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João Baptista Herkenhoff

Abundância de brasilidade não causa dano, mas sua ausência é uma lástima

Houvesse brasilidade sincera, não teríamos falcatruas, compra e venda de votos, traição aos interesses nacionais

Publicado em 23 de Abril de 2019 às 19:58

Públicado em 

23 abr 2019 às 19:58

Colunista

Ufanismo e a valorização da brasilidade Crédito: Divulgação
Em 13 de abril, celebramos o Dia do Hino Nacional Brasileiro. Em 19 de abril, o Dia do Ïndio. Em 21 de abril, o Dia de Tiradentes. Em 22 de abril, o Descobrimento do Brasil. Este artigo, publicado no dia 24 de um mês tão exuberante em datas cívicas, não pode fugir do compasso.
Os mais velhos (eu pertenço a este grupo) lembram-se de de um livro que nos fazia ter orgulho da condição de brasileiro: “Por que me ufano do meu país”. Afonso Celso, o autor, começava por realçar nossa grandeza territorial, este Brasil imenso que vai do Oiapoque ao Chuí.
Depois, Afonso Celso exaltava a beleza do Brasil: o Rio Amazonas, a Cachoeira de Paulo Afonso, a Baía da Guanabara, a Floresta Tropical na sua pujança inigualável. Mesmo quem não tinha visitado esses lugares ficava com os olhos marejados de encantamento com a descrição que o escritor fazia de nossas plagas. Então, Afonso Celso começava a falar das riquezas naturais, do subsolo ainda inexplorado, do Brasil como celeiro do mundo. Ele não se esquecia de timbrar na amenidade e variedade do clima. Quase de joelhos, agradecia a Deus o fato de estar nosso país livre de vulcões, terremotos e outras catástrofes. E vinha depois o elogio da miscigenação, raças que se fundiram – índios, negros e portugueses – cada uma com suas virtudes, gerando o mestiço brasileiro.
Refutando a versão de que degredados povoaram o Brasil, disse Afonso Celso que vieram para este solo heróis expulsos de outras terras pelos sonhos de liberdade. Também exaltou o nosso Afonso, como característica nacional, o procedimento cavalheiroso para com outros povos. Não se esqueceu de reverenciar os fastos de nossa História – os Bandeirantes, Palmares, a Independência, a missão civilizatória dos jesuítas, o grande monarca que foi Dom Pedro II.
Com tanta injeção de civismo, outro não podia ser o resultado: éramos todos patriotas, cantávamos com a alma o Hino Nacional, estávamos dispostos a qualquer sacrifício que a Pátria nos pedisse, preferiríamos morrer antes de algum dia nos tornarmos corruptos.
Depois, Afonso Celso foi ridicularizado. Criou-se, a partir do título do seu livro, a palavra ufanismo com o sentido pejorativo que Aurélio e Houaiss registram: vanglória desmedida, patriotismo excessivo.
Será que Afonso Celso exagerou? Será que a dose de intensa brasilidade, que seu livro infundiu, trouxe prejuízo ao país?
Não partilho da visão negativa que se oponha a Afonso Celso. Abundância de brasilidade não causa dano. Ausência de brasilidade, isto sim é uma lástima.
Houvesse brasilidade sincera, não teríamos falcatruas, compra e venda de votos, traição aos interesses nacionais. Resgatemos o ufanismo de Afonso Celso: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza.” (Jorge Ben Jor).
 

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