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De ponto em ponto

No bordado, mulheres de Vitória encontram caminhos para recomeçar

Projeto Fio de Esperança une formação, acolhimento e troca de conhecimentos entre mulheres do Morro do Quadro e do Cabral, em Vitória

Publicado em 11 de Outubro de 2026 às 08:11

Julia Camim

Publicado em 

11 out 2026 às 08:11
Projeto Social Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória
Mulheres encontram força para recomeçar no projeto Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória. Fernando Madeira

Bordado e costura podem parecer coisas simples para alguns, mas para as mulheres do Morro do Quadro, do Cabral e áreas adjacências, em Vitória, têm significados valiosos. Isso porque, de ponto em ponto, aquelas que fazem parte do projeto Fio de Esperança transformam as próprias realidades e encontram, umas nas outras, apoio para enfrentar as dificuldades do dia a dia. 


“Quando você fala Fio de Esperança, significa trazer a cultura das nossas mulheres, a história, a identidade… porque cada trabalho bordado é exclusivo da identidade de cada mulher”, explica Valquíria Matos, 51 anos, fundadora do Instituto do Quadro de Esperança, onde o projeto nasceu e se desenvolve.

A história do grupo começou em 2021, durante a pandemia de Covid-19, quando moradores da comunidade e voluntários se mobilizaram para enfrentar a insegurança alimentar de famílias em situação de vulnerabilidade. 


Naquele período, o objetivo era conseguir doar cestas básicas e oferecer cartões para alimentação para que, principalmente, mulheres que chefiavam os lares sozinhas pudessem fazer suas próprias compras. 

Com o tempo, a atuação se ampliou para outras demandas do território, como o desenvolvimento de habilidades profissionais, a criação de oportunidades e a busca por moradia digna.


A costura entrou na trajetória da organização para amarrar todos os objetivos. Para além do trabalho artesanal, que se transforma em renda, o Fio de Esperança proporciona às participantes um espaço seguro de convivência e aprendizado, além de alimentar a esperança de que é possível recomeçar.

Elas não só tecem fios, mas tecem esperanças, se conectam à vida, dialogam e trocam ideias, saberes populares da nossa ancestralidade.

Valquíria Matos, fundadora e coordenadora do Instituto Quadro de Esperança.

Projeto Social Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória
Fio de Esperança promove oficinas de bordado e costura a mulheres em situação de vulnerabilidade social. Fernando Madeira

Essa relação de proximidade com a comunidade e suas demandas, inclusive, foi fundamental para que o projeto fosse selecionado no 7º Edital de Projetos Sociais do Sicoob-ES, que investiu mais de R$ 5 milhões em 213 projetos. 


Segundo Sandra Martins, supervisora de Cidadania e Sustentabilidade da cooperativa financeira, “apoiar quem já atua no local significa reconhecer o conhecimento e a capacidade das próprias organizações comunitárias”.


Além disso, a supervisora reforça que “projetos de formação podem deixar um resultado que permanece depois que a ação termina. Quando uma pessoa aprende uma habilidade, amplia seu repertório ou encontra uma oportunidade de desenvolvimento, ela leva esse conhecimento consigo”.

O caso de Nilma Gomes, 40 anos, demonstra como as linhas, os desenhos e as máquinas de costura são capazes de ajudar as mulheres a enxergarem novos caminhos e a se reconectarem com o conhecimento e a própria vida. 


Depois de perder a mãe, ela se fechou em casa e desistiu até mesmo do pequeno negócio que tinha na comunidade. Certo dia, porém, foi tocada por uma ação do instituto e decidiu participar.


“Eu não queria convivência com ninguém, porque eu senti que eu passei aquela dor (do luto) sozinha. Eu olhava para mim e não via recomeço. Mas, quando eu insisti (em participar do instituto), eu vi a necessidade de ajudar as pessoas. Então, o instituto, para mim, foi uma porta que se abriu. Hoje, eu não sou a mesma que chegou aqui”, conta emocionada.


A mulher que chegou sem esperança no grupo se sentiu acolhida e recebeu um convite para usar as máquinas de costura que tinha em casa, mas estavam paradas. 


“Me ofereceram para costurar e ensinar mulheres a fazer bolsas com as pernas das calças. Aproveitar (o material usado), né?”, conta Nilma, ao lembrar do convite para ensinar outras participantes.

Projeto Social Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória
Mulheres do Morro do Quadro encontram novos caminhos e vínculos por meio do bordado. Fernando Madeira

E assim, de fio em fio, a esperança foi sendo costurada a várias mãos, inclusive com as  de Penha Guerra, 68 anos, que aprendeu ainda criança, com a avó, a costurar vestidinhos para as bonecas de pano.  


