Na estreia da série de sabatinas de A Gazeta e CBN Vitória
com os candidatos a governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) trocou
o mármore de sua Cachoeiro pela pedra-sabão. Veio bem ensaboado para a
entrevista, sem responder de forma mais efetiva a nenhuma pergunta relacionada a suas posições ideológicas pessoais. Nem se ele é centro, direita ou
centro-direita, Ricardo quis responder...
Ontem, foi a vez de Pazolini besuntar o próprio corpo com o
óleo de Lorenzo (não aquele do filme) antes de ingressar no auditório da Rede
Gazeta. Em alguns momentos, o ex-prefeito foi escorregadio, sobretudo ao ser
“chamado” a abraçar por completo o bolsonarismo. Cauteloso, preferiu não o
fazer.
Compreensível: seria reduzir a si mesmo a um rótulo e se isolar
em um corner extremo. É tudo o que
ele não quer e não precisa neste momento em que precisa se tornar mais
conhecido e expandir seu eleitorado, inclusive entre eleitores independentes,
de centro-direita e de direita não bolsonarista.
Apoiado pelo PL e por Flávio Bolsonaro, Pazolini teve a
oportunidade de se declarar bolsonarista, logo no início da sabatina. Não o
fez. Minha pergunta a ele foi direta: o senhor se considera um “bolsonarista”?
Ele poderia ter dito sim ou não. Não fez nem uma coisa nem outra.
Definindo a própria gestão na Prefeitura de Vitória como de
centro-direita (e colocando-se, portanto, nesse campo), o candidato do
Republicanos fez diversos acenos muito claros ao eleitorado mais engajado da
família Bolsonaro. Ao mesmo tempo, assumiu discurso e posições bem mais
contidas que as de Jair Bolsonaro, Flávio e Magno Malta, representante maior do
bolsonarismo em solo capixaba, presidente estadual do PL e, nessa disputa
local, apoiador e aliado do ex-prefeito.
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Pazolini buscou se apresentar como o candidato a governador
moderado do pretenso “Bolsonaro mais moderado” com quem trocou um abraço físico
e, simbolicamente, político no dia 18 de julho, em Vitória. Abraçou Flávio,
sim, mas não o bolsonarismo por inteiro – vale dizer: não toda a ideologia de
extrema-direita representada pelo Bolsonaro pai, da qual o filho 01 é herdeiro
e representante na presente eleição presidencial.
Se houvesse uma escala de 0 a 10 de “radicalidade
bolsonarista”, poderíamos dizer que Pazolini se manteve ali, num índice
mediano, de 5 a 6. Isso ficou evidente, por exemplo, quando ele mesmo fez
questão de ponderar que mantém opiniões discordantes daquelas mantidas por
aliados eleitorais. Foi quase uma ode à diversidade de pensamento:
“Sou sempre alguém a favor da boa gestão. Naturalmente, eu
aprendi a conviver com as diferenças na vida. Aprendi a entender as
características de cada um. E, para caminhar ao lado das pessoas, nós não precisamos
ter exatamente as mesmas opiniões sobre tudo. Imagina o mundo, como seria ruim,
se todos tivessem que gostar das mesmas cosias, ter a mesma opinião. Nós
acreditamos muito no diálogo, no debate propositivo. Temos a nossa gestão, que
é de centro-direita, que fez um resultado na cidade. E nós temos que nos
aproximar daquilo que está mais próximo a nós”.
Pegando esse gancho do ex-prefeito, propusemos-lhe um
ligeiro “pingue-pongue”: pedimos a ele para se posicionar, de maneira direta e
objetiva, sobre algumas das premissas inegociáveis da “cartilha bolsonarista” –
aquilo em que todo “bolsonarista raiz” acredita de maneira incondicional. Concorda
ou discorda? Por quê?
Cada resposta de Pazolini foi ilustrativa do que estamos buscando
aqui frisar: sua disposição em se manter num meio-termo, no meio do caminho
entre uma posição radicalmente bolsonarista (inteiramente de acordo com tais
premissas) e outra francamente divergente.
Mesmo quando a discordância se mostrou evidente, como no
caso das teorias conspiratórias sobre as urnas, ele procurou suavizá-la,
escolhendo bem as palavras, em vez de a manifestar de forma explícita. Podia
simplesmente ter dito “Discordo. Confio nas urnas. Próxima!”
Em vez disso, sem conjugar o verbo “discordar”, preferiu
responder com seu exemplo:
O que eu posso afiançar é que, a partir do momento em que eu fui
eleito pelas urnas três vezes, naturalmente ela deve ter algum grau de
confiança, e é isso que eu acredito.
Lorenzo Pazolini (Rep), ex-prefeito de Vitória e candidato a governador do ES
E olha que nem lhe perguntamos sobre cloroquina e vacinação!
