A violência urbana é o tema que mais preocupa hoje o eleitorado
brasileiro em geral. Os capixabas não fogem à regra. Como não poderia deixar de
ser, o tema está pautando boa parte do debate eleitoral sobre o Governo do
Espírito Santo. O governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito de Vitória
Lorenzo Pazolini (Rep) podem até estar a evitar “brigalhada ideológica”... mas estão
a se digladiar no campo da “numeralha estatística”.
Dados sobre a violência não faltam. Mas o que é que eles nos
dizem? Dependendo das lentes de quem vê e do recorte que se queira dar, os
números podem ser muito positivos para o atual governo (e para a população
capixaba em geral), ou não tão favoráveis assim. É a clássica situação do “copo
meio cheio” ou “meio vazio”.
Uma frase de Pazolini, em entrevista ao telejornal Gazeta
Meio Dia, da TV Gazeta, na última terça-feira (15), resume a situação, do ponto
de vista dele: “Que bom que melhorou! Mas nós temos que melhorar muito mais”.
Já uma afirmação feita por Ricardo na véspera, em sua
sabatina no mesmo telejornal, condensa a ótica dele: “Olhando em perspectiva,
não para a fotografia, mas para o filme, acho que estamos no caminho certo”.
A seu modo, os dois têm a sua razão.
É fato: quando comparamos os principais indicadores do Espírito
Santo (homicídios dolosos, mortes violentas intencionais) com outras unidades
da federação, ainda estamos longe de ocupar as melhores posições do ranking e
de figurar entre os “estados mais seguros do país”. Esse é o copo meio vazio.
Por outro lado, é inegável que tem havido melhoria paulatina
nas taxas do Espírito Santo ao longo do tempo, de 2011 para cá. Desde o primeiro
governo Casagrande, todos os números, das mais diversas fontes, confirmam a evolução
contínua do Espírito Santo nesse aspecto, com uma progressiva redução da taxa
de assassinatos em território capixaba – queda essa intensificada nos últimos oito
anos. Esse é o copo meio cheio.
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Quando inserimos os resultados do Espírito Santo no contexto
nacional, comparando-o com outros estados, melhoramos algumas posições no
ranking da violência desde o início da década passada. Saímos do penúltimo
lugar (o segundo estado mais violento, à frente somente de Alagoas) para
passarmos a ocupar uma posição intermediária. Mas, desde o segundo governo de
Casagrande, estagnamos nesse ranking dos estados.
O Espírito Santo tem melhorado muito seus próprios resultados,
reduzindo os homicídios ano a ano? Sem dúvida. Mas quase todos os outros
estados também estão em trajetória de queda – em alguns casos, ainda mais
forte. Daí a “estagnação” quando se entra numa análise relativa.
Resumindo: quando se comparam os resultados do ES com seus
próprios resultados ao longo do tempo, a trajetória é muito boa: queda consistente
da taxa de homicídios dolosos e mortes violentas intencionais. É um argumento
irrefutável para Ricardo. Mas, quando se compara o resultado capixaba com os de
outros estados, os adversários do governador realmente têm um argumento.
Em 2012, quando começou a série do Anuário de Segurança
Pública, o ES era o segundo estado mais violento, ganhando só de Alagoas. Hoje, estamos literalmente “no meio
da tabela” (para um lado ou para o outro): 14º lugar. Em 2025 (dado mais recente),
fomos o 14º estado mais violento, ou menos violento, do país.
Traduzindo para o futebolês, há cerca de 15 anos, estávamos
rebaixados para a Série B no “Campeonato Brasileiro da Segurança”. Hoje,
estamos ali brigando por uma vaga na Copa Sulamericana.
A seguir, passamos a detalhar os dados da violência no
Estado que provam todas as nossas conclusões, começando pelo “copo meio cheio”.
