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Antônio Carlos de Medeiros

A força dos municípios e do poder local nas eleições capixabas de 2026

Não se trata do retorno do “voto de cabresto” da República Velha no século XX. Trata-se das forças locais de vizinhança, de associações, de vereadores com bases políticas e dos prefeitos, principalmente os bem avaliados

Publicado em 22 de Agosto de 2026 às 04:45

Públicado em 

22 ago 2026 às 04:45
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros Antônio Carlos Medeiros

acmdob@gmail.com

É tempo de emendas parlamentares robustas direcionadas para obras e serviços nos municípios pelos deputados federais e pelos senadores, sem contar os próprios deputados estaduais. Com esse novo cenário, os municípios e as forças políticas locais ganharam mais força política e eleitoral.


Assim, a política nacional foi estadualizada e a política estadual foi municipalizada. As bases sociais e políticas nacionais estão nos estados. E as bases estaduais estão nos municípios.


Este cenário político vem se desenhando cada vez mais. Principalmente depois de 2020, quando foi ficando mais nítida a mudança nas razões de votos dos eleitores brasileiros e capixabas. Preferência crescente por entregas de serviços públicos e por boas gestões, mais do que por narrativas ideológicas. Pão com manteiga, comida na mesa e sossego.

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É claro que as redes sociais são meios poderosos de criação e manutenção de bases políticas. É claro que a televisão continua – agora mais – como meio importante de comunicação e formação de preferências eleitorais. Mas agora é mais claro também que as bases locais voltaram a ter força política na conquista do voto.


Não se trata do retorno do “voto de cabresto” da República Velha no século XX. Trata-se das forças locais de vizinhança, de associações, de vereadores com bases políticas e dos prefeitos, principalmente os bem avaliados. O papo eleitoral não é a ideologia e o conflito de narrativas. O papo é entregas de obras e serviços nos bairros e vizinhanças. Contendo, é claro, o foco na segurança, na educação, na saúde e na infraestrutura.


Tudo isso significa que, já iniciadas as campanhas políticas, os candidatos as eleições vão ter que ajustar as formas de comunicação com os eleitores. Presenças locais, eventos locais, compromissos de entregas locais - além da campanha eleitoral gratuita no rádio e na televisão e nas redes sociais.


O eleitor brasileiro e o eleitor capixaba, como mostram as pesquisas qualitativas e quantitativas e as mudanças demográficas, estão mais desconfiados, mais escolarizados e mais descrentes com os promesseiros. 


Sabendo-se também que foi robusto o crescimento do peso dos idosos (mais de 60 anos) no eleitorado. Eleitor experiente que se informa mais pela televisão do que pelas redes sociais. São muitos e serão decisivos.


Tudo somado, os candidatos às eleições capixabas vão precisar gastar sola de sapato e criar empatia com este eleitor desconfiado. Com a ajuda e o apoio – este é o busílis – das bases sociais no municípios, bairros e vizinhanças.


É a conquista do voto mergulhada no entendimento e na percepção do que mudou nas razões de votos dos eleitores. E mudou muito. Para além dos clichês e rótulos das redes sociais.


Nesta busca pela conquista do voto, é preciso ter propostas reais e concretas para as demandas e aspirações locais. Compreender as dores, expectativas e preferências locais. Criar empatia e confiança com o povo local. 


Urna eletrônica, eleição, voto, votação
Urna eletrônica Shutterstock

Parece tentativa de romancear as eleições de 2026. Mas não é. Os fatos estão aí. As pesquisas qualitativas também. É preciso jogar o jogo da entrega de boa gestão e de serviços. Não é fácil.


No processo de criação e conquista de empatia política e confiança, Sua Excelência, o Candidato precisa mostrar conhecimento dos municípios e bairros e apontar soluções.

Outro dia, o governo do Estado do ES publicou a lista provisória das cidades capixabas que mais vão receber recursos de impostos em 2027. Trata-se da divisão do ICMS para 2027. Divisão realizada de acordo com o chamado Índice de Participação dos Municípios (IPM).


O IPM define a parcela de cada município na distribuição do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Como se sabe, 25% do total arrecadado pelo Estado são distribuídos aos 78 municípios capixabas, de acordo com o IPM.


A Serra lidera o índice, com 14,04%, seguida por Cariacica, que alcançou a segunda posição, com 10,10%, superando Vitória, que vem em terceiro lugar com 9,89%. 

Em seguida, entre os dez maiores, vêm: Linhares (5,78%); Vila Velha (4,28%); Viana (4,12%); Anchieta (3,58%); Aracruz (3,06%); São Mateus (2,64%); e Cachoeiro de Itapemirim (2,57%).


É a força da atividade econômica no município que define o seu índice de participação.  Vem daí, por exemplo, o crescimento da Serra, de Cariacica, de Linhares e de Aracruz.

Esse panorama do ranking dos municípios com base na evolução das respectivas atividades econômicas é uma boa referência para o debate político-eleitoral com foco nas carências, expectativas e potenciais das cidades capixabas.


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A formação de consórcios municipais para a realização de compras conjuntas ou prestação de serviços (saúde, por exemplo), foi uma boa iniciativa que está em curso já há algum tempo, acompanhada pela Amunes (Associação dos Municípios do ES) e pelo governo estadual.


A governança da região metropolitana da Grande Vitória precisa melhorar.


O letramento digital e a educação profissionalizante precisam atingir os municípios e as prefeituras municipais, em forma de coordenação estadual e política pública.

 

A regionalização dos investimentos, como já está sendo realizado no saneamento, pode evoluir ainda mais.


E assim por diante. Existem inúmeras referências de boas práticas de gestão municipal pelo Brasil afora.


O fato é que as eleições capixabas deverão ser mais municipalizadas e estadualizadas.

Antônio Carlos Medeiros

Antônio Carlos Medeiros Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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