Para ela, que hoje ensina o ofício a outras colegas, o bordado é uma terapia e uma maneira de se sentir viva. “Ah, é muito bom. Eu estou aprendendo, estou ensinando e sempre tem coisas novas para a gente aprender”, conta.

Um ponto para recomeçar

Entre tecidos e conversas, o trabalho manual desenvolvido no Fio é apenas uma parte do que acontece ali. A convivência ajuda mulheres que enfrentam dificuldades sociais e econômicas a encontrar soluções e apoio.


É o caso de Josinete Gomes, voluntária do instituto há cerca de três anos. Mãe de quatro filhos, entre eles um com deficiência, ela encontrou no bordado uma família.

Quando eu cheguei aqui, eles me abraçaram. Hoje eu me encontro aqui fazendo minha arte, que é o bordado.

Josinete Gomes, participante do projeto Fio de Esperança.

Brieny Romualdo, 33 anos, também superou dificuldades com o apoio do instituto. Ainda durante a pandemia, ela recebeu auxílio alimentar e buscou orientação para resolver um problema de moradia, enquanto lidava com um quadro de depressão e ansiedade.


Hoje, morando em um lugar digno e com emprego fixo, Brieny reconhece no grupo o ponto de transformação de sua vida. “Quando eu falo do instituto, eu falo que ele é minha cura. Ele mudou totalmente a minha vida aqui”, afirma.

Projeto Social Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória
 Brieny Romualdo e Penha Guerra, participantes do Projeto Social Fio de Esperança. Fernando Madeira

Assim como as colegas, Brieny também passou a participar das ações comunitárias e a atuar no instituto, a fim de contribuir para a autonomia feminina de outras moradoras da região. 


Dessa forma, o ciclo continua: em vez de permanecerem apenas na posição de quem precisa de ajuda, as mulheres impactadas pelo projeto passam a atuar na construção de soluções para a comunidade.


Esse fenômeno se relaciona diretamente com o 7º princípio do cooperativismo: o interesse pela comunidade. Segundo Sandra Martins, tal valor busca o desenvolvimento sustentável das comunidades onde estão inseridas, a partir de políticas e iniciativas definidas de acordo com suas realidades.


Por isso mesmo, o Sicoob-ES se compromete a apoiar projetos locais. Para a supervisora, a decisão de direcionar recursos para as organizações que conhecem de perto as necessidades de seus territórios é uma forma de “criar condições para que as pessoas desenvolvam conhecimentos, habilidades e novas possibilidades para o futuro”.


Para Valquíria, o recurso proveniente do edital, que começou a ser executado no segundo semestre de 2025, com acompanhamento até julho deste ano, fez diferença no desenvolvimento das atividades, especialmente na possibilidade de contar com a orientação da artista Makapon e de oferecer melhores condições para as participantes aprenderem e produzirem.

Projeto Social Fio de Esperança, no Morro do Quadro, em Vitória
Valquíria Matos (à direita) fundou projeto social durante a pandemia. Fernando Madeira

“Ajudou muito as mulheres, né? Porque com o aporte, com o capital que chegou, elas puderam empreender melhor, aprender melhor, por meio da nossa artista, que é a Makapon”, relata.


O financiamento, nesse caso, não substituiu a mobilização das mulheres nem o trabalho cotidiano da instituição, mas ajudou a ampliar a atuação do grupo. Foi, então, uma combinação entre recursos, conhecimento e participação comunitária a fim de transformar uma atividade de formação em uma experiência de aprendizado coletivo.

O que fica depois do bordado

Com recursos, doações, vendas em bazar e outras formas de arrecadação, o projeto segue existindo e transformando a vida das mulheres do Morro do Quadro e do Cabral. A intenção é que cada participante possa desenvolver produtos próprios, explorar a criatividade e levar as habilidades aprendidas consigo.


Mas, para além da confecção de ecobags, almofadas, panos de prato e outras peças artesanais que se transformam em renda, o projeto de bordado também busca fortalecer as mulheres. 


Para Valquíria, a atividade é, inclusive, uma maneira de ajudar a manter as mulheres seguras. “Enquanto elas estão aqui, elas estão fora da violência doméstica, que muitas vezes atravessa nossos corpos, nossos pensamentos, a saúde mental de muitas mulheres”.


O impacto do projeto, portanto, não termina com o último ponto, a última linha ou com o fim da oficina realizada em uma sexta-feira. Ele segue, como um fio que passa de mão em mão, e permanece firme nos vínculos construídos durante os encontros.

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