Um dos meus podcasts prediletos é o da psicanalista Vera Iaconelli; chama-se "Isso não é uma sessão de psicanálise". O último que ouvi foi um papo delicioso dela com o cantor Lenine. Os dois conversaram sobre família, afeto e trabalho.
Numa fala a respeito do pai, Lenine explica sobre o que pensa da diferença entre ingenuidade e pureza. A linha tênue e muito sutil entre palavras e seus significados me trouxe até esta crônica sobre oportunidade e oportunismo.
São palavras parentes, mas com uma diferença abissal de significado. Chance, considerada a mãe das duas, vem do latim cadentia e remete aos dados que caem sobre a mesa em um jogo de azar. Sabemos que jogos de azar também têm suas rodadas de sorte. A roda gira. Oportunidade é reconhecer o lance favorável. Oportunismo é trocar os dados quando ninguém está olhando.
Etimologia, a raiz da palavra, ensina muito. “Oportuno” vem do latim opportunus, de ob (em direção a) mais portus (porto), uma palavra marítima para sinalizar o vento favorável. Quando está agregada ao sufixo -ismo, carrega, desde o berço, o gesto de quem usa a linguagem da virtude para disfarçar o cálculo.
Oportunidade é o tempo certo. O marinheiro espera a maré até chegar a ocasião propícia. Respeita as forças da natureza, constrói pontes e gera valor coletivo. O oportunismo surge da mesma base. Porém, o oportunista não espera o vento ideal. Ele força a navegação. Ignora a moral e os princípios. Busca vantagem egoísta e imediata.
O oportunismo explora a vulnerabilidade alheia em uma atitude predatória. Está sempre farejando puros ou ingênuos. O oportunista espera por um descuido, uma doença, uma vulnerabilidade qualquer para tirar proveito. Tem uma agenda própria muito subterrânea. Suas intenções estão sob sigilo. Conhece timing e desconhece ética.
A oportunidade se declara: alguém reconhece o vento, expõe-se a ele, arrisca a travessia à vista de todos. O oportunismo se oculta: entra como convidado, escuta como confidente e sai como ladrão. Transforma a confiança recebida em informação e a informação em vantagem própria.
Existe um provérbio latino que atravessou os séculos: a ocasião faz o ladrão. A frase não diz que o ladrão cria a ocasião; conta apenas que esta, ao encontrar alguém sem virtude para atravessá-la com honra, fabrica um oportunista.