Na semana passada, na noite de quarta-feira, dia 20 de fevereiro, mais uma vez uma cidade alemã foi palco de um ataque racista contra migrantes turcos. A Alemanha tem uma história pesada de racismo, da qual, ressalte-se, cuida-se para nunca ser esquecida. Mesmo assim, apesar de todos os esforços para impedir o esquecimento, a onda de crimes xenofóbicos parece reviver uma cultura de ódio contra estrangeiros muito cultivada pelo Partido Nazista de Hitler.
Na década de 1990, começaram a pipocar notícias de atentados neonazistas e ficaram famosos os nomes quase impronunciáveis de cidades como Hoyerswerda, Rostock, Mölln e Solingen. Agora nos anos 2000 são as cidades de Heidenau, Chemnitz, Kassel, Halle e, por último, Hanau, que fazem manchete e chegam até nós, causando espanto.
Desse espanto, refletindo-se mais atentamente, duas perguntas emergem para debate: Até quando é preciso insistir nas políticas públicas de não-esquecimento do passado racista? E, será que são positivos os efeitos desse modelo de política de não-esquecimento?
O ataque em Hanau foi direcionado a um grupo específico de migrantes, aqueles de origem e background turco, filhos e netos de uma primeira geração de trabalhadores que foram convidados a serem operários na reconstrução do país depois da Segunda Guerra Mundial. Esses trabalhadores e suas famílias foram ficando na Alemanha, convidando outros migrantes e assim formaram uma comunidade muito ativa e de certa forma muito bem integrada na sociedade alemã.
ORIGEM ESTRANGEIRA
Hanau é uma cidade de migrantes, são 96 mil habitantes, 26% deles não têm cidadania alemã e cerca de 50% têm origem estrangeira. Esse parece ser o campo minado da discórdia, o estopim de um guerra de culturas, entre uma população branca alemã elitizada e o restante da população pobre, de origens diversas e sem acesso a direitos políticos.
Esse mesmo cenário se repete em outras partes da Alemanha, e ao contrário do que acontecia na década de 1990, não só em cidades da antiga Alemanha Oriental, onde se imaginava haver um maior índice de racismo e antissemitismo enraizado na população, mas também nas cidades da Alemanha Ocidental, polos industriais e próximas a centros financeiros.
Causa surpresa o fato de o racismo de extrema-direita espraiar-se também para o ocidente, porque durante o pós-guerra na Alemanha Ocidental o passado do nazismo hitlerista foi muito trabalhado no sistema educacional e no sistema político, de modo a estabelecer a culpa de cada cidadão pelo crime contra a humanidade ocorrido.
A aceitação de que o holocausto é um crime cometido por toda a população alemã e que não só a geração que viveu a 2ªGuerra é culpada por tê-lo deixado ocorrer, como também todas as gerações vindouras são responsáveis para que não ocorra novamente, criou na Alemanha o que o filósofo Jürgen Harbemas chama de compromisso com a democracia constitucional.
Exemplo desse compromisso é o Artigo 16a da Constituição Alemã, a Grundgesetz, incluído no texto da lei fundamental de forma demonstrativa do pacto que se estabeleceu depois da Grande Guerra de não só não perseguir, como também de aceitar a todos os perseguidos que buscassem refúgio em seu território. E foi justamente isso que aconteceu em 2015, quando a Chanceler Angela Merkel decidiu abrir todas as fronteiras da Alemanha para receber refugiados que fugiam da Guerra na Síria.
"A GENTE CONSEGUE!"
A frase emblemática de Merkel: “Wir schaffen das!” (A gente consegue!), dita no dia 31 de agosto de 2015 durante uma conferência de imprensa, marcou a renovação do compromisso com a democracia constitucional, nos termos habermasianos. Ao contrário do que acontece aqui no Brasil, na Alemanha aceita-se a culpa pelo crime de racismo praticado contra os judeus durante a Segunda Guerra, enquanto aqui sequer se aceita que a escravidão foi um genocídio do povo negro sequestrado por brasileiros e portugueses de determinados países da África.
Assim, de um lado, vê-se agora um amplo debate na sociedade alemã sobre as causas do racismo contra migrantes, em especial quanto ao que aconteceu em Hanau, contra a população de origem turca. Dá-se voz aos migrantes e se permite que eles participem do debate público no parlamento para a implementação de políticas públicas para redução da violência.
Por outro lado, no Brasil tenta-se negar e revisitar a leitura da história, para mudar a narrativa quanto à ocorrência do crime contra a humanidade que foi, verdadeiramente, a escravidão e seus efeitos contemporâneos na sociedade brasileira. Enfim, somos uma sociedade que, em grande parte, não aceita a sua culpa histórica, tampouco entende ser seu dever compensar os danos causados à população negra no país e nos países africanos de onde seus cidadãos foram sequestrados.