AS BOAS NOTÍCIAS
A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp)
contabiliza os homicídios dolosos (aqueles cometidos com a intenção de matar),
incluindo feminicídios, desde 1996. Em 2009, segundo governo Paulo Hartung, o
Estado atingiu o pior momento da série histórica. Chegou à incrível marca de
2034 homicídios naquele ano.
Em números relativos, foram 58,3 assassinatos para cada 100 mil
habitantes. A situação só não era pior que a do estado de Alagoas. Desde então,
esses números entraram em trajetória decrescente, com um “repique” em 2017.
No ano da greve da PMES, o Espírito Santo registrou 1407
homicídios dolosos, com 35,1 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes. No
ano seguinte, Casagrande foi eleito para voltar ao Palácio Anchieta.
De 2020 para cá, os números só têm caído ano após ano. Em
2020, foram 1107 homicídios dolosos, ou 27,2 por 100 mil habitantes.
Em 2024, o Estado registrou a até então melhor marca da
série histórica: 857 homicídios dolosos, ou 20,7 por 100 mil habitantes.
No ano passado (não incluído no gráfico acima), novo recorde positivo: 797 homicídios, ou
19,3 por 100 mil habitantes.
A outra excelente notícia é que, ao que tudo indica, pela
trajetória da curva até agora, o recorde será novamente quebrado neste ano, ou
seja, o Espírito Santo tem tudo para estabelecer a nova melhor marca da série
histórica iniciada em 1996.
Até o dia 15 de setembro, véspera da escrita deste texto, haviam sido praticados 489 homicídios dolosos no Espírito Santo. Em 2025, até o mesmo dia do ano, foram cometidos 552.
A queda parcial é de 11,4%.
Os dados da Sesp revelam que essa diminuição vem se dando mês a
mês. Somente em janeiro o resultado foi pior que no mesmo mês do ano passado.
De fevereiro a agosto, todos os meses tiveram empate ou redução.
Os bons resultados também valem, especificamente, para a
Região Metropolitana, onde se concentra metade da população capixaba. Em 2008,
a região alcançou o ápice de 1343 homicídios dolosos (muito mais que em todo o território
capixaba em 2025, por exemplo).
No ano passado (não incluído no gráfico a seguir), a Região Metropolitana foi palco de 399
homicídios dolosos – melhor resultado da história também para a região.
E tudo indica que neste ano o recorde, mais uma vez, será
pulverizado.
No ano passado (o melhor da série histórica), até o dia 15
de setembro, 281 homicídios dolosos haviam sido cometidos na Região
Metropolitana. Até a mesma data, na última terça-feira (15), foram 222. A queda
parcial é de 21%.
A melhoria também é observada, especificamente, na Capital.
Após alguns anos de refluxo (chegou a ser palco de 85 assassinatos em 2023), a
taxa de homicídios em Vitória caiu vertiginosamente nos últimos dois anos:
Em 2024, foram 56. Em 2025, apenas 36.
Portanto, o índice caiu a menos da metade num intervalo de
dois anos.
E o resultado também pode ser ainda melhor neste ano. No ano
passado, até 15 de setembro, foram praticados 28 homicídios dolosos na Capital.
Até a mesma data neste ano, foram registrados 21.
AS NOTÍCIAS NÃO TÃO
BOAS...
Como explicamos acima, a análise comparada com outros
estados é que não é tão favorável para o Espírito Santo. Se é certo que aqui
estamos melhorando, outros também estão, e alguns deles em ritmo até mais
acelerado.
Além disso, apesar de toda a evolução nos últimos anos, é
fato que o Espírito Santo ainda tem uma taxa de mortes violentas intencionais
por 100 mil habitantes acima da média nacional e muito superior à média da
Região Sudeste (onde hoje só ganhamos, por pouco, do Rio de Janeiro, mas perdemos
feio para Minas Gerais e, principalmente, para São Paulo).
A base para tais conclusões é o Anuário de Segurança
Pública, elaborado pelo Fórum Nacional de Segurança Pública. A última edição,
com ano-base 2025, foi publicada em agosto deste ano, pouco antes do período
oficial de campanha.
