustradas por Cheyenne Olivier, ilustradora francesa especializada em livros infantis Crédito: Companhia das Letrinhas
Emicida faz o papel de condutor da leitura ao longo das páginas com comentários que convidam à reflexão. Ele aparece colocando as histórias em perspectiva e encontrando conexões com a própria vida, algo que um adulto leitor também pode fazer.
Sua experiência em publicações infantis, com Amoras (2018) e E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas (2020), ambos também pela Companhia das Letrinhas, trazem certa familiaridade do cantor com o tema.
Duflo explica que, embora não conhecesse Emicida pessoalmente antes da produção das obras, ela já sabia quem ele era. "Minha ilustradora, Cheyenne, cresceu ouvindo as músicas dele, ela era muito fã."

'Nem todas as pessoas pobres sonham em ser Bill Gates'

Duflo venceu o Nobel, juntamente com os economistas Abhijit Banerjee (seu marido) e Michael Kremer, por introduzirem "uma nova abordagem para obter respostas confiáveis sobre as melhores maneiras de combater a pobreza global", segundo o site do Prêmio Nobel.
Na prática, eles levavam para pequenas comunidades a aplicação de um projeto de política pública para melhorar, por exemplo, resultados educacionais ou a saúde infantil.
Se os resultados fossem positivos, implementavam de uma forma mais ampla. Se negativo, tentavam de novo. Essa metodologia, aplicada em países como Índia e Quênia, fez com que Duflo derrubasse alguns "mitos" sobre os mais pobres.
"A primeira coisa que notei quando desembarquei na Índia é que as pessoas mais pobres vivem vidas muito mais normais do que eu esperava", disse ela em entrevista à BBC News Brasil em julho de 2024, sobre o início da carreira há mais de 30 anos.
Em seus experimentos, Duflo mostrou que conceder um empréstimo para que pessoas muito pobres possam iniciar um novo negócio não leva, necessariamente, a uma melhora drástica em seu bem-estar.
Imagem BBC Brasil
Os temas podem parecer complexos para crianças — as obras são indicadas para leitores a partir dos 9 anos — mas Duflo garante que elas são capazes de compreender Crédito: Companhia das Letrinhas
"É claro que não estamos dizendo que não existem empreendedores genuínos entre os pobres — conhecemos muitas pessoas assim. Mas também há muitos deles que dirigem um negócio condenado a permanecer pequeno e não lucrativo", escreve em seu livro A Economia dos Pobres (Editora Zahar, 2021).
Sua constatação é replicada nos livros infanto-juvenis de agora. "Nem todas as pessoas pobres sonham em ser Bill Gates", escreve ela, ao final de Volta por cima, em uma seção intitulada "O que Esther Duflo tem a dizer sobre a pobreza".
Nesta seção, ela traz direcionamentos para que os adultos possam orientar a leitura das crianças e responder às suas dúvidas de acordo com a temática de cada um dos livros.
"Para ajudar os jovens a se encontrar profissionalmente e sair da pobreza, é preciso se desfazer da ilusão de que ter sua própria empresa é necessariamente o melhor caminho. Isso pode até ser verdade para alguns, mas, para muitos, a melhor solução seria ter um emprego de acordo com suas aspirações", escreve ela.
Os temas podem parecer complexos para crianças — as obras são indicadas para leitores a partir dos 9 anos —, mas Duflo garante que elas são capazes de compreender.
"As crianças são capazes de entender e lidar com qualquer assunto, e existem muitos estereótipos sobre a pobreza por aí", afirma. Para ela, as obras são como sementes que podem ajudar a moldar adultos melhores para o futuro.
"A esperança é que elas cresçam e se tornem adultos mais empáticos e otimistas, que contribuam para melhorar o mundo."

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