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Vitor Vogas

Violência no Espírito Santo: as boas e as más notícias na guerra eleitoral de narrativas

Os números reais que mostram quem está certo na batalha de argumentos (ou onde cada um tem razão...). Apresentamos o copo meio cheio e o copo meio vazio quando se trata de segurança pública e redução de homicídios no ES

Publicado em 17 de Setembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

17 set 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

No sentido horário: Ricardo Ferraço, Lorenzo Pazolini, soldados da PMES e Casagrande dentro de uma viatura  Fotomontagem

A violência urbana é o tema que mais preocupa hoje o eleitorado brasileiro em geral. Os capixabas não fogem à regra. Como não poderia deixar de ser, o tema está pautando boa parte do debate eleitoral sobre o Governo do Espírito Santo. O governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Rep) podem até estar a evitar “brigalhada ideológica”... mas estão a se digladiar no campo da “numeralha estatística”.


Dados sobre a violência não faltam. Mas o que é que eles nos dizem? Dependendo das lentes de quem vê e do recorte que se queira dar, os números podem ser muito positivos para o atual governo (e para a população capixaba em geral), ou não tão favoráveis assim. É a clássica situação do “copo meio cheio” ou “meio vazio”.  


Uma frase de Pazolini, em entrevista ao telejornal Gazeta Meio Dia, da TV Gazeta, na última terça-feira (15), resume a situação, do ponto de vista dele: “Que bom que melhorou! Mas nós temos que melhorar muito mais”.


Já uma afirmação feita por Ricardo na véspera, em sua sabatina no mesmo telejornal, condensa a ótica dele: “Olhando em perspectiva, não para a fotografia, mas para o filme, acho que estamos no caminho certo”.


A seu modo, os dois têm a sua razão.


É fato: quando comparamos os principais indicadores do Espírito Santo (homicídios dolosos, mortes violentas intencionais) com outras unidades da federação, ainda estamos longe de ocupar as melhores posições do ranking e de figurar entre os “estados mais seguros do país”. Esse é o copo meio vazio.


Por outro lado, é inegável que tem havido melhoria paulatina nas taxas do Espírito Santo ao longo do tempo, de 2011 para cá. Desde o primeiro governo Casagrande, todos os números, das mais diversas fontes, confirmam a evolução contínua do Espírito Santo nesse aspecto, com uma progressiva redução da taxa de assassinatos em território capixaba – queda essa intensificada nos últimos oito anos. Esse é o copo meio cheio.

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Quando inserimos os resultados do Espírito Santo no contexto nacional, comparando-o com outros estados, melhoramos algumas posições no ranking da violência desde o início da década passada. Saímos do penúltimo lugar (o segundo estado mais violento, à frente somente de Alagoas) para passarmos a ocupar uma posição intermediária. Mas, desde o segundo governo de Casagrande, estagnamos nesse ranking dos estados.


O Espírito Santo tem melhorado muito seus próprios resultados, reduzindo os homicídios ano a ano? Sem dúvida. Mas quase todos os outros estados também estão em trajetória de queda – em alguns casos, ainda mais forte. Daí a “estagnação” quando se entra numa análise relativa.


Resumindo: quando se comparam os resultados do ES com seus próprios resultados ao longo do tempo, a trajetória é muito boa: queda consistente da taxa de homicídios dolosos e mortes violentas intencionais. É um argumento irrefutável para Ricardo. Mas, quando se compara o resultado capixaba com os de outros estados, os adversários do governador realmente têm um argumento.


Em 2012, quando começou a série do Anuário de Segurança Pública, o ES era o segundo estado mais violento, ganhando só de Alagoas. Hoje, estamos literalmente “no meio da tabela” (para um lado ou para o outro): 14º lugar. Em 2025 (dado mais recente), fomos o 14º estado mais violento, ou menos violento, do país.


Traduzindo para o futebolês, há cerca de 15 anos, estávamos rebaixados para a Série B no “Campeonato Brasileiro da Segurança”. Hoje, estamos ali brigando por uma vaga na Copa Sulamericana.


A seguir, passamos a detalhar os dados da violência no Estado que provam todas as nossas conclusões, começando pelo “copo meio cheio”. 

