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Gestão

Quando a decisão chega tarde demais: o custo do endividamento

O avanço das dívidas de famílias e empresas mostra que reconhecer os sinais da crise antes do colapso pode fazer a diferença na hora de preservar alternativas

Publicado em 14 de Agosto de 2026 às 08:49

Públicado em 

14 ago 2026 às 08:49
Marcel Lima

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Marcel Lima Marcel Lima

marcelplima@gmail.com

O Brasil atingiu, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic): em abril, 80,9% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 


Do lado das empresas, o cenário não é menos alarmante. O Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 com mais de 5,9 mil empresas operando sob regime de recuperação judicial, uma alta de 21,5% em comparação ao ano anterior.


O número de empresas que saíram de processos de recuperação judicial para a decretação de falência está crescendo: o percentual saltou de 29% no segundo trimestre de 2025 para 37% no terceiro, segundo o Monitor RGF. 


Um dos principais motivos é o diagnóstico tardio. "Empresários adiam o pedido de socorro e chegam ao processo sem ativos livres para garantir dinheiro novo", explica especialista da RGF.  A resistência cultural em admitir a crise faz com que a busca pela proteção judicial ocorra tarde demais. Quando a empresa finalmente entra em recuperação, já está sem reservas financeiras e sem garantias a oferecer. Os bancos, por sua vez, negam novos créditos.

Endividamento, dívidas, contas, boletos
O endividamento pode se agravar quando a busca por uma solução é adiada e as alternativas financeiras ficam mais restritas Getty Images

Esse padrão não é exclusivo das empresas. 42% dos brasileiros que estão inadimplentes em 2026 já estavam nessa condição há dez anos, o equivalente a cerca de 34 milhões de pessoas. Além do aumento no número de inadimplentes, o valor total das dívidas cresceu 176% no período, enquanto a dívida média por consumidor avançou 12,2%, já considerando valores corrigidos pela inflação.


Juros elevados, crédito restrito e decisões empresariais adiadas são alguns dos fatores centrais para a explosão de pedidos de recuperação judicial registrada em 2025. Apenas as companhias que ingressaram com pedidos no último trimestre de 2025 somaram R$ 40 bilhões em passivos, mais que o dobro do valor registrado no trimestre anterior.


O fio que une consumidores endividados e empresas em recuperação judicial é o mesmo: a decisão chega depois que as opções já se esgotaram. Quem espera o problema explodir para agir perde justamente o que mais importa nesse momento, a margem de manobra. Reservas, garantias e linhas de crédito só existem enquanto ainda não são urgentes. Assim que a crise se instala, são as primeiras coisas a desaparecer. A lição que os números de 2026 deixam é direta: diagnosticar cedo, mesmo quando o sintoma ainda parece pequeno, é o que separa uma reestruturação bem-sucedida de um processo que termina em falência.

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Marcel Lima

Marcel Lima Marcel Lima

Sócio da Valor e membro do Ibef. Tem graduação e mestrado em Engenharia Mecânica pela Ufes com formação complementar na França pela École Nationale d'Ingénieurs de Metz - ENIM. Fez carreira no Corpo de Engenheiros da Marinha do Brasil até o posto de Capitão-Tenente.

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