Fui assistir à Odisseia, de Christopher Nolan. Cheguei ao cinema com as maiores expectativas. Uma a uma, elas foram superadas. Que filme! A sala de cinema em si já me causa impacto. Sempre que caminho até ela, deixando a comodidade das telas caseiras para trás, já venci uma batalha.
Estar com todos os sentidos voluntariamente alinhados e a consciência aberta para vivenciar no corpo as emoções que isso traz me eleva. Eu sei que acontece assim, mas esqueço.
Saí da sessão com uma enormidade de perguntas que, antes de assistir ao filme, eu ainda não sabia formular. É ou não uma dádiva a avidez pelo aprendizado? Como não fui na semana de estreia, foi impossível ficar totalmente alheia aos comentários elogiosos ou críticos sobre o filme.
O poema épico de Homero é tudo, menos literal. Interpretações diversas são o que permitem que palavras cantadas em volta da fogueira, há quase três mil anos, sobrevivam ao tempo e ecoem dentro de nós com novas perguntas.
O mito da Odisseia traz para mais perto dos mortais a possibilidade divina das escolhas. Odisseu, ou Ulisses, o mestre da astúcia, o gênio estrategista da Guerra de Troia, foi submetido a toda sorte de provas para algo que parecia demasiado simples: voltar para casa.
E foi assim que uma viagem de algumas semanas transformou-se em uma jornada de dez anos. Ulisses, que jamais quis ir à guerra, passou vinte anos fora do lar ou fora de si, quando interpretado simbolicamente.
A prova de que a Odisseia está viva é a liberdade que ela tem de ser nova todos os dias. Ela pode ser minha, sua ou do Nolan. Sobrevive porque aceita ser reescrita, revista, redesenhada. Um mito morto só aceita o silêncio.
Ninguém precisa ter lido Homero para assistir à Odisseia, mas todo mundo sai do cinema filosofando de alguma forma. Cada um fala de um recorte muito íntimo. Uma amiga sentiu falta do romance, queria mais Ulisses e Penélope; outro amigo percebeu a ausência de Laertes, pai do Odisseu, outro da estratégia de ser “Ninguém” diante do ciclope Polifemo. Na verdade, todos queremos contar um pouco da história, trazê-la para perto de nós.
As questões humanas jamais envelhecem. Esta nova leitura da Odisseia, por Nolan, prova isso. Falar de culpa, desejo, vaidade, angústia, honra, traição, poder, tentação, comodismo, ira, inveja, temperança, covardia, coragem, amor organiza o nosso universo interior. A palavra cura.
Não importa as voltas que o mundo dá, Ítaca é um lugar à espera de nós. São demais os perigos desta vida, como disse Vinícius de Moraes, mas do que vale exilar-se em uma desmemória de si? Talvez sejamos mais deuses de nós mesmos do que supomos e só estejamos nos deixando abandonar nos braços de Calipso.
Mais de uma semana após assistir ao filme, ainda estou impactada. Entrei no cinema querendo decorar as falas, saí com saudade do mar e de tudo que me lembra de viver com emoção. Não a emoção radical, mas uma releitura dela. Ao silenciar o som do filme na cena das sereias, Nolan me presenteou com essa reflexão.