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Investigação

Itália prende médico suspeito de matar pacientes com Covid para liberar leitos

Carlo Angelo Mosca chefiava o pronto-socorro em Bréscia. Ele é investigado por ter aplicado um anestésico considerado mortal em pacientes com Covid-19. O médico nega as acusações

Publicado em 30 de Janeiro de 2021 às 10:13

Agência FolhaPress

Publicado em 

30 jan 2021 às 10:13
Hospital Montichiari, na Itália
Hospital Montichiari, na Itália, onde Carlo Angelo atuava como chefe do pronto-socorro Crédito: Reprodução/Google Maps
A Itália vivia o auge da primeira onda da pandemia do coronavírus quando, em março, enfermeiros do hospital de Montichiari, na província de Bréscia, no norte do país, notaram que o médico responsável pelo pronto-socorro adotava uma prática totalmente fora dos protocolos: a aplicação de doses mortais de remédios inapropriados em pacientes internados com sintomas graves da Covid-19.
O caso se tornou público na última segunda (25), depois que Carlo Angelo Mosca, 47, recebeu ordem de prisão preventiva domiciliar, suspeito de ter matado intencionalmente pacientes com o anestésico propofol e succinilcolina, um bloqueador neuromuscular. Essas substâncias potentes são indicadas para situações de intubação pela traqueia, procedimento a que as vítimas não foram submetidas.
Nesta sexta (29), Mosca foi interrogado por duas horas e meia no Tribunal de Bréscia. Ele negou as acusações e, segundo seus advogados, deu esclarecimentos. Pouco antes das 10h, o médico chegou andando sozinho e foi cercado por jornalistas e câmeras, a quem se limitou a dizer, em voz baixa: "Sou inocente".
No entanto, a juíza Angela Corvi, que aceitou o pedido do Ministério Público para a prisão domiciliar, justificou sua decisão dizendo reconhecer "graves indícios" de que Mosca cometeu homicídio doloso qualificado em ao menos dois pacientes.
A investigação, que começou em maio, levantou evidências de que as mortes de Natale Bassi, 61, e Angelo Paletti, 79, foram causadas pelas doses fatais aplicadas pelo médico entre 20 e 22 de março.
Naqueles dias, o norte da Itália vivia o auge da primeira onda da pandemia, com números crescentes de novos contaminados e recordes de mortes diárias -em 22 de março, foram registrados 651 óbitos causados pela Covid-19. A província de Bréscia era, então, a segunda mais atingida em todo o país, atrás somente da de Bérgamo, ambas na Lombardia.
Foi a época mais aguda da emergência sanitária na Itália, o primeiro país do Ocidente a identificar casos de contaminação interna e a decretar um rígido lockdown nacional obrigatório, como medida para diminuir a circulação do vírus. Atualmente, a Itália está entre os mais atingidos e soma 87 mil mortos, sexto lugar em números absolutos.
Além da falta de conhecimento sobre como se comportavam o vírus e a doença, a primeira onda foi marcada pela escassez de leitos, equipamentos, máscaras cirúrgicas e testes.
Segundo o próprio Mosca declarou em junho, em entrevista ao jornal Corriere della Sera, o hospital de Montichiari, cidade com pouco mais de 25 mil habitantes, chegou a ter 570 pacientes de Covid-19 internados na fase 1, o que exigiu a ocupação de um refeitório com 30 leitos.
No mesmo período, enfermeiros e operadores sanitários começaram a notar que o médico estava adotando um comportamento impróprio. Diante de casos graves que entravam no pronto-socorro, Mosca pedia que alguém buscasse um ou os dois medicamentos e os aplicava quando estava sozinho. No caso do paciente Bassi, ele pediu que a equipe saísse da sala de emergência.
"Poucos minutos depois, a funcionária voltou, percebendo a morte de Bassi, naquele momento desacompanhado de membros da equipe. O óbito foi declarado pela doutora [nome omitido], que indicou no prontuário 'repentina parada cardio-circulatória'", diz o documento assinado pela juíza, com base na investigação.
No caso de Paletti, funcionários encontraram e fotografaram embalagens vazias dos fármacos na manhã seguinte à morte do paciente, ocorrida durante o plantão do médico suspeito.
A investigação teve como ponto de partida a denúncia anônima de um dos enfermeiros, no fim de abril. Em princípio, foram alistadas quatro vítimas. Três corpos foram exumados -o quarto paciente foi cremado.
A análise toxicológica dos restos mortais de Paletti é uma das evidências mais contundentes, já que foi comprovada a presença do propofol em órgãos e tecidos, "em quantidade suficiente para causar o óbito".
O propofol é um anestésico usado para casos de sedação e que tem como um dos efeitos "uma depressão respiratória severa". Foi esse o medicamento encontrado no corpo do cantor Michael Jackson, morto em 2009. Já a succinilcolina é um relaxante neuromuscular aplicado em anestesia para facilitar a intubação traqueal. Segundo o parecer técnico, "seu efeito paralisante depende da dose".
A investigação conduzida pelo Ministério Público revela que houve consumo "anômalo" dos dois fármacos entre janeiro e abril do ano passado. Entre novembro de 2019 e abril de 2020, foram realizadas cinco operações de intubação traqueal no PS do Montichiari. No entanto, os pedidos de propofol e succinilcolina à farmácia central cresceram 100% e 70%, respectivamente, entre janeiro e abril.
Em nenhum dos prontuários clínicos dos pacientes a quem o médico teria administrado os remédios consta a comunicação dessas terapias, o que o torna suspeito de outro crime -falsidade ideológica cometida por funcionário público.
Em seu despacho, a juíza afirma que não é possível supor que Mosca tenha agido a pedido ou com o consenso dos dois pacientes. "Ele administrou as substâncias não por uma intolerável leviandade, imprudência ou efeito de uma indesculpável inexperiência, mas sim na plena consciência dos pressupostos de sua conduta e com intenção de matar."
Mais adiante, a magistrada diz ser "verossímil" que o investigado estivesse "determinado a matar movido pela vontade de 'liberar' não só leitos, mas também recursos instrumentais e energias humanas, físicas e emotivas dos colegas médicos, dos enfermeiros e dos outros operadores do pronto-socorro".
Na mesma entrevista de junho, em que comentava os piores momentos da primeira fase da pandemia, Mosca contou que assim que a circulação do vírus foi identificada na Itália, no fim do fevereiro, ele decidiu se instalar em uma espécie de pousada, para não correr o risco de contaminar a mulher e a filha, então com 7 anos.
Ficou assim até o início de maio, por mais de dois meses sem ver a família, que mora na cidade de Mântova. Sobre essa distância, afirmou: "Foi um erro, agora me dou conta".
Depois do interrogatório desta sexta, o Ministério Público deve fazer novas apurações de acordo com as respostas dadas pelo médico. Ele ainda não é considerado réu, porque a investigação ainda está em fase preliminar.
Assim que a prisão preventiva foi decretada, Mosca foi suspenso de suas funções. Em nota, a administração do hospital classificou as acusações como graves e disse que está colaborando com as autoridades. A Ordem dos Médicos da Província de Bréscia ressalta que "se trata de uma investigação, não de uma sentença'' e que, embora muito grave, é ainda uma "hipótese de crime".

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