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Vitor Vogas

Contarato e o “dom de (se) iludir”. Ou: o negacionismo do PT sobre os próprios erros

Ao responder sobre os crimes de outrem (incluindo eventuais crimes de Moraes), quem falou foi não só o professor de Direito Constitucional e Processual. Foi também o delegado. Ao responder sobre o PT, falou só o professor de Direito

Publicado em 21 de Setembro de 2026 às 18:41

Públicado em 

21 set 2026 às 18:41
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Sabatina com Fabiano Contarato, candidato ao Senado Federal pelo PT
Sabatina com Fabiano Contarato, candidato ao Senado Federal pelo PT Fernando Madeira

Na primeira metade de seu atual mandato (2019-2022), o senador Fabiano Contarato (PT) combateu firmemente o negacionismo do governo Bolsonaro em relação a questões ambientais e à pandemia do novo coronavírus, sobretudo na CPI da Covid-19.


Mas, quando se trata de casos de corrupção relacionados ao próprio partido, o PT é que costuma manter postura negacionista.


Um exemplo: em sua participação na série de sabatinas promovida por A Gazeta e CBN Vitória, o candidato a governador do PT, Helder Salomão, chegou a dizer que “a Lava Jato não passou de uma farsa”. Referiu-se à condução parcial do processo criminal movido contra o presidente Lula na Justiça Federal em Curitiba e ao direcionamento político dado pelo então juiz Sergio Moro.


Ora, como diz o ditado, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Moro realmente se provou um juiz parcial – como trataram de demonstrar a “Vaza Jato” e a carreira política assumida pelo próprio ex-juiz de 2018 em diante, aliando-se a Bolsonaro, colaborando com ele e firmando-se como ferrenho opositor do governo do PT no Senado.


Excessos do então juiz federal (incluindo vazamento de escuta da então presidente Dilma), exorbitância de competências, vícios processuais que levaram o STF a anular as condenações de Lula por lavagem de dinheiro e corrupção passiva? Isso é uma coisa.


Nada disso, porém, anula o fato de que houve farturas de indícios e confissões de esquemas de corrupção instalados nos governos de Lula e de Dilma, como a pilhagem da Petrobras, maior estatal do país, no “petrolão” – para ficarmos em um exemplo.


Mas a resposta de Helder, por exemplo, reproduzindo a narrativa de muitos petistas (e do próprio Lula) parece nos dizer: os erros de conduta (ou de condução) de Moro permitiram a anulação não só das condenações de Lula, mas também o cancelamento de todo e qualquer ato de corrupção extensivo a todos os governos Lula e Dilma. Cancelare, do italiano “apagar”. Apagou-se toda a história negativa. Passou-se uma grande borracha nela.


Por isso, na entrevista com Contarato, perguntamos ao senador: “Isso não é negar os fatos? Não houve corrupção e desvio de verba, por exemplo, na Petrobras? Colegas de partido do senhor não praticaram malfeitos? Não cabe uma retratação?”


Em sua resposta, Contarato não fez o mea-culpa. Teve a oportunidade, mas se negou a fazê-lo. E veja bem: não seria nem uma autocrítica dele mesmo e dos próprios atos, mas relativa a colegas de partido, por fatos de conhecimento público.


Na verdade, o senador preferiu dar uma resposta técnica (tecnicista até), privilegiando a ótica do Direto Processual Penal e enfocando exclusivamente a situação de Lula. Mas a pergunta havia sido mais ampla, sobre casos de corrupção do PT.


“Eu acho que ninguém está acima da lei, doa a quem doer. Eu agia assim quando era delegado de Polícia. Eu lembro quando ligaram pra mim uma vez, falando ‘Ah, tem um sobrinho seu que tava bêbado, bateu na viatura e fugiu’. Nem meu sobrinho era. Eu falei: ‘Podia ser meu pai, podia ser meu irmão. A lei tem que ser cumprida’... Agora, a gente vive sob o império do Estado Democrático de Direito. Eu não acho razoável você violar contraditório e ampla defesa. Eu não acho razoável você ser julgado por um juiz parcial. Quem gostaria de ser julgado por um juiz parcial?”, começou Contarato.


