Altamente cobiçada por razões que vão até a eventual sucessão de Ricardo Ferraço (MDB) em 2030, a
vaga de candidato a vice na chapa do atual governador virou objeto de intensa
disputa entre aliados na reta final da “pré-campanha”.
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Muitos nomes já foram apresentados ou especulados, e há
outros partidos interessados. O Podemos,
por exemplo (um dos primeiros a embarcar na arca de Ricardo), ofereceu uma
relação de nomes. E até Arnaldinho Borgo (um dos últimos a embarcarem) manifestou interesse em indicar alguém do PSDB.
Isso é fumaça.
Objetivamente, podemos afirmar que, a esta altura do
processo, a disputa real é mais restrita, e a escolha de Ricardo se reduz a
duas opções: ou ele contempla a União Progressista, ungindo um dos quadros apresentados
pela federação, ou convida o ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) para a missão.
Este é o cabo de guerra que está sendo travado, no momento,
no quintal da casa do governador (ou em frente ao Palácio Anchieta): de um
lado, a União Progressista, dona de um poderio eleitoral sem par e representada
no Espírito Santo pelos deputados Da Vitória (PP) e Marcelo Santos (União); do
outro, um conjunto de aliados ferracistas que apoiam fortemente a indicação de
Vidigal.
O movimento de aliados em defesa do nome do pedetista é mais
que um blefe. É um fato. As caras do movimento são Euclério Sampaio, simplesmente
o presidente estadual do MDB de Ricardo, e, principalmente, Enivaldo dos Anjos
(PSB), que já defenderam publicamente Vidigal como companheiro de chapa de
Ricardo.
Mas há mais gente na arca governista – até mais importante e
influente – encampando essa tese e aconselhando Ricardo nesse sentido. O
próprio ex-prefeito da Serra repete, reitera e reafirma que não quer ser
candidato. Mas, se ele realmente não quer, está sendo “querido” por outros.
Nesse contexto, a pergunta que se impõe é: por que Sérgio
Vidigal? Por que o nome dele ganhou força nos últimos dias, a ponto de ameaçar
as pretensões da União Progressista? O que ele acrescentaria à chapa e à
campanha de Ricardo que só ele poderia oferecer?
Simplifiquemos a resposta. Em uma palavra: votos.
Na perspectiva mais pragmática possível – verbalizada por Enivaldo dos Anjos, em entrevista à coluna –, Vidigal possui o ativo mais importante em qualquer
disputa democrática: densidade eleitoral.
Um ano e meio após ter encerrado seu quarto governo, o
pedetista seguramente mantém elevado recall
político na Serra, o maior colégio eleitoral do Espírito Santo. Será um reduto
essencial para as pretensões de qualquer candidato a governador, Ricardo
incluído.
Mesmo com vantagem nas pesquisas da série da Quaest, a máquina estadual nas mãos, uma legião de apoiadores consideravelmente
maior que a de qualquer oponente e o apoio pessoal de Casagrande, a eleição
está longe de estar dada para Ricardo Ferraço. Ao contrário: tende a ser uma
batalha duríssima. Particularmente, a disputa com Lorenzo Pazolini promete ser
dificílima, com um desfecho imprevisível.
Nesse contexto, qualquer voto conta. E Vidigal, ao lado de
Ricardo – ou um passinho atrás dele no material de campanha –, é alguém que tem
o poder de fazer uma diferença real em seu reduto – de novo: o maior
colégio eleitoral do Espírito Santo.
Uma coisa, por exemplo, é ganhar com 55% dos votos válidos em Ponto Belo. Outra, proporcionalmente bem maior, é alcançar 55% dos votos válidos na Serra. Estamos falando de dezenas de milhares de votos, os quais, numa chegada acirrada, podem ser decisivos.
E quanto aos nomes da
federação?
Enquanto Vidigal, potencialmente, agrega votos à campanha de
Ricardo, o que se pode dizer dos nomes apresentados pela Federação União
Progressista? Aí é que está: são praticamente desconhecidos do eleitorado e
agregariam muito pouco, em termos práticos, à campanha de Ricardo, na visão de
quem defende Vidigal.
