Anualmente, o calendário brasileiro se tinge de lilás. O oitavo mês do ano foi escolhido para relembrar a promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e para lançar luz sobre a dor silenciosa que habita milhares de lares.
No entanto, quando as campanhas governamentais terminam e os laços coloridos são recolhidos, a realidade permanece brutal. O Agosto Lilás precisa nos ensinar, antes de tudo, que a violência de gênero não é um surto isolado ou uma falha de descontrole emocional: é um projeto social estruturado pelo patriarcado e alimentado pelo machismo.
Enquanto o mundo enfrenta crises de saúde e econômicas, o Brasil vivencia há séculos uma pandemia crônica e doméstica. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registra um feminicídio a cada quatro horas e uma agressão física no âmbito doméstico a cada dois minutos.
A maioria esmagadora dessas agressões não acontece em becos escuros, mas dentro do lugar que deveria simbolizar proteção: o próprio lar. O agressor, em mais de 80% dos casos, é o parceiro ou ex-parceiro íntimo.
Vivemos essa pandemia interminável porque a sociedade insiste em tratar a violência doméstica como um problema privado, o velho e nefasto ditado de que "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Essa omissão coletiva concede salvo-conduto para que a dominação masculina progrida do abuso psicológico à agressão física, culminando na morte.
A maioria das vítimas de feminicídio no Brasil jamais havia registrado um boletim de ocorrência ou solicitado medida protetiva. Isso expõe não apenas o medo da retaliação, mas a desconfiança nas redes públicas de apoio e proteção.
O medo feminino é sistêmico. Ele dita a roupa que se veste, o caminho de volta para casa, a forma de falar no ambiente de trabalho e o tom de voz dentro do casamento. As mulheres vivem com medo porque o patriarcado ensina aos homens que o corpo, a mente e as escolhas femininas são extensões de suas vontades.
Quando uma mulher tenta romper o ciclo de violência ou simplesmente exercer sua autonomia, seja pedindo o divórcio, trabalhando fora ou conquistando independência financeira, a resposta do machismo é a punição. O medo não é uma paranoia individual, é uma reação racional a um sistema que cotidianamente relativiza a violência contra a mulher e culpabiliza a vítima.
Historicamente, o patriarcado definiu a mulher a partir de um papel subordinado: a mãe devota, a esposa obediente, o ser frágil. Qualquer desvio desse script social faz com que a sociedade exija explicações. Se a mulher sofre um assédio, pergunta-se o que ela estava vestindo. Se é agredida, questiona-se o que ela fez para "provocar" o companheiro. Se é morta, devassam-se suas redes sociais em busca de falhas morais.
A mulher precisa constantemente justificar sua dor, sua conduta e sua existência para ter direito à compaixão pública e à justiça legal. O homem, por outro lado, conta com a presunção cultural de controle e autoridade.
Um horizonte de vida digna e segura para as mulheres parece distante porque leis avançadas não bastam quando a cultura permanece retrógrada. O Brasil possui um dos arcabouços jurídicos mais modernos do mundo no combate à violência de gênero (Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio, Lei do Stalking), contudo: falta orçamentário para delegacias especializadas (DEAMs) com atendimento 24 horas e para casas-abrigo; o sistema de justiça muitas vezes descredibiliza o depoimento das vítimas, reeditando violências institucionais; meninos continuam sendo educados para a dominação e agressividade, enquanto meninas são preparadas para suportar o sofrimento em nome da "preservação da família".
O Agosto Lilás não pode ser reduzido a palestras pro forma e postagens em redes sociais. Ele precisa ser um manifesto de desconstrução cultural. O mês lilás precisa ensinar que: a violência não é um problema das mulheres, é um problema dos homens e da sociedade; a responsabilidade pelo fim do machismo cabe a quem o reproduz e se beneficia dele; a violência moral, psicológica e patrimonial são crimes tão graves quanto a agressão física; o feminicídio é apenas a ponta de um iceberg que começa no controle das finanças e no abalo da autoestima; não haverá democracia nem paz social enquanto metade da população viver sob a ameaça constante do seu próprio lar.
Romper com a pandemia da violência doméstica exige orçamento público prioritário, educação de gênero nas escolas desde a infância, punição severa e rápida para os agressores e, acima de tudo, a recusa coletiva de tolerar o machismo em nossas conversas cotidianas.
Paz e dignidade para as mulheres não deveriam ser um sonho distante, mas o ponto de partida inegociável de qualquer sociedade civilizada.
Eis uma efeméride que na prática possui a cor vermelha do sangue das vítimas. No entanto, a cor roxa ou lilás, que poderia referenciar os hematomas do “amor”, representa o feminismo devido a uma herança histórica que remonta às sufragistas inglesas de 1908, que usavam o tom como símbolo de dignidade e liberdade.
Oxalá um dia o roxo seja visto somente nas bandeiras de luta, e não nos corpos das mulheres.