Vivenciamos, no último dia 6 de agosto, um momento especial que ficará marcado na história como sinal de esperança para as mulheres brasileiras de que novos tempos se avizinham e que a cultura naturalizada da importunação e do assédio sexual que lhes desqualifica, objetifica, silencia e violenta está começando a sofrer fissuras.
Marco Buzzi, ministro do Superior Tribunal de Justiça, foi punido por seus pares, por unanimidade, com uma proposta de perda do cargo por injúria, importunação e assédio sexual em processo administrativo disciplinar.
O que antes ficava oculto nas estruturas de poder solidamente cristalizadas nas instituições começa a vir à tona, iluminado pela coragem de mulheres que entendem, como Michelle Perrot, que a vergonha deve mudar de lado. .
Ao utilizar o argumento da disfunção erétil como justificativa para não poder ser enquadrado como assediador, o ministro e sua banca de defesa evidenciam o desespero que se abateu sobre ele, já que o assédio não depende de funcionamento erétil ou qualquer outro tipo de fragilidade física para se concretizar.
Ao se apresentar como sendo portador de disfunção erétil o ministro sai da condição de predador para a condição de homem que precisa, para se defender, passar por um processo de humilhação pública que o coloca em um lugar de vergonha e dor.
Não é apenas a perda do cargo que poderá representar uma mudança radical na sua qualidade de vida, é o vexame da exposição pública diante de todos. A vergonha está mudando de lado e isso só acontece porque mulheres estão se sentido empoderadas para denunciar aquilo com o que não suportam mais conviver. Séculos de uma cultura que mulheres passam a questionar e dizer com todas as letras e em alto e bom som que não mais irão admitir.
São mulheres de todas as cores, de todas as idades, de todas as religiões, de todas as matizes políticas, de todas as classes sociais e de todos os cantos do país que começam a se unir em uma revolução potente, ainda que tímida em alguma medida, que começa a produzir resultados que já indicam uma virada inimaginável há pouco tempo.
A punição aplicada ao ministro Marco Buzzi é um signo importante, indicativo dessa revolução que estamos prestes a vivenciar. Considerando que, segundo dados do Fórum de Segurança Pública, em 2025, 49,6 % das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de assédio, podemos dimensionar a grandeza do problema e imaginar o que representaria, do ponto de vista dessa revolução, se todas elas decidissem denunciar seus assediadores. O Brasil sofreria sua mais emblemática e vigorosa transformação e uma verdadeira revolução feminina abalaria as estruturas da república.
Que a coragem dessas mulheres que denunciam nos sirva de exemplo e de estímulo para que outras mulheres se juntem a essa revolução, independentemente de terem coragem de se assumir feministas ou não