Entre aliados do governador, ok, ninguém discute o tamanho e
a importância da União Progressista e tudo o que ela soma à campanha de
Ricardo, em matéria de recursos e tempo de propaganda de TV e rádio (algo que
certamente segue sendo fundamental, sobretudo no interior e na periferia da
Grande Vitória). Em 2022, PP e União Brasil, somados, elegeram mais de 100
deputados federais pelo país. O PDT elegeu 17.
Por esse ângulo, ninguém questiona que a federação, a priori,
teria mesmo a “preferência” para emplacar o companheiro ou companheira de chapa
de Ricardo... se tivesse nomes à altura da missão, com musculatura política
compatível com o espaço almejado.
Nomes como os da Capitã Andresa (PP), Amaro Neto (PP), Messias Donato (União) e os próprios Marcelo Santos (União) e Da Vitória (PP) chegaram a ser cogitados ao longo dos últimos meses.
Mas todos fazem parte da
chapa da federação para a Câmara dos Deputados, e a direção do partido não
deseja desfalcá-la, para não reduzir as próprias chances de eleger pelo menos
dois federais. Vamos riscá-los, então.
Quem é que sobra?
Joelma Costalonga
Sobram outros três quadros da federação. Pelo lado da União
Brasil, foi oficialmente indicada Joelma Costalonga, aliada fiel de Marcelo
Santos. É uma completa desconhecida do eleitorado capixaba. Pela lógica da
complementariedade (buscar no/a vice um “perfil complementar”, com traços
diferentes do titular), Joelma obviamente tem a seu favor o fato de ser mulher.
Mas podemos parar por aí.
À frente do projeto Arranjos Produtivos, da Assembleia, ela
é mais conhecida entre prefeitos e líderes políticos do interior... Ricardo já
é forte nesse meio. Entre seus aliados, é quase consenso que seu vice precisa
ser da Grande Vitória – até para balancear a luta com Pazolini na Região
Metropolitana.
Pode não ser um arranjo político tão produtivo para ele.
Rodolfo Mai e Camillo
Neves
Além de Joelma, há dois nomes apresentados pelo PP. Um deles
é Rodolfo Mai, empresário de Guarapari. É mais um absoluto “quem?” para a massa
de eleitores.
O outro é Camillo Neves, jogador de futebol de areia e
vereador de Vitória. Cumprindo o segundo ano do seu primeiro mandato, ele mal
inaugurou sua trajetória política. Fora da Capital, também é pouquíssimo
conhecido pelo eleitorado capixaba.
Camillo tem a seu favor o fato de ser muito próximo a Da
Vitória. Para alguns, por ser da Capital e ter se tornado um crítico da
administração Pazolini/Samorini, ele poderia desempenhar o papel de “bater” no
ex-prefeito de Vitória (ou rebatê-lo), poupando Ricardo de cumprir esse papel
que não raro soa antipático para a população e pode se voltar contra o
candidato.
Por aquela lógica da complementariedade, com 34 anos, pouco mais da metade da idade
de Ricardo, Camillo também “rejuvenesce” a chapa do sexagenário candidato.
A disparidade prática
Todavia, se somarmos o capital político de Joelma, Rodolfo e Camillo, qual é o “tamanho” deles na comparação com Vidigal? Esse é o ponto, muito prático, destacado pelos defensores do ex-prefeito da Serra.
Considerando os perfis, a ideia de “complementariedade”
iria para o espaço com Vidigal na chapa de Ricardo: assim como o governador, ele
é um homem branco, sessentão e político da velha guarda. E, tal como Ricardo,
iniciou-se na vida pública nos anos 1980. Tem 69 anos, enquanto Ricardo tem 62.
“Envelhece” a chapa? Sim.
Mas, para quem defende Vidigal, nada disso supera o critério
mais importante: voto. E na Grande Vitória.
Decisão solitária
A decisão, no fim das contas, é solitária e intransferível:
compete exclusivamente a Ricardo Ferraço. É claro, como ele mesmo tem dito, que
o governador ouvirá parceiros e dirigentes dos partidos integrados à sua coligação.
