O que começou como uma tentativa de salvar a vida de uma criança terminou em 18 dias de prisão, dor e acusações. Em maio de 2025, José Wilson Guimarães Júnior e Paula Nazareth dos Santos Barbosa viveram um dos capítulos mais traumáticos de suas vidas ao serem presos suspeitos pela morte de Agatha Ester Santos Barbosa, de apenas um ano e seis meses, filha de Paula.
Em liberdade desde que foram inocentados no mesmo mês do fato, José Wilson e Paula aceitaram falar pela primeira vez. Em uma entrevista exclusiva para a reportagem de A Gazeta, no momento em que o caso completa um ano, o casal relembra os dias de prisão, o sofrimento causado pelas acusações e a dor de perder Agatha, além de relatar como os dois tentam reconstruir a vida após terem seus nomes ligados a um crime que não cometeram.
A menina foi levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Riviera da Barra, em Vila Velha, no dia 10 de maio, após passar mal em casa, mas não resistiu. Ainda em meio ao choque da perda, o padrasto passou a ser acusado de homicídio, enquanto a mãe foi apontada como omissa. No mesmo dia, ambos foram presos e permaneceram no sistema prisional até 28 de maio, quando o caso avançou para novos desdobramentos.
Durante esse período, o casal enfrentou não apenas a dor do luto, mas também o peso das acusações e da exposição pública. As investigações avançaram e, ao longo dos dias, laudos e diligências começaram a apontar que a menina não foi vítima de homicídio, levando ao reconhecimento da inocência dos dois e ao arquivamento do processo.
Em agosto do mesmo ano, a Polícia Civil convocou uma coletiva de imprensa onde explicou o caso e se retratou. A chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM), delegada Raffaella Aguiar, informou que os machucados na menina foram resultados de manobras feitas de forma incorreta e com força maior que a necessária feita pelo padrasto em um momento de desespero para salvar a menina, sem nenhuma intenção de matar a enteada.
Doença
Paula relata que Agatha era uma criança saudável e que os primeiros sinais de que algo não estava bem surgiram dias antes da morte, com episódios de vômito, febre e manchas pelo corpo. Segundo ela, a menina chegou a ser levada a uma unidade de saúde, recebeu medicação e voltou para casa, mas o quadro se agravou, o que levou a família a buscar novo atendimento em Vila Velha, onde exames foram realizados e o acompanhamento passou a ser diário.
"Ela tomava antibiótico, mas só que o antibiótico estava mascarando. Não estava tendo evolução. O estômago dela estava inchando muito. Tinha vez que ela se alimentava, vomitava. Ficou bem debilitada", disse a mãe.
Morte
José Wilson conta que, naquele 10 de maio, ficou em casa cuidando de Agatha enquanto Paula trabalhava. Segundo ele, a menina não apresentava melhora significativa, mas chegou a passar momentos de aparente estabilidade ao longo da manhã.
À tarde, no entanto, o quadro mudou rapidamente. José relata que, após o banho, a bebê apresentou uma reação súbita que o deixou em pânico. Com o auxílio de moradores, ele conseguiu levá-la até a UPA de Riviera da Barra, onde o homem afirma que a menina chegou viva e que os profissionais iniciaram os atendimentos imediatamente.
"O médico nos chamou na sala, falou que ela (Agatha) chegou muito fraquinha, desmaiou e reanimaram ela. Depois deu parada de novo e não voltou mais. Ou seja, se reanimaram ela, ainda estava viva", conta o homem.
Acusação
Paula relata que estava no trabalho quando recebeu a ligação do companheiro informando que Agatha havia passado mal e desmaiado. Desesperada, ela deixou o serviço e seguiu para a UPA. Ao chegar, veio a notícia da morte da filha.
Ainda abalada, Paula relata que, em vez de acolhimento, passou a perceber olhares e falas de desconfiança por parte da equipe médica, que teria levantado a hipótese de lesões e acionado a polícia. Ela afirma que não pôde ver o corpo da filha, que foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), e que, mesmo sem a causa da morte esclarecida, ela e José acabaram sendo acusados e presos.
“Eu não matei minha filha”, diz, ao lembrar que sequer conseguiu se despedir de Agatha no dia do enterro e que, desde então, tenta reconstruir a vida após o trauma.
Prisão
Paula passou o Dia das Mães na cadeia. Foram 18 dias no sistema prisional. Um período que o casal descreve como assustador e traumatizante. "É humilhante. Na minha audiência de custódia, tive que ouvir que era omissa, que deixei isso acontecer com minha filha", disse a mulher.
Por conta da prisão, as filhas de José Wilson tiveram que ir para um abrigo. "Foi algo muito difícil, porque cuido delas sozinha. Foi doído, além do trauma da morte da neném, de ser preso e depois saber que seus maiores bens foram parar em abrigo", desabafou José.
A Polícia Civil anexou ao pedido de arquivamento o laudo do médico legista, dados dos aparelhos eletrônicos, depoimentos dos então suspeitos, de familiares, vizinhos e outros filhos do casal. A solicitação para arquivar o caso também foi fundamentada em prontuários médicos, que mostraram que Agatha estava sendo cuidada pelos responsáveis e médicos da UPA devido a uma doença.
Para a Polícia Civil, as mensagens trocadas entre Paula e José horas antes de Agatha morrer são mais uma prova de preocupação com a menina. O casal passou o dia informando mutualmente sobre o estado de saúde dela. Segundo a delegada, a outra filha da mãe da bebê e os outros filhos do padrasto também foram escutados. As conversas com as crianças tiveram o mesmo conteúdo: descrição de cuidado, zelo e de viverem em um lar normal.