A ofensiva, realizada menos de 24 horas depois de os dois países assinarem um acordo para viabilizar a passagem dos produtos agrícolas ucranianos, provocou indignação do governo em Kiev e de seus aliados.
Logo após o ataque, a Rússia, de acordo com a Turquia, que fez a mediação da assinatura do pacto junto à ONU, disse não ter nada a ver com a ação. Agora, Moscou admite ter sido responsável pelos danos, mas afirma ter mirado apenas instalações militares, não estruturas ligadas à exportação de grãos.
No Telegram, a porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, afirmou neste domingo que os mísseis Kalibr destruíram uma embarcação de guerra e depósitos de armas, em um "ataque de alta precisão".
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, classificou os ataques com mísseis à cidade portuária de "barbárie russa", colocando em risco o trato que, se mantido, pode aliviar a crise mundial de alimentos. Para o líder do país ora invadido, a ofensiva demonstra que não se pode confiar na capacidade de Moscou para cumprir promessas e que o diálogo com o Kremlin é cada vez mais insustentável.
No acordo negociado sob os olhos do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e do secretário-geral da ONU, António Guterres, Odessa é um dos três portos liberados para escoar as exportações da Ucrânia.
Autoridades do país afirmaram que havia grãos no porto no momento do ataque, ainda que os depósitos, segundo o Exército ucraniano, não tenham sido afetados. De acordo com o governador regional de Odessa, o bombardeio deixou "vários feridos", sem informar números nem a gravidade dos ferimentos.
Guterres condenou "inequivocamente" o ataque. Chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell disse que a ofensiva mostra "o total desprezo da Rússia pelo direito e pelos compromissos internacionais". Na mesma toada, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, "a ação coloca sérias dúvidas sobre a credibilidade do compromisso da Rússia com o trato acertado".
O acordo selado na Turquia foi o primeiro grande trato acertado pelas duas partes em conflito desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro, e era aguardado com ansiedade porque pode ajudar a mitigar a crise alimentar no mundo, principalmente em países pobres. De acordo com a ONU, devido à guerra 47 milhões de pessoas foram adicionadas ao grupo das pessoas que passam fome.
Antes da assinatura, a Ucrânia advertiu que daria uma "resposta militar imediata" caso a Rússia violasse o pacto e atacasse suas embarcações ou portos. Zelenski diz que a ONU deve monitorar o cumprimento do trato, que inclui o trânsito de barcos por corredores seguros, para evitar minas instaladas no Mar Negro.
Até 20 milhões de toneladas de trigo e de outros grãos estão bloqueados na Ucrânia, sobretudo em Odessa, por navios de guerra da Rússia e pelas minas que Kiev colocou para evitar um ataque anfíbio. O líder ucraniano estima que o valor dos grãos retidos seja de cerca de US$ 10 milhões (R$ 54,9 milhões)
Além da ofensiva na cidade portuária ao sul, o pacto também não impediu outros bombardeios na linha de frente durante o final de semana, afirmou neste domingo a Presidência ucraniana. Quatro mísseis de cruzeiro teriam atingido no sábado zonas residenciais de Mikolaiv, ferindo cinco pessoas.