Mas, como ele mesmo também já afirmou: “No fim do dia, quem vai decidir sou eu”.
Afinal, pelos próximos quatros anos, se ele conseguir vencer
em outubro, seu vice terá de ser alguém que lhe inspire a máxima confiança e
com quem ele nutra excelente relacionamento político e pessoal.
Vidigal pode ser essa pessoa? Pode. A relação entre eles é
ótima. São parceiros históricos.
Mas suponhamos que Ricardo se decida por Vidigal.
Obviamente, tal escolha desagradará com força à Federação União Progressista.
Como a contentar? Como a compensar?
Para aliados ferracistas que defendem a “solução Vidigal”, a
federação na verdade já está “mais que contemplada” na construção política de
Ricardo.
Contemplada porque foi graças à ajuda do governo e ao
empenho pessoal de Ricardo que a União Progressista manteve Bruno Resende e conseguiu filiar Messias
Donato e Amaro, em março, robustecendo sua chapa e suas chances de fazer dois ou
mais federais em outubro.
Contemplada porque, na montagem de seu secretariado, Ricardo
nomeou para a Sesport ninguém menos que Paulo Marcos Lemos. Servidor de
carreira da Assembleia desde 1994, ele era um dos homens de confiança de
Marcelo Santos na administração da Casa. Nos bastidores, foi indicação direta
de Marcelo, que passou a exercer influência na pasta.
De todo modo, Ricardo já acenou, muito sutilmente, com a
possibilidade de a União Progressista ocupar espaço(s) na alta cúpula de seu
próximo governo, em caso de vitória nas urnas. “A federação terá protagonismo
em minha campanha e em meu governo.”
O viés de
centro-esquerda de Vidigal
Não há que se discutir: ao longo das últimas décadas,
Vidigal estabeleceu-se como o cacique político do Partido Democrático
Trabalhista (PDT) no Espírito Santo. Sigla fundada por Leonel Brizola, o PDT é
um partido de centro-esquerda, que apoia Lula (PT) e seu governo.
Embora transite bem com líderes mais à direita (como
Ricardo), o próprio Vidigal pode ser definido como um político de
centro-esquerda. Para alguns, isso pode ser ruim para o governador.
Basta lembrarmos que, na última eleição municipal, o próprio
candidato de Vidigal, Weverson Meireles (PDT), evitou o rótulo de esquerda e
esnobou o apoio oferecido pelo PT da Serra.
Por outro lado, a ideia agrada a setores do PSB de Casagrande.
Seus defensores entendem que, justamente por ser mais de centro-esquerda,
Vidigal pode trazer “equilíbrio ideológico” à chapa de Ricardo, ajudando-o a
atrair votos de eleitores do centro para a esquerda, numa disputar direta com Pazolini
(agora, o candidato dos Bolsonaro no Espírito Santo).
Além disso, em eventual 2º turno contra Pazolini, a presença
de Vidigal na chapa poderia servir como uma “ponte” com as forças do centro
para a esquerda, incluindo o PT de Helder Salomão.
Weverson sem tanto appeal
Outro ponto a se levar em conta é que, até o momento,
Weverson Meireles e sua gestão ainda carecem de um “brilho próprio” na Serra.
No estratégico colégio eleitoral, Ricardo pode carecer de um
cabo eleitoral mais forte: o criador, não a criatura.
Mesmo sem lugar na chapa, Vidigal atuará como apoiador de
Ricardo... Mas, se ele for o vice de Ricardo, será mais fácil convencer “seus”
eleitores.
A sucessão em 2030
(em caso de vitória)
A solução “Vidigal na vice” também esbarra em resistências
de aliados de Ricardo por outro fator.
Se o governador vencer, o vice-governador eleito com ele passará automaticamente a ser um potencial candidato à sucessão de Ricardo, em 2030.
Muitos outros ferracistas estão de olho nessa posição... e, por isso mesmo, não gostariam de ver Vidigal tão bem posicionado, como o “primeirão da fila”. Seria um concorrente muito forte.
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