A cúpula municipal do PSB não está falando a mesma língua que a cúpula estadual do partido. Enquanto a direção municipal trata como cláusula pétrea o lançamento de um candidato próprio à Prefeitura de Vitória, caciques estaduais, inclusive Renato Casagrande, relativizam isso e preferem manter a porta aberta para a reedição da aliança com o Cidadania, partido do prefeito Luciano Rezende, já no 1º turno.
Esse desencontro se reflete, por exemplo, na maneira como os representantes de cada instância encaram aquilo que for resolvido na prévia do dia 17, na qual o vice-prefeito Sérgio Sá e o deputado estadual Sergio Majeski disputarão, no voto dos correligionários, a condição de pré-candidato do PSB a prefeito da Capital.
Para o presidente do PSB de Vitória, Juarez Vieira, o que for decidido na prévia deverá, necessariamente, ser mantido e reafirmado na convenção de julho. Esta, assim, para ele, só terá caráter homologatório. Nesse caso, a prévia de agora ganha muito mais peso, pois terá poder decisório. Na prática, será uma convenção antecipada do PSB de Vitória.
"Com certeza terá poder decisório. O TRE reconhece a prévia. A convenção homologará o que for decidido na prévia. Não tem jogo nisso. Estamos fazendo tudo da maneira mais clara possível."
Nesse caso, se a convenção só vai homologar o que for decidido na prévia – e se esta definirá o pré-candidato do partido –, é certo que o PSB terá candidato a prefeito em agosto. Tal é a visão de Juarez: “Queremos ter candidato próprio no primeiro turno. A eleição em Vitória será de dois turnos. Depois podemos nos juntar [com o Cidadania]. Temos liderança para pilotar um projeto de poder aqui em Vitória”, sustenta o dirigente municipal.
Mas, para caciques estaduais do PSB, não é bem assim.
Tanto o governador Renato Casagrande como o presidente estadual do PSB, Alberto Gavini, são enfáticos: a prévia do partido em Vitória não terá poder decisório. Será um ato político. Nesse caso, o que for extraído da prévia será uma sinalização, mas de modo algum uma decisão, muito menos uma decisão final. Na prévia, o partido decidirá apenas quem é seu pré-candidato, mas não quem será seu candidato, nem mesmo se terá um candidato. O que for resolvido no dia 17 poderá ser alterado até a convenção do partido – esta, sim, definitiva.
Afirma Casagrande: “A decisão é da convenção. É do congresso do partido, que acontece em julho. Essa é a decisão. Mas a prévia é um acordo tácito que você faz, que pode ser alterado ou não”.
"Teoricamente, o candidato, se conseguir se viabilizar efetivamente, será sacramentado, reafirmado na convenção de julho. É lógico que isso pode ser alterado? Pode, porque não tem nenhum ato legal. Isso é um ato político, é um acordo político."
As palavras do governador ecoam nas de Gavini. Segundo o presidente estadual, o resultado da prévia não impedirá o pré-candidato derrotado de seguir tentando se viabilizar. Em tese, nada impede inclusive que surjam outros pré-candidatos no partido após a prévia. Até a convenção, conta ele, o PSB seguirá trabalhando com pesquisas de intenção de voto.
“Tecnicamente falando, a prévia não impede a candidatura de nenhum dos dois [nem Majeski nem Sérgio Sá]. A prévia não fecha questão. O que fecha questão é a convenção, em julho. Não é uma coisa definitiva. A prévia tem um valor político. Mas vamos supor que, depois dali, alguém queira ser candidato… Pode aparecer até outro nome!”
CASAGRANDE REQUEBRA PARA NÃO MELINDRAR (AINDA MAIS) LUCIANO
A decisão do PSB de Vitória estremeceu ainda mais a relação do Cidadania (leia-se de Luciano) com o partido aliado, colocando o governador Renato Casagrande em uma situação política delicada e levando-o a requebrar até o chão na velocidade cinco para preservar a aliança político-eleitoral com o Cidadania (fundamental para seu governo).
Ao mesmo tempo em que considera “acertada” a decisão da direção municipal de realizar a prévia – até para não desautorizar os dirigentes do seu partido na Capital –, Casagrande tem o cuidado de não desprestigiar seu principal prefeito aliado.
Ao contrário, ao dizer que tem “o compromisso de fortalecer o movimento que o Luciano lidera em Vitória”, o que Casagrande indica, nas entrelinhas, é que sua prioridade pessoal não é lançar candidato próprio, mas levar o PSB a apoiar o candidato do prefeito, o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania). Tem a ver justamente com isso a preocupação do governador em deixar claro que o resultado da prévia do PSB de Vitória não será definitivo, conforme abordei acima.
Com isso, ao mesmo tempo em que “libera” seu partido para lançar candidatura própria, Casagrande mantém aberta a possibilidade de, na hora certa (julho/agosto), formalizar apoio ao candidato do Cidadania, como parece preferir.
“O PSB escolherá, se seguir com a prévia, uma pré-candidatura que poderá virar candidatura ou não. Vai depender do desempenho desse pré-candidato. Um pré-candidato pode ou não ser candidato. O PSB deve manter a conversa com o Cidadania”, afirma Casagrande.
"Como governador, tenho no Cidadania um aliado e vai continuar sendo aliado independentemente de o Cidadania ter candidato, de o PSB ter candidato. Minha tarefa é fortalecer o movimento que o Luciano lidera na Capital."
Discordâncias internas à parte, as respostas dos caciques do PSB reforçam uma pergunta inquietante: se a decisão do PSB na prévia não será definitiva, então por que, afinal, realizá-la agora? É um ponto que, muito em breve, merecerá nossa análise mais detida.