AS BOAS NOTÍCIAS

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) contabiliza os homicídios dolosos (aqueles cometidos com a intenção de matar), incluindo feminicídios, desde 1996. Em 2009, segundo governo Paulo Hartung, o Estado atingiu o pior momento da série histórica. Chegou à incrível marca de 2034 homicídios naquele ano.


Em números relativos, foram 58,3 assassinatos para cada 100 mil habitantes. A situação só não era pior que a do estado de Alagoas. Desde então, esses números entraram em trajetória decrescente, com um “repique” em 2017. 

Homicídios Dolosos e Feminicídios no ES (série histórica em números absolutos) Fonte: Sesp

No ano da greve da PMES, o Espírito Santo registrou 1407 homicídios dolosos, com 35,1 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes. No ano seguinte, Casagrande foi eleito para voltar ao Palácio Anchieta.


De 2020 para cá, os números só têm caído ano após ano. Em 2020, foram 1107 homicídios dolosos, ou 27,2 por 100 mil habitantes.


Em 2024, o Estado registrou a até então melhor marca da série histórica: 857 homicídios dolosos, ou 20,7 por 100 mil habitantes.


No ano passado (não incluído no gráfico acima), novo recorde positivo: 797 homicídios, ou 19,3 por 100 mil habitantes

Homicídios Dolosos e Feminicídios no ES (série histórica em números relativos: taxa por 100 mil habitantes) Fonte: Sesp

A outra excelente notícia é que, ao que tudo indica, pela trajetória da curva até agora, o recorde será novamente quebrado neste ano, ou seja, o Espírito Santo tem tudo para estabelecer a nova melhor marca da série histórica iniciada em 1996.


Até o dia 15 de setembro, véspera da escrita deste texto, haviam sido praticados 489 homicídios dolosos no Espírito Santo. Em 2025, até o mesmo dia do ano, foram cometidos 552.


A queda parcial é de 11,4%

Evolução da taxa parcial de homicídios em 2026 (ES) Fonte: Sesp

Os dados da Sesp revelam que essa diminuição vem se dando mês a mês. Somente em janeiro o resultado foi pior que no mesmo mês do ano passado. De fevereiro a agosto, todos os meses tiveram empate ou redução. 

Evolução da taxa parcial de homicídios em 2026 (mês a mês) Fonte: Sesp

Os bons resultados também valem, especificamente, para a Região Metropolitana, onde se concentra metade da população capixaba. Em 2008, a região alcançou o ápice de 1343 homicídios dolosos (muito mais que em todo o território capixaba em 2025, por exemplo).


No ano passado (não incluído no gráfico a seguir), a Região Metropolitana foi palco de 399 homicídios dolosos – melhor resultado da história também para a região. 

Homicídios Dolosos e Feminicídios na Região Metropolitana do ES (série histórica em números absolutos)
Homicídios Dolosos e Feminicídios na Região Metropolitana do ES (série histórica em números absolutos) Fonte: Sesp

E tudo indica que neste ano o recorde, mais uma vez, será pulverizado.


No ano passado (o melhor da série histórica), até o dia 15 de setembro, 281 homicídios dolosos haviam sido cometidos na Região Metropolitana. Até a mesma data, na última terça-feira (15), foram 222. A queda parcial é de 21%

Evolução da taxa parcial de homicídios em 2026 (Região Metropolitana) Fonte: Sesp

A melhoria também é observada, especificamente, na Capital. Após alguns anos de refluxo (chegou a ser palco de 85 assassinatos em 2023), a taxa de homicídios em Vitória caiu vertiginosamente nos últimos dois anos:


Em 2024, foram 56. Em 2025, apenas 36.


Portanto, o índice caiu a menos da metade num intervalo de dois anos.


E o resultado também pode ser ainda melhor neste ano. No ano passado, até 15 de setembro, foram praticados 28 homicídios dolosos na Capital. Até a mesma data neste ano, foram registrados 21

AS NOTÍCIAS NÃO TÃO BOAS... 

Como explicamos acima, a análise comparada com outros estados é que não é tão favorável para o Espírito Santo. Se é certo que aqui estamos melhorando, outros também estão, e alguns deles em ritmo até mais acelerado.


