Contrariamente ao que reza o dogma neoliberal, a globalização da produção e da circulação de mercadorias nunca foi um processo regido pelas forças do mercado.
Desde os anos 1980, quando o termo globalização ganhou força nos meios de comunicação, ela sempre esteve submetida aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Na medida em que sucessivos segmentos de sua indústria foram perdendo competitividade diante de outros países (inclusive aqueles de industrialização retardatária, como o Brasil), diferentes governantes estadunidenses recorreram a medidas protecionistas, barreiras comerciais, sanções e embargos.
Medidas, barreiras, sanções e embargos escancarados acima de qualquer argumento, minimamente racional, no segundo mandato de Donald Trump.
Há, no entanto, uma outra dimensão da globalização que segue trajetória bastante diferente e bem menos vulnerável aos humores dos apologistas do MAGA (make america great again): a dimensão cultural. A produção, o consumo e o fazer arte e outras dimensões da cultura se dão, cada vez mais, de forma semelhante em diversas partes do mundo.
Filmes, músicas, hábitos alimentares, formas de vestir, linguagens e comportamentos, entre outros, circulam em velocidade inédita entre países de todos os continentes. A expansão dos meios de comunicação e, sobretudo, das redes sociais tornou praticamente impossível estabelecer fronteiras para a circulação de informações, conhecimentos e manifestações culturais.
É difícil imaginar, portanto, que a globalização cultural possa ser regulada nos mesmos moldes das relações comerciais. Uma coisa é o governo estadunidense elevar tarifas de importação, impor restrições a países e produtos ou dificultar a circulação de mercadorias em escala mundial. Outra é tentar impedir que uma música, uma imagem, uma dança, uma receita, uma ideia ou um comportamento atravesse fronteiras em segundos e seja apropriado por milhões de pessoas.
Por isso, a globalização cultural pode abrir oportunidades extraordinárias para políticas públicas, em nível de países e de estados, que valorizem as especificidades culturais de seus territórios.
Em todo o mundo, existem formas de criar, produzir e se relacionar em comunidade e com a natureza, que não podem ser reproduzidas simplesmente em qualquer lugar. São conhecimentos e práticas vinculados a condições ecológicas, históricas e culturais particulares.
No Brasil, essa diversidade é especialmente rica. Ela está presente nas manifestações artísticas e culturais que atravessam gerações. Está na música, na dança, na literatura, nas artes plásticas, no artesanato e em tantas outras expressões e linguagens que conferem identidade específica aos diferentes territórios brasileiros.
Está também na maneira como comunidades quilombolas produzem alimentos e organizam sua relação com a terra; nos conhecimentos e práticas dos povos indígenas; nas internacionalmente reconhecidas experiências de movimentos de pequenos agricultores, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). A diversidade está nas culinárias regionais, nas formas tradicionais de pesca, de extrativismo e do manejo dos recursos naturais.
O desafio das políticas públicas em nível nacional e dos estados está, portanto, em criar condições para que essas singularidades não sejam esmagadas pela pasteurização cultural mas, ao contrário, que possam dialogar com o mundo.
Mais do que preservar essas manifestações como peças de museu, é necessário criar instrumentos para que elas participem da cultura globalizada, em condições mais favoráveis.
Isso significa apoiar iniciativas capazes de levar ao mundo aquilo que só pode ser produzido — ou produzido de maneira especial — em determinados territórios. São modos singulares de criar, de celebrar, de contar histórias e de cozinhar. Alimentos saudáveis são associados a formas específicas de cultivo e aos conhecimentos tradicionais sobre a natureza. Expressões artísticas e culturais únicas são originadas em comunidades e regiões particulares.
Esse apoio precisa partir do reconhecimento de que a circulação global de bens culturais pode ser mais rica quando incorpora aquilo que cada território tem de singular. Nesse sentido, o Brasil possui uma vantagem extraordinária, já que poucos países desfrutam de tanta pluralidade e diversidade ecológica, cultural e social.
E essa pluralidade e diversidade não se revela apenas na comparação entre o Brasil e outros países. Ela se manifesta dentro do próprio território nacional: entre litoral e interior; cidades e comunidades rurais; territórios indígenas e quilombolas, periferias urbanas e pequenas comunidades.
Valorizar essas diferenças exige políticas públicas permanentes de cultura, educação, ciência, e desenvolvimento territorial. Exige financiamento, formação, infraestrutura, proteção de conhecimentos tradicionais e, sobretudo, canais que permitam aos próprios territórios definir como desejam apresentar e compartilhar suas produções com o restante do país e com o mundo.
Surge daí, uma questão importante para o exercício da cidadania neste ano eleitoral de 2026. É importante observar quais candidatos defendem políticas públicas capazes de valorizar a diversidade cultural e produtiva dos territórios; e quais, ao contrário, já aderiram sem ressalvas aos padrões culturais e aos interesses que a indústria cultural estadunidense representa.
Essa distinção pode ajudar na escolha de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Afinal, decidir os rumos do país não se reduz, apenas, a escolher quem administrará a economia ou as contas públicas. É também decidir que culturas, conhecimentos, formas de produzir e modos de vida terão condições de sobreviver, dialogar e interagir com o mundo, participando da construção do futuro.
A globalização cultural veio para ficar. A questão é saber se seremos apenas consumidores de manifestações culturais cada vez mais pasteurizadas e produzidas em escala no exterior, ou se teremos políticas capazes de fazer com que a extraordinária diversidade dos territórios brasileiros também ganhe espaço — no Brasil e no mundo.
É sempre bom lembrar que o campo da cultura também reflete uma disputa de projetos de país. Por isso, é recomendável que o eleitor atento indague qual candidato tem compromisso claro com políticas públicas que valorizem a diversidade e fortaleçam a cultura como eixo de desenvolvimento.
Qual deles propõe algo além do discurso e defende democratizar o acesso e apoiar manifestações culturais de todos os rincões do Brasil e dos estados, e não apenas dos grandes centros e produtores consolidados?
Ao mesmo tempo, é fundamental questionar quais candidatos se alinham subservientemente à indústria cultural estadunidense, defendendo modelos que muitas vezes desprezam nossa própria produção. A escolha que fazemos nas urnas não é apenas por nomes, mas pela visão de desenvolvimento que queremos para o país.
Se a de uma nação que se assume como mero coadjuvante de terceira linha no cenário global ou a de um Brasil que, reconhecendo sua riqueza cultural, projeta sua voz, seus saberes, suas artes, suas raízes milenares.