Em vista da gravidade de seus impactos, o Super El Niño deveria ser uma de nossas maiores preocupações cotidianas, ao lado de outras pontuadas nas pesquisas de opinião, como segurança pública, saúde, custo de vida e inflação.
Acredito que a cobertura da imprensa já ajudou a compreender que o Super El Niño é um fenômeno climático severo com efeitos em todos os continentes.
No Brasil, tende a provocar chuvas intensas no Sul e falta delas e ondas de calor nas demais regiões, com impactos sobre a saúde humana, agricultura, enchentes, secas e desastres naturais, afetando de forma especial as populações mais carentes. Na coluna de julho ressaltei a necessidade de reformulação de várias políticas públicas de saúde, já que a maioria da população depende hoje exclusivamente do SUS.
Nesta coluna vou abordar em especial as secas que podem afetar todas as regiões, com exceção da Sul, com impactos sobre a agricultura, cidades, indústria, biomas e a população.
Em relação à agricultura, analistas apontam que o agro brasileiro hoje está mais estruturado, com expansão da irrigação e gestão profissional de risco, o que o capacita a lidar melhor com os efeitos do Super El Niño. Ainda assim, a agropecuária é uma atividade de risco elevado, porque depende simultaneamente de clima, ciclos biológicos e água — que os produtores têm controle limitado, sendo preocupante que o agro esteja este ano muito menos protegido do que deveria.
Cortes orçamentários reduziram o Programa de Seguro Rural de R$ 1 bilhão em 2025 para menos da metade em 2026, o que fará com que a área plantada segurada caia dos baixíssimos 3,4% para 2,8%, equivalente a 2,7 milhões de hectares, um recuo de 77% em relação a 2021.
Para comparação, o seguro do agro dos EUA, um dos nossos principais concorrentes, é de US$60 bilhões anuais, que cobre cerca de 90% da área plantada.
Vários estados vêm adotando medidas preventivas, embora poucos na escala necessária, bastando dizer que apenas dois apresentaram seus planos ao governo federal no prazo estabelecido.
Embora o Espírito Santo seja um dos que ainda não apresentaram, o estado vem adotando algumas medidas importantes, como a criação do Centro Integrado de Comando e Controle, reunindo diversos órgãos, reforço do monitoramento e ações para garantir o abastecimento d´água, evitar incêndios na vegetação e outros danos.
O plano inclui a perfuração de poços, implantação de novos reservatórios, acompanhamento diário das condições meteorológicas e hídricas e campanhas de conscientização. Seu maior mérito está no estabelecimento de uma governança que assegure a ação coordenada de diversos órgãos, algo raro no país.
Um desses órgãos, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama) decretou Estado de Atenção em face da redução da vazão dos principais rios do Estado, que poderá impactar o abastecimento público, indústrias, agricultura e toda a população de forma geral. No decreto, a Seama dá diretrizes às companhias de água e esgoto, concessionárias de energia elétrica, prefeituras e indústrias para reduzir os riscos que a falta d´água poderá trazer.
Mas o fato de apenas dois estados terem apresentado planos e sua baixa repercussão mostra a falta de prioridade do assunto no país. Nossa sociedade segue distraída por outras questões, dando pouca importância à mudança do clima, numa mimetização do livro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago.
Cada um de nós tem responsabilidade nisso, e devemos pressionar com vigor pelo enfrentamento dos impactos do Super El Niño. As eleições vêm aí, e será um momento único para escolhermos candidatos comprometidos com isso, independentemente da sua ideologia.