A democracia está em risco e todos aqueles que pensam a política, não se deixando capturar por discursos fáceis dos candidatos, compreendem o perigo que estamos vivendo nesses tempos de desinformação, fake news, direcionamento algorítmico, velocidade da disseminação de conteúdos e falta de mecanismos regulatórios capazes de frear o que nos parece fora do controle do direito e da política.
São muitas as estratégias discursivas e a capacidade humana de produzir mentiras palatáveis para alguns e retoricamente utilizadas e manipuladas das formas mais bizarras e peculiares, que fariam Maquiavel tremer de vergonha, considerando-se um neófito na arte na qual ocupou lugar de tanto destaque durante séculos.
Estamos a perder o sentido do que seja ética, fato e veracidade na política. O desprezo pela verdade alcançou níveis inimagináveis e a distopia se naturalizou. Nos quedamos impotentes diante da avalanche de mentiras e distorção dos fatos e da realidade. Parece não haver tempo nem energia suficiente para gerar capacidade de resistência. Para os que ainda refletem sobre a vida e a política e são capazes de perceber o caos em que nos encontramos, a angústia é sentimento compartilhado.
O certo é que as estratégias para conquistar o voto dos eleitores são múltiplas e diversificadas, mas, no mais das vezes, muitas convergem em dois pontos fundamentais: mentir ou omitir sobre o passado e mentir sobre a intencionalidade futura.
Tática milenar, conhecida desde a Grécia antiga com Platão e propagada, estimulada e ensinada por filósofos como Maquiavel, para a obtenção e manutenção do poder, a mentira é instrumento naturalizado em nossa sociedade, sendo utilizada com maestria por muitos que se especializaram nessa arte e que, de tanto mentir, parecem acreditar em suas próprias mentiras.
O problema maior é que, na medida em que se amplia o número dos especialistas na arte de manipular as palavras e o número dos que aceitam essa situação, validando comportamento que viola os mais elementares princípios da ética e da moralidade, parece haver um recolhimento e silenciamento dos que se mantêm fiéis à verdade e aos princípios éticos compartilhados por aqueles que são considerados probos e retos.
Não fosse a distopia dos tempos de entronização da pós-verdade, ainda temos que conviver com a violência como estratégia que alcança cada vez mais adeptos e que vem tornando a política e a religião espaços de esfacelamento de nossa cultura civilizatória, aprendida nas lutas por direitos e por justiça.
A democracia pressupõe valores, princípios de convivência, solidariedade, humanidade e respeito às diferenças. A crença na virtude como caminho único para o alcance da paz e para a construção de uma sociedade respeitosa do outro, da dignidade e da justiça, não pode ser esquecida, desprezada ou tornada valor sem sentido, coisa do passado que já não encontra espaço na sociedade moderna, na qual o homem e a dignidade foram destronados para que a desvirtude pudesse ocupar o lugar de destaque e de respeito social.
O casamento entre a mentira e a violência certamente provocará uma corrosão do tecido social e dos princípios constitucionais necessários para a formação de uma sociedade de pessoas livres e iguais, que respeitam a democracia e a justiça.