A maquiadora Roseli Fernandes, de 48 anos, morreu na recepção de um edifício após fazer um procedimento de remodelação glútea e coxas no Brooklin, bairro nobre da zona sul de São Paulo.
O falecimento ocorreu após um procedimento de injeção de polimetilmetacrilato, mais conhecido pela sigla PMMA, na região dos glúteos e na face posterior das coxas da paciente. De acordo com a Polícia Civil de São Paulo, que ainda investiga as circunstâncias da morte, o procedimento foi realizado para finalidade estética de remodelação corporal. Segundo informações, foram usado 100 seringas para aplicar a substância na paciente.
O PMMA, sigla para polimetilmetacrilato, é um material sintético utilizado como preenchedor definitivo. É um preenchedor permanente, não absorvível, associado a complicações imediatas e tardias, incluindo processos inflamatórios, infecções, granulomas, deformidades, sequelas permanentes e, em situações graves, complicações sistêmicas potencialmente fatais.
"Diferente dos preenchedores como ácido hialurônico, que é absorvido com o tempo, o PMMA fica no corpo para sempre. Com o tempo, o organismo pode entender que ele é uma substância estranha e invasora e pode reagir contra ele", explica o dermatologista Ricardo Tiussi, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia/ES.
Ele reforça que através do produto podem ocorrer complicações agudas, como uma reação imediata, ou infecção, podendo formar granuloma, nódulo e até embolia aguda. E também complicações crônicas.
Embora o Conselho Federal de Medicina ainda permita o uso do PMMA, ele é restrito para situações específicas, principalmente reconstrutivas, como correção de uma deformidade. "Às vezes, o paciente apresenta uma doença que absorveu gordura do rosto ou teve um acidente, e coloca o PMMA para preencher, porque é um produto mais barato".
A Sociedade Brasileira de Dermatologia é contra o uso da substância para fazer harmonização facial, aumento de glúteo ou de panturrilha, por exemplo
Ricardo Tiussi Dermatologista
O uso do PMMA exige critérios rigorosos porque se trata de um produto definitivo. "Pode levar a complicações agudas e crônicas, difíceis de serem tratadas. Às vezes é necessário até cirurgia para a retirada, por isso o paciente tem que ser muito bem orientado dos riscos, da técnica adequada e da utilização de quantidades pequenas".
O cirurgião plástico Ariosto Santos diz que a Anvisa só libera a utilização do PMMA para casos médicos muito específicos e excepcionais. "Como, por exemplo, pacientes que têm HIV positivo e tem lipodistrofia, ou seja, aquela fase em que há face magra, toda murcha, cheia de reentrâncias na pele por conta de uma característica do HIV. Ou que tenha deformidades severas, decorrentes de traumas".
O médico diz que o uso do produto pode ocasionar muitos problemas. "Quando ele é injetado, ele se mistura com os tecidos, no caso, no músculo e nervos da região. E é necessário cortar e tirar aquele segmento todinho de tecido, tanto a pele quanto o músculo com o produto dentro dele. Sempre fica resíduo do produto".
Por ser uma substância definitiva e estranha ao organismo, o PMMA pode desencadear reações inflamatórias persistentes. "Em casos extremos, pode ocorrer mutilações, necrose da pele e até embolia pulmonar, se o produto cair na corrente sanguínea e for para o pulmão", diz Ariosto Santos.
Nota da SBD
A atual diretoria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) defende o endurecimento do controle sanitário e regulatório do produto junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), diante dos riscos graves e permanentes associados ao seu uso.
Esse entendimento está em consonância com manifestações técnicas anteriormente divulgadas pela SBD, isoladamente e em conjunto com o Conselho Federal de Medicina (CFM), sempre pautadas na defesa da segurança do paciente, da boa prática médica e da medicina baseada em evidências.
Embora existam propostas de restrição do uso do produto a determinadas especialidades médicas, a SBD ressalta que tal limitação não elimina os riscos intrínsecos relacionados ao PMMA, especialmente em procedimentos estéticos eletivos.
A SBD reafirma seu compromisso com a proteção da saúde da população brasileira e seguirá atuando de forma técnica, ética e responsável em defesa da medicina segura.