Além disso, apesar de toda a evolução nos últimos anos, é fato que o Espírito Santo ainda tem uma taxa de mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes acima da média nacional e muito superior à média da Região Sudeste (onde hoje só ganhamos, por pouco, do Rio de Janeiro, mas perdemos feio para Minas Gerais e, principalmente, para São Paulo).


A base para tais conclusões é o Anuário de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Nacional de Segurança Pública. A última edição, com ano-base 2025, foi publicada em agosto deste ano, pouco antes do período oficial de campanha.


A categoria “mortes violentas intencionais”, adotada no estudo (e diferente da usada pela Sesp), corresponde à soma das vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora.


No ranking nacional dos estados, o Espírito Santo ocupa a 14ª colocação (rigorosamente, no meio da tabela). 

A série foi inaugurada em 2012, quando Casagrande estava em seu primeiro governo. Naquele ano, o Espírito Santo ocupava o 26º lugar (o segundo pior), com 46,7 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.


Em 2018, quando Casagrande se elegeu pela segunda vez, o Estado já estava na 13ª melhor posição do ranking, com 30,1 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.


Quando Casagrande se reelegeu para o terceiro mandato, em 2022, tendo Ricardo Ferraço como vice, o Espírito Santo fechou o ano com 27,8 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Caiu para o 14º lugar.


Em 2025, registramos nossa melhor marca histórica (22,0), mas seguimos na 14ª colocação.


Não deixa de ser frustrante, sobretudo se recordarmos uma promessa de campanha feita por Casagrande em meio à sua dificílima reeleição em 2022: a de que, se reeleito, entregaria o Espírito Santo, ao fim de seu terceiro governo, entre os “cinco estados mais seguros do país”.


Como dissemos, a maioria dos outros estados também melhorou os próprios resultados no período. Hoje, pelo ranking do Anuário de Segurança, a 5ª melhor posição é ocupada por nossa vizinha Minas Gerais, com 12,9 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025.


Portanto, para alcançar o top five, o Espírito Santo deveria ter chegado a 12,9 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025 – bem menos que as 22,0 efetivamente registradas.


Casagrande, assim, passou longe de cumprir essa promessa – por mais, repito, que tenhamos melhorado no período... Faltou combinar com os russos. 

PARA SER JUSTO...

Aqui buscamos apresentar dados que embasam os pontos de vista da situação e da oposição na disputa pelo Palácio Anchieta. Acredito, porém, que, como analista, estaria sendo injusto se não dissesse o seguinte:


No quadro geral, parece-me evidente que o conjunto de “boas notícias”, na matéria aqui analisada, supera com folga o de “notícias não tão boas”.


Um governo estadual só pode responder por seus próprios resultados. Se, no mesmo período, outras unidades da federação também alcançaram um bom desempenho, felicitações para elas. Mas o Governo do Estado do Espírito Santo precisava se preocupar em melhorar o seu próprio desempenho – e os números e gráficos me parecem comprovar, inequivocamente, que a trajetória é positiva nesse sentido.


Se o Espírito Santo, nos últimos anos, tivesse piorado seus próprios resultados (mais homicídios), mas os outros estados tivessem piorado ainda mais (ainda mais homicídios), ganharíamos posições no ranking geral. Mas seria uma “boa notícia”?


O grande erro nesta história, na minha avaliação, foi Casagrande, em meio a uma campanha difícil em 2022, ter tirado da cartola a mirabolante promessa de deixar o nosso estado entre os cinco mais seguros do país em tão pouco tempo. À época, já se sabia que não era uma meta factível. Não passou de uma promessa de campanha.


Ricardo parece ter tirado uma lição desse erro estratégico. Na entrevista ao Gazeta Meio Dia, a apresentadora Rafaela Marquezini tentou de todas as maneiras extrair do governador uma meta. Mas ele só se comprometeu a seguir envidando todos os esforços para melhorar os números da segurança no Espírito Santo:

“Não vou descansar um dia da minha vida enquanto não fizermos do Espírito Santo um dos estados mais seguros do Brasil”.

Bem, já é alguma coisa...

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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