O mundo nunca foi fácil para as criaturas que habitam o planeta. Mas o século XXI, em especial, não está sendo fácil para a humanidade. Vivemos tempos de enxame digital, segundo Byung-Chul Han. Para o filósofo, o enxame digital consiste em indivíduos isolados, que existem sem saber como se aglomerar em torno do pronome “nós”, essa palavrinha tão válida em termos de uma comunidade.
Vocês não ignoram que a existência de qualquer comunidade está fundamentada no trio: conhecimento, ações e saberes. No entanto, diante dos acontecimentos atuais, os membros de uma comunidade tendem ao individualismo.
Concordo, porém, com quem diz que isso é próprio dos seres humanos. Recusamos achar que somos ignorantes em muitas coisas porque tratamos o conhecimento dos outros do ponto de vista do nosso, além do que defendemos os saberes de que dispomos como sendo os mais importantes e mais preciosos.
Quanto às ações, prezamos mais sonhar com um resultado de utilidade exclusiva, em prol de nossos preconceitos e nossas vaidades pessoais, que de utilidade coletiva.
Mas, no âmbito de uma Academia de Letras, o conhecimento, as ações e os saberes não devem e nem podem ser considerados de modo estritamente individual. Antes serão sempre tidos como o resultado da soma total das obras literárias e linguísticas de cada um de seus membros, sejam elas produções contemporâneas e atuais ou memoriais, preservadas dos pais fundadores e antepassados acadêmicos.
Nesse quesito, a atitude de mútua confiança e respeito iguala confreiras e confrades, sem distinção de sexo, gênero, idade, cor ou procedência. O que não invalida o espírito de subjetividade na intersubjetividade, em que cada qual reconhece seu próprio lugar de valor e respeita o lugar de valor do outro. É uma condição do merecimento pessoal incluído no merecimento coletivo.
É preciso lembrar que uma Academia de Letras não é um Grêmio Literoesportivo escolar: é necessário candidatar-se, trazendo notório saber, recebendo uma aprovação e um reconhecimento de autoria de obras meritórias.
O desejo mais legítimo de quem participa de uma Academia de Letras deve ser o pertencimento a uma comunidade constituída por elos desiguais. Únicos em si, mas unidos na igualdade de um só objetivo.
E, sobretudo, pertencer a uma comunidade sempre pronta a aprender e a se reinventar. Uma habilidade mais que necessária para garantir a sobrevivência das comunidades como as Academias de Letras no século XXI e (quem sabe?) por muitos e muitos séculos ainda adiante, se a humanidade tiver esse aval de existência na ciranda cada vez mais demolidora dos tempos.