A colunista Letícia Gonçalves, então, perguntou ao senador:


“Certo, mas aí você está falando do procedimento. A gente está perguntando do mérito da coisa: houve ou não corrupção cometida pelo PT?” Ele saiu pela tangente:


“Eu não tenho como falar se eu não conheço os autos. Se houve a mácula no procedimento, arquiva-se o procedimento, tudo bem? Agora, se tem os fatos, se aqueles fatos não foram alcançados pela prescrição, que é a perda do direito de punir do Estado, eles poderiam ter sido denunciados e processados novamente. E por que não foram? Por que não foram?”, perguntou o professor, retoricamente, para em seguida responder à própria pergunta, amarrando a explanação jurídica:


“Uma coisa é um erro procedimental: o juiz foi considerado parcial. Arquiva-se o processo. Mas os fatos ocorreram? Há a hipótese de que houve o crime? Se aquele crime não está prescrito, por que não foi deflagrada a ação penal? Então, se não foi deflagrada a ação penal, eu não posso suprir uma função que é do Poder Judiciário. Isso está na Constituição Federal. Os Poderes são independentes e harmônicos entre si. Quem é o titular da ação penal pública? É o Ministério Público, por força do artigo 129. Ah, o juiz foi parcial, e se arquivou aquilo tudo. Perfeito. Ah, mas houve o cometimento do crime. Então, extraia-se cópia e se ofereça denúncia [de novo], e ele responda ao processo e seja condenado. Agora, isso não aconteceu. Então, eu não posso prejulgar ou me antecipar àquilo que seria o devido processo legal. É só isso.”


Resumindo: segundo ele, se as condenações de Lula foram anuladas pelo STF, o Ministério Público Federal poderia perfeitamente ter pedido a abertura de nova ação penal contra Lula. Mas isso nunca foi feito. 

Dois pesos e duas medidas

A resposta do senador sobre essa pergunta específica chamou ainda mais a atenção porque destoou do resto da própria entrevista.


Ao longo da sabatina, Contarato posicionou-se a favor do endurecimento da legislação penal para que o Estado possa punir com maior rigor quem comete crimes, inclusive “menores infratores” (indo contra a posição histórica do próprio partido e rompendo com tabus históricos dentro do campo progressista ao qual pertence).


Ao mesmo tempo, defendeu a abertura de processo de cassação por crime de responsabilidade, no Senado, em face do ministro do STF Alexandre de Moraes (também indo de encontro ao senso comum que prevalece dentro da esquerda).


O candidato à reeleição também defendeu enfaticamente penas mais severas, justamente, para crimes do colarinho branco, como o de peculato.


Agora, quando a pergunta versou diretamente sobre eventuais crimes praticados por autoridades petistas...


Ficou uma sensação de dicotomia: aos criminosos, a lei (aliás, o endurecimento da legislação penal); aos meus amigos e correligionários, calma aí, vamos analisar a fundo as circunstâncias jurídicas e procedimentais do processo em questão...


Com sua resposta, Contarato no fim só reeditou o que mencionei na formulação da pergunta: a resistência crônica que têm o PT e petistas em reconhecerem os próprios erros e malfeitos, desvios de conduta e de dinheiro público. A saída encontrada por ele para não se comprometer com os pares – e não contrariar seu eleitorado – foi uma resposta de fundo jurídico e processualista.


Resumindo: ao responder sobre os crimes de outrem (incluindo eventuais crimes de Moraes), quem falou foi não só o professor de Direito Constitucional e Processual. Foi também o delegado.


Ao responder sobre o PT, falou só o professor de Direito. 

Sabatina com Fabiano Contarato, candidato ao Senado Federal pelo PT
Sabatina com Fabiano Contarato, candidato ao Senado Federal pelo PT Fernando Madeira

O dom de (se) iludir

Numa outra resposta, mais no fim da entrevista, Contarato confirmou que não só apoia Renato Casagrande (PSB) como segunda opção de voto no Senado como pediu votos para o ex-governador e chegou a dizer o número de urna de ambos (400 e 133, respectivamente).


Quando lhe perguntamos se ele espera reciprocidade, isto é, que Casagrande também o apoie, Contarato afirmou que sim, citando dois grandes pensadores: o filósofo do idealismo alemão Immanuel Kant e o do tropicalismo brasileiro, Caetano Veloso.


Kant: “Aja de tal forma que seu comportamento se torne lei universal”.


Caetano: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.


A última citação é o segundo verso da canção “Dom de iludir”, composta por Caetano (aliás, simpatizante do PT) em 1982. O PT tinha dois anos de vida.


Parafraseando a nome da canção, talvez coubesse um pronome para tornar o verbo reflexivo: quando se trata da postura dos petistas em relação aos próprios erros históricos, segue valendo “o dom de [se] iludir”. 

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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