O governador Renato Casagrande atenuou, nesta terça-feira (4), a decisão do prefeito Luciano Rezende, seu aliado de primeira hora, de exonerar o vice-prefeito de Vitória, Sérgio Sá, da Secretaria Municipal de Obras e Habitação, um dia após Serginho, como é mais conhecido, ter assinado o livro de candidaturas a prefeito de Vitória aberto pela direção municipal do PSB. Para Casagrande, a atitude de Luciano não foi em retaliação à pré-candidatura de Serginho, ao contrário do que este afirmou publicamente logo após a exoneração.
“Não chamo de retaliação”, opinou o governador. “Foi uma posição política. Se o Sérgio Sá se coloca como candidato a prefeito, é até bom para ele ter liberdade para poder seguir em frente e tentar viabilizar sua pré-candidatura.”
Casagrande e Serginho são correligionários no PSB. Já Luciano comanda, no Estado, o Cidadania (antigo PPS), principal partido aliado do PSB no governo estadual. E, como é sempre bom lembrar, tem candidato próprio à sucessão: o deputado estadual Fabrício Gandini, também do Cidadania.
O presidente estadual do PSB, Alberto Gavini, seguiu a mesma linha de pôr panos quentes no assunto. Segundo ele, Luciano tomou uma decisão administrativa (e não política), pensando na própria gestão, já que, a partir do momento em que se declara pré-candidato, o vice-prefeito precisa trabalhar para se viabilizar politicamente e, assim, já não teria condições de se concentrar integralmente em suas atribuições à frente da pasta.
“Consideramos a atitude do Luciano um ato administrativo normal. Isso não promove nenhum problema de relacionamento entre o PSB e o Cidadania, nem entre o prefeito e o governador. Isso está bem entendido. Evidentemente, o nosso companheiro ficou chateado. Mas qualquer gestor faria a mesma coisa porque tem que dar continuidade às atividades da secretaria. Já que o Serginho se colocou à disposição para ser candidato, ele estará com a cabeça muito mais voltada para isso, e a secretaria não pode parar.”
O próprio Sérgio Sá discorda:
“Primeiro, respeito a opinião de Casagrande e de Gavini. Mas contra fatos não há argumentos. Me inscrevi na quinta-feira. Fui exonerado na sexta-feira. Aí é só fazer a interpretação. Para bom entendedor, um pingo é letra.”
De fato, os caciques do PSB buscaram uma explicação honrosa para abafar o incêndio entre Luciano e seu vice antes que as chamas se espalhem para a relação entre os respectivos partidos, mas a cronologia da exoneração de Serginho da Secretaria de Habitação – onde ele diz que estava desde 2005 – dificulta outra interpretação para o ato que passe ao largo de motivações político-eleitorais.
Até porque, se a pré-candidatura do vice-prefeito era um problema, por que não foi exonerado antes? Serginho se apresenta como pré-candidato a prefeito, pelo menos, desde abril de 2019. E por que não depois? No início de abril, por imposição legal, ele teria mesmo que se desincompatibilizar do cargo de secretário para poder participar do pleito de outubro – disputando qualquer cargo. A exoneração assim, um dia após a assinatura do livro do PSB – e, segundo Serginho, sem aviso prévio –, soou mesmo um tanto quanto intempestiva.
De resto, exemplos não faltam de pré-candidatos a prefeito que conciliam o esforço político de viabilização eleitoral com o trabalho à frente de alguma secretaria, em prefeituras e no próprio governo do Estado. Aliás, se isso constitui um problema por si só e se “qualquer gestor faria a mesma coisa”, o governador teria que ser o primeiro a exonerar seu secretário estadual de Trabalho e Assistência Social, Bruno Lamas (PSB), candidatíssimo de seu partido a prefeito da Serra. Mas… não é necessário, né?
A fim de se viabilizar, Serginho Sá contava justamente com a exposição proporcionada por seu trabalho à frente da Secretaria de Habitação. E agora ficou sem ela, segundo seus próprios companheiros, justamente porque precisa se viabilizar.
Ninguém combinou com ele. Nem Luciano ao reagir, nem Casagrande e Gavini ao justificarem a reação do aliado.