O cenário empresarial brasileiro enfrenta um momento crítico: os pedidos de recuperação judicial cresceram 12,9% em 2025 em comparação com 20024 e atingiram o maior patamar desde 2012, segundo levantamento da Serasa Experian. O dado assusta, mas o que mais chama a atenção não é o número em si, e sim o que o antecede: em boa parte dos casos, a recuperação judicial é consequência de decisões mal tomadas muito antes.
Segundo o Sebrae, 48% das micro e pequenas empresas fecham as portas por problemas vinculados à falta de planejamento financeiro e ao descontrole de caixa, e a principal causa está justamente na deficiência no controle financeiro. Em um país com tamanha volatilidade de juros, a disciplina com as finanças se torna ainda mais importante.
É recorrente encontrar empresários que operam no escuro, sem saber exatamente se o negócio gera lucro ou prejuízo. Sem dados confiáveis, qualquer decisão passa a ser baseada em sensação, e não em estratégia.
Esse "operar no escuro" tem nome e endereço. O equivalente a 12,6 milhões de pequenas e médias empresas enfrentam dificuldades para controlar as finanças em tempo real, segundo o Panorama da Gestão de Despesas Corporativas realizado pela Conta Simples em parceria com a Visa. Além disso, embora o dinheiro entre e saia diariamente do caixa de 45% das empresas, a falta de visibilidade e previsibilidade sobre as finanças continua sendo um desafio. Quando o controle é feito apenas no fechamento do mês, o retrato financeiro já chega defasado, aumentando o risco de decisões baseadas em informações desatualizadas.
O problema, porém, vai além da falta de dados. Existe uma camada psicológica que agrava tudo. Vieses comportamentais como aversão à perda, excesso de confiança e o chamado custo afundado afetam decisões financeiras e geram impactos emocionais e cognitivos relevantes. O viés do custo afundado é especialmente destrutivo no ambiente de negócios: a pessoa continua investindo tempo, dinheiro ou energia em algo apenas porque já gastou demais, mesmo quando a melhor escolha seria parar. Projetos que deveriam ser encerrados seguem consumindo caixa por meses, às vezes anos, porque admitir o erro parece pior do que perpetuá-lo.
Quem quer abrir um novo negócio interpreta qualquer pequeno sinal como validação. Nas empresas, isso acontece frequentemente em lançamentos de produtos, expansões ou decisões financeiras tomadas mais pela empolgação do que pelos números reais. O viés de confirmação, como é conhecido, leva gestores a buscar apenas as informações que sustentam a decisão que já querem tomar, ignorando os alertas contrários.
No fim, os números da Serasa e do Sebrae descrevem o mesmo fenômeno visto de ângulos diferentes: não é a crise que quebra a empresa, é a decisão tomada sem informação e sob o efeito de um viés não percebido, meses ou anos antes de o caixa apertar. Enquanto o problema for tratado como um evento (a falência, a recuperação judicial, o fechamento das portas), a solução vai continuar chegando tarde. Quando tratado como processo — por meio do controle financeiro em tempo real e da disposição de reconhecer o erro antes que ele se torne dívida —, a crise deixa de ser destino e volta a ser só um risco administrável.
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