Em outras situações, deu-se o contrário. Pazolini, por
exemplo, deu a entender que concorda com a premissa de que não houve tentativa
de golpe de Estado (por parte de Jair Bolsonaro e dos participantes do 8 de
setembro), mas não chegou a dizê-lo com todas as letras.
Em vez disso, disse que concorda com as punições pelo crime
de dano qualificado ao patrimônio público (aos manifestantes na linha de frente),
mas que houve “excessos” na dosimetria das penas definidas pelo STF. Um
meio-termo, pendendo mais para a tese bolsonarista, mas sem radicalizar na
resposta... sem defender, por exemplo, uma “anistia geral”. De novo: buscando exprimir
uma posição de equilíbrio e moderação.
Assim também ao ser questionado especificamente sobre
Alexandre de Moraes. Em momento algum Pazolini disse concordar que o ministro
deva ser cassado pelo Senado por crime de responsabilidade, “impeachment já” ou
algo que o valha... Mas não deixou de registrar algumas sérias ressalvas ao
comportamento de Moraes como julgador, avaliando que ele acumulou poderes e extrapolou,
sim, suas competências delimitadas pela Carta Magna.
“A Constituição de 1988 teve a sabedoria de separar as
atribuições e competências de cada instituição. Quando uma instituição
investiga, acusa, pune e ainda acompanha o cumprimento da execução penal, me
parece que tem algo de errado. Então, essa luz precisa ser acesa na mente das
pessoas para levar a uma reflexão. O Estado Democrático de Direito não prevê
esse tipo de conduta.”
Questionado diretamente sobre o possível impeachment do
ministro, ele ressaltou que a atribuição para fazer essa avaliação é do Senado,
mas que esta precisa mesmo ser feita, até porque “a maioria da opinião pública
brasileira já se expressou que houve um excesso”.
“Se eventualmente alguém foi além da sua função, além da sua
atribuição, além do que deveria fazer, naturalmente tem que existir uma sanção,
tem que existir uma pena, até porque, independentemente do cargo que você
ocupa, nós temos um sistema de freios e contrapesos, e o Senado Federal existe
para equilibrar os Poderes da nação.”
O ex-prefeito, enfim, buscou sempre se equilibrar sobre esse
estreito muro da ponderação e da autocontenção... o que também despontou
daquela sua primeira resposta sobre ser ou não “bolsonarista”. Sem excluir
eventuais “diferenças” de opinião, ele fez questão de salientar: o projeto
nacional representado hoje por Flávio está mais “próximo” do que ele acredita.
Vale reproduzir aqui:
“Se você olhar o projeto nacional, nós estamos mais próximos
ao projeto que o Flávio Bolsonaro acredita do que o outro candidato,
respeitando todos os candidatos. Mas o que nós acreditamos está mais próximo
desse núcleo. E é exatamente esse núcleo que nós vamos trazer para o Espírito
Santo, como já fizemos em Vitória, com muita racionalidade, com razão, com base
em evidência. A gestão de Vitória deu certo porque ela se baseou em evidência,
se baseou em estudo, se baseou em técnica. É isso que nós acreditamos”.
Ele encerrou opinando que Flávio tem demonstrado, na
campanha, “uma posição muito equilibrada sobre temas nacionais” (olha aí o tal
“Bolsonaro moderado”...):
“Essa discussão às vezes se torna pueril, estéril, e acaba
não transformando a vida das pessoas. Mas é claro: nós nos aproximamos mais do
projeto do PL, do projeto do Flávio Bolsonaro. Não quer dizer que todos tenham
que concordar. E o próprio Flávio hoje tem demonstrado, nessa campanha, uma
posição muito equilibrada sobre temas nacionais, mostrando o que ele acredita
de forma muito racional. E é disso que nosso Brasil precisa: vencer essa
brigalhada, vencer esse conjunto de discussões que às vezes não estão mudando a
vida das pessoas, para que nós possamos de fato melhorar a vida de quem
precisa, colocar comida na mesa”.
A mesma inclinação ao “equilíbrio” despontou, ainda, da
primeira resposta de Pazolini na entrevista, à pergunta da minha colega Letícia
Gonçalves: questionado se o PL e, especificamente, Magno Malta terão influência
em seu eventual governo (como tiveram na composição de sua chapa), ocupando e
indicando ocupantes de secretarias de Estado, o candidato do Republicanos abriu
o leque: disse que, uma vez eleito, vai querer governar com todos – o que
inclui os demais, mas não exclui o PL...
Ou seja, também vai governar com o PL, mas não somente com a
sigla de Magno.
“Vamos convidar todos os partidos para o projeto de um novo
Espírito Santo.”
Foi um jeito de se mostrar democrático e dialógico, sem
admitir necessariamente qualquer compromisso com Magno, mas, ao mesmo tempo,
sem excluir possível participação do PL e até eventuais indicações do senador
em seu governo, caso triunfe nas urnas.
É o “custo Magno”. Aí haja “moderação” para moderar o apetite do senador, ou “contenção” para contê-lo...
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