A categoria “mortes violentas intencionais”, adotada no
estudo (e diferente da usada pela Sesp), corresponde à soma das vítimas de
homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes
decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora.
No ranking nacional dos estados, o Espírito Santo ocupa a
14ª colocação (rigorosamente, no meio da tabela).
A série foi inaugurada em 2012, quando Casagrande estava em
seu primeiro governo. Naquele ano, o Espírito Santo ocupava o 26º lugar (o
segundo pior), com 46,7 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.
Em 2018, quando Casagrande se elegeu pela segunda vez, o
Estado já estava na 13ª melhor posição do ranking, com 30,1 mortes violentas
intencionais por 100 mil habitantes.
Quando Casagrande se reelegeu para o terceiro mandato, em
2022, tendo Ricardo Ferraço como vice, o Espírito Santo fechou o ano com 27,8
mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Caiu para o 14º lugar.
Em 2025, registramos nossa melhor marca histórica (22,0),
mas seguimos na 14ª colocação.
Não deixa de ser frustrante, sobretudo se recordarmos uma
promessa de campanha feita por Casagrande em meio à sua dificílima reeleição em
2022: a de que, se reeleito, entregaria o Espírito Santo, ao fim de seu
terceiro governo, entre os “cinco estados mais seguros do país”.
Como dissemos, a maioria dos outros estados também melhorou
os próprios resultados no período. Hoje, pelo ranking do Anuário de Segurança,
a 5ª melhor posição é ocupada por nossa vizinha Minas Gerais, com 12,9 mortes violentas
intencionais por 100 mil habitantes em 2025.
Portanto, para alcançar o top
five, o Espírito Santo deveria ter chegado a 12,9 mortes violentas
intencionais por 100 mil habitantes em 2025 – bem menos que as 22,0
efetivamente registradas.
Casagrande, assim, passou longe de cumprir essa promessa –
por mais, repito, que tenhamos melhorado no período... Faltou combinar com os
russos.
PARA SER JUSTO...
Aqui buscamos apresentar dados que embasam os pontos de
vista da situação e da oposição na disputa pelo Palácio Anchieta. Acredito,
porém, que, como analista, estaria sendo injusto se não dissesse o seguinte:
No quadro geral, parece-me evidente que o conjunto de “boas
notícias”, na matéria aqui analisada, supera com folga o de “notícias não tão boas”.
Um governo estadual só pode responder por seus próprios resultados.
Se, no mesmo período, outras unidades da federação também alcançaram um bom
desempenho, felicitações para elas. Mas o Governo do Estado do Espírito Santo
precisava se preocupar em melhorar o seu próprio desempenho – e os números e gráficos
me parecem comprovar, inequivocamente, que a trajetória é positiva nesse
sentido.
Se o Espírito Santo, nos últimos anos, tivesse piorado seus próprios
resultados (mais homicídios), mas os outros estados tivessem piorado ainda mais
(ainda mais homicídios), ganharíamos posições no ranking geral. Mas seria uma “boa
notícia”?
O grande erro nesta história, na minha avaliação, foi
Casagrande, em meio a uma campanha difícil em 2022, ter tirado da cartola a mirabolante
promessa de deixar o nosso estado entre os cinco mais seguros do país em tão
pouco tempo. À época, já se sabia que não era uma meta factível. Não passou de
uma promessa de campanha.
Ricardo parece ter tirado uma lição desse erro
estratégico. Na entrevista ao Gazeta Meio Dia, a apresentadora Rafaela Marquezini tentou
de todas as maneiras extrair do governador uma meta. Mas ele só se comprometeu
a seguir envidando todos os esforços para melhorar os números da segurança no
Espírito Santo:
“Não vou descansar um
dia da minha vida enquanto não fizermos do Espírito Santo um dos estados mais
seguros do Brasil”.
Bem, já é alguma coisa...
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