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Comportamento

No mundo do consumo, se não decotarmos os excessos, nós seremos excedentes

Nessa cultura do consumo desenfreado pouco refletimos sobre as consequências de nossas atitudes e de nosso modo de vida que nos direciona para uma dependência dos interesses econômicos que definem aquilo que devemos desejar

Publicado em 13 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 jul 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Compras online
Na pandemia, as compras on-line ganharam ainda mais força Crédito: Rupixen.com/Unsplash
Texto produzido com Marcela Bussinguer*
Justificamos nosso excesso pela suposta economia solidária. Criamos sites de compartilhamento colocando cada proprietário como se fosse um pequeno capitalista, de maneira que nada é, de fato, compartilhado. Vendemos o que não precisávamos ter comprado em grupos e sites de coisas usadas, comumente chamados de “desapego”, e aplacamos assim a incômoda certeza de que consumimos desnecessariamente, impulsivamente e inconsequentemente.
Nessa cultura do consumo desenfreado pouco refletimos sobre as consequências de nossas atitudes e de nosso modo de vida que, muito mais do que nos oferecer as delícias da liberdade de satisfazer nossos desejos, nos direciona para uma dependência dos interesses econômicos que definem aquilo que devemos desejar e a intensidade com que devemos trabalhar para poder adquirir tudo aquilo que nos fazem aspirar.
A pandemia nos joga contra a crua emergência da proteção ambiental: as preocupações lançadas para o futuro transformaram-se em emergências para o hoje. A saúde e a vida dependem de relações mais saudáveis com as outras espécies e com a natureza. As intensas alterações nos biomas que nos circundam serão resolvidas pela eliminação da espécie mais predadora.
Perceber que a natureza precisa ser cuidada implica reconhecer que todos os excessos estimulados para impulsionar a economia capitalista precisam ser repensados. Sobram roupas, calçados, embalagens. Sobram marcas de produtos iguais, com etiquetas diferentes. Sobram escolhas para o consumo, sem que nenhuma delas represente liberdade.
Afinal, a liberdade não reside na escolha do produto que podemos consumir, mas na oportunização de modos de vida que afastem as necessidades condicionadoras da existência.
Não que a pandemia tenha nos lançado na frugalidade. Isso não é verdade. Pelo contrário, afinal, o e-commerce cresce significativamente e não apenas para os produtos direcionados ao suprimento de produtos essenciais, em especial o setor alimentício. As experiências e primeiras investidas de reabertura do comércio ao redor do mundo mostraram lojas abarrotadas de ávidos consumidores.
Estamos consumindo o mundo, para consumir o que se tornará lixo. Se a retomada econômica sempre foi o mote da superação das crises, o necessário equilíbrio ambiental nos convoca à desaceleração.
Se a pandemia pode nos trazer algo de bom, que seja a reflexão e o reconhecimento de que precisamos de muito pouco para viver.
Capitalismo e frugalidade nunca caminharam juntos, todavia, se não decotarmos os excessos, o excedente seremos nós.
*A coautora é advogada, doutoranda em Direitos e Garantias Fundamentais da FDV

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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